"Um setor perdeu um canal e descobriu que não tinha para onde ir. Uma empresa somou um canal e tirou espaço de quem ficou de fora."
Dois fatos empresariais marcaram a quinta-feira, e eles contam a mesma história por lados opostos.
Visão AE
Dois fatos empresariais marcaram a quinta-feira, e eles contam a mesma história por lados opostos.
A União Europeia passou a barrar produtos brasileiros de origem animal nos 27 países do bloco. A entidade que representa os exportadores de carne foi direta ao explicar o problema: não há substituição automática do mercado europeu, porque cada destino demanda produtos e cortes distintos.
Na véspera, o Magazine Luiza começou a vender 27 mil itens de estoque próprio dentro do marketplace do Mercado Livre. As ações do Magalu subiram mais de 16%. As da Casas Bahia caíram 21,11%.
Um setor perdeu um canal e descobriu que não tinha para onde ir. Uma empresa somou um canal e tirou espaço de quem ficou de fora.
O pano de fundo macro reforça a leitura. O PMI de serviços voltou a crescer em agosto, para 50,5. Mas o índice que soma indústria e serviços ficou em 49,1, abaixo de 50 pelo segundo mês seguido. A economia privada brasileira segue em contração.
E aqui está a decisão mental desta edição: em ambiente sem crescimento de demanda, receita nova quase nunca vem de mercado novo. Vem de canal. Por isso a pergunta que importa neste momento é quantos por cento da sua receita passam por uma porta que você não controla.
Em 60 segundos
- Suspensão europeia em vigor desde ontem, com sete categorias de produto e alcance nos 27 países do bloco.
- A medida não decorre de irregularidade nos produtos, mas de controle não comprovado sobre uso de antibióticos.
- Estimativas do setor apontam risco de cerca de US$ 1,8 bilhão por ano em exportações.
- Carne bovina pode ficar fora por mais tempo; avicultura tende a recuperar acesso mais rápido, segundo fontes do setor.
- Magalu passa a vender 27 mil itens no Mercado Livre; ações sobem mais de 16% e Casas Bahia cai 21,11%.
- XP estima 75% de clientes novos no canal e classifica o acordo como estratégico, mas não transformador.
- PMI de serviços sobe a 50,5, mas o índice que soma indústria e serviços fica em 49,1, ainda em contração.
- Pedidos em atraso caem de forma acentuada em serviços, sinal de capacidade ociosa.
- Custo sobe em cabos, tintas, madeira, componentes eletrônicos, energia, folha, financiamento e frete.
- Ibovespa interrompe 11 altas seguidas e dólar fecha a R$ 5,105, com entrada de R$ 811 milhões de estrangeiros.
O que muda na mesa do CEO
Comece pela pergunta de concentração.
Não é uma pergunta nova, mas ontem ela ficou cara para um setor inteiro. Quantos por cento da sua receita dependem de um único cliente, de um único mercado ou de um único canal de distribuição? E, mais importante: se essa porta fechar amanhã, quanto tempo você leva para abrir outra com o mesmo preço?
A resposta honesta quase sempre é "mais tempo do que eu imaginava". Foi o que a suspensão europeia deixou claro.
Cinco decisões mudam de prazo por causa do que aconteceu.
Exposição de receita. Mapear, por linha e por unidade, quanto da receita dos próximos dois trimestres depende de um canal específico. Não em percentual de volume, que engana, mas em percentual de margem.
Custo de insumo. A pesquisa de serviços trouxe a lista completa do que subiu em agosto: cabos, alimentos, componentes eletrônicos, tintas, têxteis, madeira, energia, combustível, mão de obra, financiamento e transportes. A pressão não está concentrada em uma categoria, o que torna a negociação com fornecedor mais difícil e mais urgente.
Carteira de trabalho vendida. Aqui está o dado que quase ninguém leu. Os pedidos em atraso caíram de forma acentuada no setor de serviços, o que sugere capacidade ociosa. Empresa que entrega mais rápido do que vende não está crescendo. Está consumindo a fila.
Câmbio. O dólar fechou a R$ 5,105, depois de uma semana de recuo puxada por leitura eleitoral. Para quem compra fora, a janela existe agora.
Estratégia de canal. Se um concorrente seu está em dificuldade, o espaço dele está sendo dividido neste momento. A queda de 21% na ação da Casas Bahia foi o mercado precificando exatamente isso.
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A porta europeia fechou, e o escopo é maior do que se falava
A suspensão entrou em vigor em 3 de setembro e alcança mais produtos do que as primeiras notícias indicavam: carne bovina e suína, carne de frango, ovos, mel, pescados e animais vivos destinados à produção de alimentos. Vale para os 27 países do bloco. Estimativas do setor apontam risco de cerca de US$ 1,8 bilhão por ano em exportações.
O detalhe que muda a conversa é este: a medida não decorre de irregularidade encontrada nos produtos brasileiros. Decorre da avaliação europeia de que os mecanismos de controle sobre uso de antibióticos na criação animal são insuficientes.
Não acharam nada de errado na carne. Concluíram que o Brasil não comprovou o processo que existe antes de a carne existir.
E a exigência alcança toda a cadeia. Não basta controle no frigorífico: é preciso demonstrar conformidade em fábrica de ração e em granja, ao longo do ciclo de vida do animal.
Aqui está a lição que sai do agro e serve para qualquer exportador. Conformidade documental deixou de ser custo administrativo. Virou condição de venda.
O dimensionamento importa para não exagerar. Em 2025, o Brasil exportou 108,6 mil toneladas de carne bovina ao bloco, cerca de 3,5% do volume total embarcado do produto. O país segue vendendo para mais de 170 mercados.
Mas o percentual de volume subestima o problema, e a ABIEC explicou por quê. A Europa compra cortes de maior valor agregado, e a produção destinada ao bloco é historicamente segregada dos demais destinos. Não é estoque genérico esperando comprador. É linha específica, com embalagem e certificação próprias, que precisa ser requalificada para outro mercado.
Realocar volume é possível. Realocar preço, não.
Há ainda uma diferença de relógio entre as cadeias que muda o planejamento. Avaliações de fontes do setor indicavam que a carne bovina poderia permanecer fora da lista até 2027, enquanto cadeias de ciclo mais curto, como avicultura, teriam condições de recuperar acesso mais rápido. A ABPA avalia que, se a restrição se prolongar, parte da produção destinada à Europa poderá ir para o mercado interno ou para os cerca de 150 países que já importam frango brasileiro. Uma auditoria europeia sobre aves e mel se encerra hoje.
Planejar as duas cadeias com o mesmo horizonte é erro de dimensionamento.

O outro lado: quando dois concorrentes abrem loja um dentro do outro
Na quarta-feira, o Magazine Luiza e o Mercado Livre anunciaram uma parceria que começou a operar no mesmo dia.
Cerca de 27 mil itens de estoque próprio do Magalu, da KaBuM! e da Época Cosméticos passaram a ser vendidos dentro do marketplace do Mercado Livre, com loja oficial no aplicativo. A entrega fica com a Magalog, o operador logístico do grupo. O acordo prevê cláusulas de reciprocidade e não exclusividade, e sucede parcerias semelhantes com Amazon, AliExpress, Americanas, Itaú Shopping e Livelo.
As duas empresas avaliam ainda usar as 1.200 lojas físicas da rede como pontos de retirada e devolução, e ampliar a entrega de itens acima de 30 quilos.
O CEO Frederico Trajano resumiu a lógica: a estratégia busca acelerar as vendas online no curtíssimo prazo, com rentabilidade.
O mercado reagiu em duas direções. Magalu subiu mais de 16%. Casas Bahia, que mantinha parceria com a mesma plataforma e está em recuperação judicial, caiu 21,11%.
Analistas do Citi avaliaram o movimento como passo natural, especialmente após o pedido de recuperação da concorrente. A XP estima que cerca de 75% dos compradores no marketplace parceiro sejam clientes novos para o Magalu, o que reduziria a canibalização, ou seja, o risco de a venda no canal novo simplesmente tirar venda do canal próprio.
Vale o contraponto honesto: a própria XP classificou o acordo como estratégico, mas não transformador.
O que interessa aqui não é a leitura de bolsa. É a leitura de gestão.
Com consumo das famílias em queda de 0,4% no trimestre e confiança do consumidor no menor nível desde novembro de 2022, não existe demanda nova para capturar. Nesse ambiente, a alternativa a disputar cliente no preço é dividir canal. Dois concorrentes diretos viraram parceiros porque cada um tinha o que faltava ao outro: audiência de um lado, sortimento pesado e logística de outro.
E o detalhe que preserva autonomia está nas cláusulas: reciprocidade, não exclusividade e uso da própria malha de entrega.
Em mercado sem crescimento, ninguém ganha cliente novo. Ganha cliente de alguém.

Serviços cresceram. A economia privada, não.
O PMI de serviços subiu de 49,7 em julho para 50,5 em agosto, voltando ao campo de expansão. Acima de 50 significa crescimento; abaixo, contração. Neste ano, apenas julho havia registrado retração no setor.
Boa notícia, com quatro ressalvas que estão na mesma divulgação.
O ritmo foi apenas marginal. Os volumes de novos negócios ficaram praticamente estáveis, depois da queda mais acentuada em dez meses registrada em julho. O emprego no setor ficou inalterado, com parte das empresas contratando para repor vagas e outra parte reduzindo quadros para controlar custos. E os pedidos em atraso caíram de forma acentuada, o que sugere capacidade ociosa.
Mais importante: o PMI Composto, que soma indústria e serviços e mostra a economia privada como um todo, subiu de 48,8 para 49,1 e permaneceu abaixo de 50 pelo segundo mês seguido, pressionado pela indústria de transformação.
Serviços responde por cerca de 70% do PIB brasileiro. Ele voltou a crescer e não foi suficiente para tirar a economia privada da contração. É a medida exata de como a indústria está pesando: o PMI industrial de agosto ficou em 46,3, a pior leitura em 40 meses.
Na avaliação de Pollyanna De Lima, da S&P Global, a expansão permaneceu frágil diante de demanda moderada e pressões de custo, e a recuperação dependerá de demanda mais forte, redução das pressões inflacionárias e maior disposição das empresas para investir e contratar.
Para quem presta serviço, a leitura prática é a fila. Pedido em atraso é o trabalho já vendido e ainda não entregue, e ele é o que garante a próxima folha. Quando a atividade sobe e a fila encolhe ao mesmo tempo, a empresa está entregando estoque de trabalho, não repondo. Se a entrada de novos contratos não acelerar em setembro, o crescimento de agosto não se sustenta.
Vale registrar um item da lista de custos que passou despercebido e interessa a quem tem projeto de tecnologia: cabos e componentes eletrônicos entraram entre os insumos em alta. Na semana passada, o ramo de equipamentos de informática e eletrônicos havia crescido 12,2% na produção industrial de julho. O sinal sugere que há demanda aquecida por infraestrutura digital pressionando preço de componente, e não apenas volume de produção. É leitura possível, não conclusão confirmada. Mas quem tem contrato de projeto reajustado apenas por câmbio pode estar desprotegido.

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O mercado deu uma pausa, e a economia não mudou
O Ibovespa fechou praticamente estável em 3 de setembro, com variação de 0,01% negativo, aos 185.188 pontos. Com isso, interrompeu uma sequência de 11 altas consecutivas, período em que acumulou ganho de 11,34%. Na máxima do dia chegou a 188.891 pontos, patamar não visto desde maio.
O dólar fechou a R$ 5,105, oscilando entre R$ 5,071 e R$ 5,113 ao longo do pregão. E setembro começou com fluxo positivo de estrangeiros, com entrada líquida de R$ 811 milhões no primeiro pregão do mês.
Para o sócio da Supernova Investimentos João Debom, o desempenho foi muito mais uma pausa técnica do que uma mudança de tendência.
A leitura da Bússola continua a mesma das últimas edições, e agora com mais evidência. A bolsa subiu 11,34% em onze pregões enquanto o índice que mede a economia privada permaneceu abaixo de 50 pelo segundo mês. Não são a mesma coisa. O Ibovespa é concentrado em petróleo, mineração e bancos, e responde a expectativa sobre política econômica futura. Ele não está medindo a demanda do seu negócio.
O gatilho da semana foi eleitoral. Uma pesquisa Quaest na quarta e uma Datafolha na quinta, esta apontando empate técnico em cenário de segundo turno, com 46% e 44%, dentro da margem de erro de dois pontos. Na rodada anterior, de 21 de agosto, o placar era 47% a 43%.
O ponto prático não tem nada de político. Duas pesquisas em dois dias moveram câmbio, juro futuro e valor de mercado das empresas listadas. Isso significa que, até outubro, o calendário de divulgação de pesquisas passou a ser calendário de execução financeira. Se você precisa fechar câmbio, captar ou precificar contrato em dólar, ele entrou no seu cronograma.
E há um contrapeso externo. Nos dias anteriores, o petróleo subiu por três pregões seguidos e chegou perto de US$ 95, empurrando os juros dos títulos globais para cima. Ontem houve um dia de alívio, e a curva de juros brasileira acompanhou o recuo dos rendimentos americanos. Três dias de guerra pressionaram o custo do dinheiro no mundo. Um dia de trégua já apareceu na curva daqui. É essa a velocidade.
Hoje sai o relatório de emprego dos Estados Unidos. Os dois indicadores antecedentes da semana vieram abaixo do esperado: a pesquisa de vagas em aberto mostrou 7,3 milhões, e o dado de emprego privado apontou apenas 38 mil vagas em agosto. A expectativa para o número de hoje varia conforme a fonte, entre 45 mil e 56 mil vagas, depois do fechamento de 23 mil postos em julho. Se a desaceleração se confirmar, cresce a percepção de espaço para política monetária menos restritiva por lá, o que tende a favorecer moedas emergentes.

O que colocar na reunião de diretoria
- Qual percentual da nossa margem, e não do nosso volume, depende de um único canal, cliente ou mercado que não controlamos?
- Se esse canal fechasse hoje, quanto tempo levaríamos para requalificar produto, embalagem e certificação para um destino alternativo, e a que preço?
- Nossa fila de trabalho já vendida está crescendo ou encolhendo em relação ao trimestre anterior?
- Existe algum concorrente em dificuldade cujo espaço está sendo dividido neste momento, e estamos na conversa?
- Nossos contratos de fornecimento e de projeto reajustam apenas por câmbio, ou cobrem alta de energia, folha, frete e componente?
Agenda da próxima semana
Hoje, 4 de setembro. Sai o relatório de emprego dos Estados Unidos, o dado que mais move a expectativa sobre o banco central americano e, por consequência, o câmbio e o custo de dívida no Brasil. No mesmo dia é divulgada a balança comercial brasileira de agosto, com projeção da Análise Econômica de superávit próximo de US$ 6,62 bilhões. E se encerra a auditoria europeia sobre aves e mel, que pode definir se a cadeia de frango recupera acesso ao bloco antes da carne bovina.
Segunda, 8 de setembro. Entra em vigor o rebalanceamento da carteira do Ibovespa, com inclusão da Tenda e saída de Petrorecôncavo e SLC Agrícola. Relevante para quem tem meta variável indexada ao índice ou faz gestão de tesouraria com exposição a bolsa.
Quinta, 10 de setembro. O Banco Central Europeu decide sobre juros, com expectativa amplamente formada de elevação. Mais um banco central relevante apertando enquanto o Copom afrouxa. Cada aperto lá fora reduz o quanto a Selic pode cair aqui sem pressionar o câmbio.
Fora do calendário de indicadores. No dia 14 vence o prazo de substituição de candidaturas, antecedendo o primeiro turno de 4 de outubro. E seguem sem data definida dois itens que importam: a inclusão da proposta de redução de jornada na pauta do plenário do Senado e a reinclusão do Brasil na lista europeia de países habilitados.
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Próximos passos
- Mapeie, por linha e unidade, quanto da margem depende de um único canal, cliente ou mercado
- Modele cenários de 6, 12 e 18 meses de suspensão europeia, com horizonte distinto por cadeia
- Compare o tamanho da fila de trabalho já vendida com o trimestre anterior antes de decidir contratação
- Reabra contratos de fornecimento nesta janela, com atenção a energia, frete e componente, não só a câmbio
- Execute nesta semana o hedge e as compras dolarizadas com entrega dentro do trimestre
Esta publicação tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento, jurídica ou financeira. As decisões tomadas com base neste material são de responsabilidade exclusiva do leitor. Análise Econômica.
