Arquivo
Bússola do CEO•23 de outubro de 2026•Edição #63

Três riscos fora do controle, uma resposta dentro dele

Petróleo em alta, eleição indefinida e crédito mais seletivo: o que a empresa pode deixar decidido antes da segunda-feira.

Bússola do CEO · Leitura de 8 min
Três riscos fora do controle, uma resposta dentro dele
"Não é semana de apostar. É semana de ter gatilho."

A semana termina com três fontes de risco ao mesmo tempo, e nenhuma delas está sob o controle das empresas. O petróleo voltou a US$ 113, o maior nível desde maio, com o aumento da tensão entre Estados Unidos e Irã. A disputa eleitoral segue empatada nas pesquisas.

Visão AE

A semana termina com três fontes de risco ao mesmo tempo, e nenhuma delas está sob o controle das empresas. O petróleo voltou a US$ 113, o maior nível desde maio, com o aumento da tensão entre Estados Unidos e Irã. A disputa eleitoral segue empatada nas pesquisas. E o primeiro grande banco a divulgar o resultado do trimestre mostrou inadimplência em alta e mais dinheiro reservado para perdas.

Diante de um quadro assim, a tentação é tentar adivinhar o desfecho de cada frente. A leitura da Análise Econômica é outra: esta não é uma semana para apostar em cenários, mas para chegar à segunda-feira com planos e gatilhos definidos. A pergunta que vale para a reunião desta sexta é o que a empresa faz se a próxima semana abrir com dólar mais alto, petróleo mais caro e crédito mais seletivo, e quem toma cada decisão.

Em 60 segundos

  • Petróleo: Brent a US$ 113 após a escalada no Oriente Médio; trabalhar com faixa de US$ 105 a US$ 120.
  • Diesel: o ciclo do subsídio termina no início da semana, sem anúncio de renovação.
  • Crédito: inadimplência e provisões em alta no Bradesco sugerem bancos mais criteriosos.
  • Gás: indústria comprou gás da União a cerca de metade do preço atrelado ao petróleo.
  • Minério: perto de US$ 100, com oferta abundante; aço pode ficar mais barato.
  • Inflação: IPCA-15 deve desacelerar com a energia, mas alimentos voltam a pressionar.

O que muda na mesa do CEO

Na prática, o fim de semana pede atenção a quatro frentes que dependem só da empresa.

A primeira é o caixa: saber quanto há disponível e por quanto tempo a operação aguenta uma semana mais volátil sem precisar de crédito novo.

A segunda é o câmbio, com o dólar a R$ 5,04 depois de duas altas seguidas. Vale definir antes de segunda-feira em que nível de cotação a empresa fecha ou adia compras e pagamentos em moeda estrangeira.

A terceira frente são os contratos de frete e energia, com o petróleo em alta e o ciclo atual do subsídio ao diesel terminando no início da próxima semana.

A quarta são as linhas de crédito. O balanço do Bradesco sugere que os bancos devem ficar mais criteriosos, e confirmar limites agora tende a ser mais fácil do que negociar com pressa depois.

Seus concorrentes vão ler essa análise depois. Crie sua conta e receba a Bússola do CEO todas as manhãs, antes do mercado abrir.

Criar minha conta grátis

Petróleo de volta a US$ 113

O Brent subiu 4% na quinta-feira e fechou a US$ 113,17, cerca de 3% acima do nível da sexta anterior. A alta veio de uma sequência de notícias sobre o Oriente Médio. As defesas sauditas interceptaram um drone que tentava atingir uma instalação da Saudi Aramco no campo de Shaybah, e um ataque ao aeroporto de Dammam deixou dois mortos na noite de quarta.

Os Estados Unidos ordenaram a saída de funcionários não essenciais da Arábia Saudita, maior exportadora de petróleo do mundo, e a imprensa americana informou que há opções militares em estudo em relação ao Irã. Segundo o Financial Times, o presidente americano disse que não haverá ação antes das eleições de meio de mandato, em 3 de novembro.

São relatos e declarações, e não decisões, mas o mercado reagiu ao aumento do risco. Para logística, agronegócio, varejo e indústria petroquímica, a leitura prudente é trabalhar com o petróleo entre US$ 105 e US$ 120 no orçamento de energia e frete, em vez de um único número.

No Brasil, a decisão mais próxima é a do subsídio ao diesel. Nas últimas edições, tratamos 26 de outubro como data fixa de vencimento. Na verdade, a portaria que mantém o subsídio de R$ 2,12 por litro não fixa validade, e essa data é um cálculo da imprensa a partir do ciclo de 30 dias iniciado em setembro.

O Congresso prorrogou por 60 dias o crédito de R$ 2,55 bilhões que financia o subsídio ao diesel, o que significa que há recursos disponíveis. Até a noite de quinta, porém, não havia anúncio sobre a renovação. Vale ter prontos os dois cenários de frete para o início da semana.

Crédito: o recado do Bradesco

O Bradesco abriu a temporada de resultados dos grandes bancos com lucro recorrente de R$ 7,1 bilhões no terceiro trimestre, alta de 14,6% em um ano e em linha com o que o mercado esperava. A rentabilidade ficou em 15,6% e a carteira de crédito cresceu 11,1%, para R$ 1,15 trilhão.

Sede corporativa do Banco Bradesco em Cidade de Deus, Osasco

O ponto de atenção está nas linhas de baixo. As parcelas atrasadas há mais de três meses subiram para 4,6% da carteira, contra 4,1% um ano antes e 4,3% no trimestre anterior.

As provisões para perdas com calotes chegaram a R$ 10,6 bilhões, 24,3% acima do mesmo período de 2025. Quando um banco aumenta esse colchão, a concessão de crédito costuma ficar mais criteriosa, inclusive para bons clientes.

Para as empresas, há dois efeitos práticos. O primeiro é sobre o próprio financiamento: é um bom momento para confirmar limites e condições das linhas existentes.

O segundo é sobre os clientes. No varejo, crédito mais seletivo pode tornar o parcelamento mais difícil de aprovar justamente na Black Friday, e para quem vende a prazo a outras empresas vale revisar limites e garantias com dados atualizados.

Neste fim de semana, a empresa não controla o petróleo, a urna nem o humor do crédito. Controla o caixa, o câmbio, os contratos e as linhas de crédito, e é ali que a decisão precisa estar pronta.

Duas notícias para a indústria: gás mais barato e minério em queda

No mesmo dia em que o petróleo subiu 4%, uma notícia menos ruidosa trouxe alívio para parte da indústria. O primeiro leilão de gás natural da União exclusivo para indústrias, realizado pela PPSA, vendeu todo o volume ofertado, 1,1 milhão de metros cúbicos por dia, a 32 participantes.

Instalações industriais de gás natural em complexo de processamento

Foto: ReAl · CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons

O preço final estimado para os compradores ficou em cerca de US$ 5,83 por MMBtu, a unidade usada para precificar gás. Pela conta da AE, com o Brent a US$ 113, isso representa entre 43% e 52% do valor dos contratos de distribuidoras atrelados ao petróleo.

Entre os vencedores estão Braskem, CSN, Gerdau, Vale e Yara, e o setor cerâmico teve oito empresas vencedoras, sinal de que a energia mais barata não ficou restrita às gigantes.

O gás será entregue de março a dezembro de 2027 em Itaboraí, no Rio de Janeiro, com o transporte por conta dos compradores, e a PPSA planeja um novo leilão, de 1,8 milhão de metros cúbicos por dia, em 2027. Para químicas, siderúrgicas, cerâmicas, vidreiras e fabricantes de fertilizantes, vale avaliar desde já a participação na próxima rodada.

Na mineração, o movimento foi o oposto. O minério de ferro caiu para cerca de US$ 100 por tonelada na China, mesmo com a produção chinesa de minério 24% menor em setembro, porque os estoques nos portos estão altos e os embarques seguem fortes.

As vendas de aço plano no país recuaram 7,2% no mês. Vale, CSN, Usiminas e Gerdau caíram entre 3,9% e 5,4% na bolsa. Para construtoras e indústrias que compram aço, o cenário pode favorecer a negociação de preços para 2027. Para exportadores de minério, o ponto de partida do próximo ano ficou mais baixo.

Navio cargueiro carregando minério de ferro em terminal portuário

Foto: vasu at en.wikipedia 59.162.175.35 08:37, 13 April 2012 (UTC)vasudevarao.k · CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons

Nos Estados Unidos, a Meta caiu 7% depois de mostrar que seus investimentos em inteligência artificial deixaram o fluxo de caixa negativo no trimestre, mesmo com receita 26% maior.

É mais uma indicação de que investidores aceitam gastos pesados em tecnologia até o ponto em que o caixa deixa de acompanhar, uma régua que serve para projetos de qualquer porte.

Membros leem o arquivo inteiro de edições e salvam as análises que importam para voltar quando quiserem.

Criar minha conta grátis

IPCA-15: o que observar no número de hoje

A prévia da inflação de outubro sai nesta sexta, às 9h. As projeções apontam desaceleração em relação aos 0,70% de setembro: 0,41% pela AE, em estimativa feita no dia 16 e ainda não revisada, 0,45% pelo Bradesco e 0,49% pelo ASA. A conta de luz deve ajudar, com o fim do efeito do bônus de Itaipu e a bandeira tarifária verde.

O número cheio, porém, deve esconder pressões relevantes. Combustíveis e alimentos devem subir, e o Bradesco espera a maior alta de alimentos desde maio, associada ao El Niño.

Para o varejo alimentar e o food service, o recado é antecipar negociações de preço para dezembro. Para o Copom, que se reúne em 3 e 4 de novembro, a composição do índice, especialmente alimentos e serviços, vai pesar mais do que a variação total.

Gêneros alimentícios em mercado representando a pressão da inflação de alimentos

O que colocar na reunião de diretoria

  • Caixa: temos liquidez para atravessar uma semana mais volátil sem depender de crédito novo?
  • Câmbio: em que cotação do dólar fechamos ou adiamos compras e pagamentos em moeda estrangeira?
  • Frete: quais contratos de transporte mudam de custo se o subsídio ao diesel não for renovado?
  • Crédito: nossos limites bancários estão confirmados, e a política de crédito a clientes está atualizada?
  • Energia: vale estudar a participação no próximo leilão de gás da União, previsto para 2027?

Agenda da próxima semana

  • Sexta (23): IPCA-15 de outubro às 9h, além de índices de atividade industrial e de serviços em vários países e da confiança do consumidor nos Estados Unidos.
  • Sábado (24): pesquisas finais antes do segundo turno.
  • Domingo (25): segundo turno da eleição presidencial, que define o ambiente fiscal e regulatório de 2027.
  • Início da semana: fim do ciclo atual do subsídio ao diesel, a primeira decisão econômica depois da votação.
  • Quarta (28): decisão de juros do Federal Reserve.
  • 3 e 4 de novembro: eleições de meio de mandato nos Estados Unidos e reunião do Copom.

A próxima edição chega amanhã cedo. Crie sua conta gratuita e continue um passo à frente.

Criar minha conta grátis

Próximos passos

  • Confirmar o caixa disponível e o fôlego da operação para uma semana volátil.
  • Definir gatilhos de câmbio para compras e pagamentos em dólar antes de segunda.
  • Deixar prontos os dois cenários de frete para a decisão sobre o subsídio ao diesel.
  • Confirmar com os bancos os limites e as condições das linhas de crédito.
  • Revisar o orçamento de energia com o petróleo entre US$ 105 e US$ 120.

Esta publicação tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento, jurídica ou financeira. As decisões tomadas com base neste material são de responsabilidade exclusiva do leitor. Análise Econômica.

Amanhã às 05:57

Receba a próxima edição direto no seu email.

Inscrever-se