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Bússola do CEO23 de setembro de 2026Edição #42

Só um dos três assina a decisão

O governo baixou a inflação que projeta. O Banco Central subiu a dele. No mesmo dia.

Bússola do CEO · Leitura de 8 min
Só um dos três assina a decisão
"Os três olharam para os mesmos dados. Só um deles tem a caneta da Selic."

Ontem foram publicados três documentos oficiais sobre a economia brasileira. Eles não dizem a mesma coisa.

Visão AE

Ontem foram publicados três documentos oficiais sobre a economia brasileira. Eles não dizem a mesma coisa.

O Ministério da Fazenda reduziu a inflação que projeta para este ano, de 5,1% para 4,9%. O mercado reduziu o juro que espera para dezembro. E o Banco Central, no mesmo dia, aumentou a própria projeção de inflação, de 5,1% para 5,2%.

Os três olharam para os mesmos dados. Só um deles tem a caneta da Selic.

Essa diferença de 0,3 ponto parece pequena. Não é. Ela separa quem monta o orçamento supondo corte de juros de quem monta supondo pausa. E separa o dissídio que você vai negociar do reajuste que vai conseguir repassar.

A decisão mental desta edição: escolha conscientemente qual premissa de inflação sua empresa vai adotar, e escreva isso em algum lugar.

Em 60 segundos

  • Banco Central: projeção de IPCA 2026 subiu para 5,2%, acima do teto.
  • Fazenda: projeção caiu para 4,9%; PIB cortado para 2,0% em 2026.
  • Vocabulário: a ata usa "cautela", não "parcimônia". Pausa segue na mesa.
  • Crédito: parágrafo novo liga crédito direcionado a juro neutro mais alto.
  • Mercado: passou a ver Selic terminal em 13,25%, contra a direção do BC.
  • Petróleo: Brent a US$ 99,25, com Ormuz possivelmente reaberto em sete dias.
  • Hoje e amanhã: MP das apostas e relatório de bloqueio do Orçamento.

O que muda na mesa do CEO

Premissa de inflação. Existem três números oficiais para o mesmo IPCA de 2026. Qual deles está na sua planilha?

Premissa de juros. O mercado correu para 13,25%. O documento que saiu ontem não autoriza essa conta.

Custo de financiamento longo. O Copom escreveu, pela primeira vez neste ciclo, que o aumento do crédito subsidiado pode elevar o juro de toda a economia.

Custo de energia. O petróleo cedeu, mas por uma promessa com prazo de uma semana.

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Três documentos, três direções

Comece pelo mais contraintuitivo.

O IPCA de agosto foi negativo: deflação de 0,32%. Mesmo assim, o Banco Central piorou a previsão de inflação para 2026 e 2027.

O motivo cabe em uma linha: a deflação de agosto veio do Bônus de Itaipu creditado nas contas de luz. É um evento pontual, que não se repete.

No cenário de referência do Copom, a projeção subiu de 5,1% para 5,2% neste ano e de 3,8% para 3,9% em 2027. Para o primeiro trimestre de 2028, horizonte relevante da política monetária, ficou em 3,2%. Os 5,2% estão acima do teto da meta, que é 4,5%.

Do outro lado da Esplanada, a Secretaria de Política Econômica fez o movimento inverso: reduziu o IPCA projetado de 5,1% para 4,9% e cortou o crescimento do PIB de 2,3% para 2,0% em 2026 e de 2,5% para 2,3% em 2027, citando os efeitos do juro restritivo sobre a atividade.

E aqui está a frase que mais interessa a quem vende: a revisão do crescimento se concentrou em serviços e indústria, os setores mais sensíveis a crédito e demanda doméstica.

Para efeito prático, a escolha da premissa não é técnica. É de orçamento. Em contrato indexado e em negociação salarial, 0,3 ponto é dinheiro.

Fachada da sede do Banco Central do Brasil em Brasília

Foto: Paulo Rená da Silva Santarém · CC BY-SA 2.0 · Wikimedia Commons

O IPCA de agosto foi negativo. O Banco Central, ainda assim, elevou a inflação que projeta para o ano. A conta de luz derrubou um mês, não o ano.

A palavra que o Copom não usou

A ata tem vinte parágrafos, e é neles que aparece o que o comunicado não disse.

O comitê reafirmou que o cenário exige serenidade e cautela, que a incerteza aumentou e que, com expectativas desancoradas, a política monetária precisa ficar mais restritiva por mais tempo.

Agora, o detalhe de vocabulário que muda a leitura. Em política monetária, "parcimônia" costuma indicar continuidade do movimento em ritmo mais lento. "Cautela" sugere disposição de desacelerar ou até interromper. A ata de setembro usa cautela e não usa parcimônia. As duas portas ficam abertas, e a decisão passa a depender inteiramente dos dados até novembro.

O mercado leu o contrário. Depois da ata, 19 de 33 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast passaram a prever mais dois cortes de 0,25 ponto em 2026, o que levaria a Selic a 13,25%. Na segunda, o Focus ainda falava em 13,50%.

Ou seja: o mercado ficou mais otimista com os juros no mesmo dia em que o Banco Central ficou mais pessimista com a inflação. Uma das duas leituras vai se frustrar.

Há ainda um parágrafo novo, que não existia na ata de agosto, e que fala direto com quem se financia. O Copom apontou que dúvidas sobre a estabilização da dívida pública, o aumento do crédito direcionado e a perda de ritmo em reformas podem elevar a taxa de juros neutra, aquele nível que não acelera nem freia a inflação.

Traduzindo: crédito subsidiado de um setor tende a encarecer o crédito livre de todos os outros. Se a sua estrutura de capital depende de linha rural, imobiliária ou de BNDES, esse parágrafo é sobre você.

A curva caiu, mas não por causa de Brasília

Os juros futuros fecharam em queda em toda a curva. O DI para janeiro de 2027 foi a 13,525%, ante 13,547%, e os vencimentos mais longos recuaram junto.

Antes de comemorar, vale saber de onde veio a notícia boa.

O Brent recuou 1,09% e fechou a US$ 99,25, com o Irã sinalizando que poderá reabrir o Estreito de Ormuz em sete dias e a Arábia Saudita se preparando para retomar as exportações pelo porto de Yanbu. À tarde, Trump disse que autoridades americanas tiveram uma reunião de três horas com a delegação iraniana, em Nova York.

Navio petroleiro navegando no Estreito de Ormuz

Foi isso que virou o dia. O Ibovespa fechou em alta de 0,44%, aos 187.422 pontos, depois de marcar 184.976 na mínima, com R$ 30,23 bilhões negociados. O dólar ficou praticamente estável, a R$ 5,10.

Uma sessão de R$ 30 bilhões que vira por causa de uma declaração diplomática diz algo sobre a solidez do preço. Use a janela para contratar volume e executar hedge. Não use para rebaixar a premissa de custo do orçamento.

Há um precedente útil: em julho, mesmo com o Brent abaixo de US$ 90, a defasagem do diesel no Brasil seguia elevada. Petróleo mais barato lá fora não chega automaticamente ao preço aqui dentro.

E uma observação do próprio Banco Central, que muda a conta de quem precisa repassar preço: o Copom afirmou que não vai reagir aos efeitos primários de choques de oferta, leia-se petróleo, mas vai acompanhar os efeitos de segunda ordem. Combustível caro, sozinho, não trava o ciclo de juros. Combustível caro virando preço final, sim.

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O que sai hoje, e o que sai amanhã

Dois documentos da semana ainda podem mexer no seu plano.

Hoje, a expectativa é de assinatura da medida provisória sobre apostas. Pelo que apurou a imprensa, o texto proibiria cassinos e jogos online, como o Tigrinho, mantendo as apostas esportivas com restrições mais duras de publicidade. Nada foi publicado, então tudo aqui é hipótese.

O ponto que quase ninguém está fazendo é de receita, não de moral. A estimativa do próprio mercado de apostas é de que os cassinos online respondem por 60% a 90% da receita da maioria das plataformas. Ou seja, a medida não reduz o número de apostadores: ela atinge o que paga a conta do setor. Por isso a reação foi tão forte, com clubes e federações alegando perdas de até R$ 1 bilhão em patrocínios.

Para quem anuncia, isso tem um lado prático: se um comprador dominante sair do leilão de mídia esportiva, o inventário tende a ficar mais disponível e mais barato em 2027.

E um número melhor que qualquer estimativa de gasto: mais de 1 milhão de pessoas já pediram autoexclusão do CPF em sites de apostas, e 35% delas por perda de controle. O SUS ampliou em agosto a capacidade de teleatendimento para até 100 mil consultas mensais nesse tema, ante as 600 do piloto iniciado em março. Atenção: isso é capacidade instalada, não demanda registrada. Para o RH, ainda assim, é um alerta sobre endividamento e absenteísmo.

Amanhã, sai o Relatório Bimestral de Receitas e Despesas, que dirá se haverá bloqueio de despesa federal. Como referência, a IFI calcula que seria necessário um contingenciamento de R$ 35,7 bilhões para cumprir a meta em 2027, e isso sem contar um aporte de R$ 33,8 bilhões ao Fundo de Compensação aos Estados. É projeção de órgão independente, não decisão do governo. Mas quem vende ao poder público precisa ler esse documento.

Ainda de ontem, uma nota para quem opera turno: na tribuna da ONU, o presidente defendeu o fim da escala 6x1, ao lado de pautas como soberania sobre minerais críticos, defesa do Pix e regulação de big techs e de IA. Não é lei nem projeto aprovado. É sinal de agenda. Vale simular o custo da sua operação em outra escala antes que a simulação vire obrigação.

Presidente Lula discursando no pódio da Assembleia Geral da ONU

O que colocar na reunião de diretoria

  • Qual premissa de IPCA nosso orçamento usa: 4,9% ou 5,2%? Quem decidiu isso?
  • Se o Copom pausar em novembro, o que muda no nosso plano de captação?
  • Quanto do nosso funding depende de linhas direcionadas, e o que acontece se elas encarecerem?
  • Temos exposição a recebíveis federais que precise ser revista antes do relatório de amanhã?
  • Qual seria o custo da nossa operação em uma escala de trabalho diferente da atual?

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Agenda da semana

  • Hoje (23): assinatura prevista da MP das apostas. PMIs preliminares de EUA e Europa, primeira leitura global após o choque de energia.
  • Quinta (24): Relatório Bimestral de Receitas e Despesas, Relatório de Política Monetária do BC e Sondagem do Consumidor FGV. Em Washington, cúpula entre Trump e Xi, com a trégua comercial vencendo em novembro.
  • Sexta (25): IPCA-15 de setembro. A projeção da AE é de +0,49%, após o recuo de 0,40% em agosto. É o teste da tese do próprio Banco Central: a de que a deflação foi um evento tarifário.
  • Defina e registre qual premissa de inflação vale para o orçamento e para o dissídio
  • Reavalie a exposição a linhas de crédito direcionado no plano de investimento
  • Use a janela do petróleo para contratar volume, mantendo cenário de estresse no orçamento
  • Mapeie recebíveis e contratos federais antes do relatório de amanhã
  • Simule o custo da operação em uma escala de trabalho alternativa

Esta publicação tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento, jurídica ou financeira. As decisões tomadas com base neste material são de responsabilidade exclusiva do leitor. Análise Econômica.

Amanhã às 05:57

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