"O mesmo barril enche a balança comercial e esvazia a margem do frete."
Hoje o Brasil recebe dois termômetros. Às 9h, o IBGE diz quanto os preços subiram em setembro. Ao longo do dia, mais uma pesquisa diz como está o eleitor. O mercado vai reagir aos dois.
Visão AE
Hoje o Brasil recebe dois termômetros.
Às 9h, o IBGE diz quanto os preços subiram em setembro. Ao longo do dia, mais uma pesquisa diz como está o eleitor. O mercado vai reagir aos dois.
A sua empresa não precisa reagir a nenhum.
O IPCA mede o preço. A pesquisa mede o eleitor. Nenhum dos dois mede a sua operação. O que mede a operação é saber quanto da margem depende de diesel, de crédito ao consumidor e de juros, e ter um plano para quando cada um andar contra você.
Em 60 segundos
- IPCA: setembro deve vir alto por causa da luz. Olhe serviços e alimentos.
- Juros: Selic em 13,75%, com espaço limitado para cortes rápidos.
- Eleição: disputa aberta. Volatilidade de câmbio até o dia 25.
- Petróleo: Brent acima de US$ 104. Frete e embalagem sentem primeiro.
- Consumo: presentes mais caros, menos unidades vendidas, crédito no limite.
- IA: comércio global cresce com ela; Wall Street quer ver a receita.
O que muda na mesa do CEO
Três frentes pedem atenção antes do fim de semana.
Capital de giro. Juros caindo devagar significam dinheiro caro por mais tempo. A Selic está em 13,75%. Orce 2027 com um cenário de juros parados, não só com o de cortes.
Custo logístico. O petróleo voltou a ter três dígitos. Na bolsa, isso virou alta da Petrobras. Na sua operação, vira frete, embalagem e diesel.
Crédito do cliente. A inadimplência das pessoas físicas está em 8,01%, o maior nível da série iniciada em 2011. Quem vende parcelado precisa olhar a carteira com lupa.
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Inflação: setembro foi caro por causa da conta de luz
A Análise Econômica projeta IPCA de 0,70% em setembro e 4,45% em 12 meses. O Banco Central, no seu relatório de política monetária, projetou 0,65%.
O motivo principal é conhecido: o bônus de Itaipu, que barateou a conta de luz em agosto, saiu da fatura em setembro. Os alimentos também pressionam, com sazonalidade de fim de ano e risco de El Niño. A prévia da FGV já apontou na mesma direção: o IPC-DI subiu 0,67% em setembro, puxado por luz e alimentos.
Um número alto hoje não é surpresa. O que importa é a composição. Se serviços e alimentos vierem fortes, diminui o espaço para o Copom cortar juros com mais velocidade. O próprio BC avisou que a inflação acumulada em 12 meses deve voltar a superar o teto da meta nos próximos meses.
Para a construção e o mercado imobiliário, isso significa financiamento caro por mais tempo. Para a indústria, CAPEX que continua esperando. Para o varejo, consumidor que continua parcelando pouco.
Um corte de Selic não é uma promessa de dinheiro barato.
Eleição: o mercado precifica a partir de hoje
As primeiras pesquisas do 2º turno saíram ontem.
No Datafolha, com 2.520 entrevistas entre 6 e 8 de outubro e margem de erro de 2 pontos, Flávio Bolsonaro tem 49% dos votos totais e Lula, 45%. Nos votos válidos, que excluem brancos e nulos, o placar é de 52% a 48%. É uma vantagem numérica de Flávio, no limite da margem de erro. No PoderData/Aya, a leitura em votos válidos é de 53% a 47%.
O pregão de ontem fechou antes do Datafolha. A reação do mercado começa hoje, junto com o IPCA. E não para: hoje sai a AtlasIntel, e na segunda, a Quaest.
Para a empresa, o efeito prático até o dia 25 não está em mudança de regra. Está no preço dos ativos: câmbio, juros futuros e custo de proteção. O dólar fechou ontem a R$ 5,02, acima dos R$ 5 que voltou a ultrapassar na quarta, depois da ata do Fed.
A eleição segue aberta. O que a empresa controla é a exposição ao vaivém do câmbio. Para quem importa ou tem dívida em dólar, a pergunta é simples: quanto da exposição está protegida até o fim do mês? E uma regra prática: não tome decisão grande no dia em que sai pesquisa.
Petróleo: o barril passou de US$ 100

Foto: NOAA's National Ocean Service · Public domain · Wikimedia Commons
O Brent subiu 4,07% ontem e fechou acima de US$ 104. A alta veio da tensão no Oriente Médio e do risco de furacões no Golfo do México.
Parte dela foi devolvida depois que Trump disse que os Estados Unidos não atacarão o Irã antes das eleições americanas de 3 de novembro. O bloqueio naval, porém, continua "em pleno vigor". É uma trégua com data de validade.
Na bolsa, o efeito foi direto. As ações ordinárias da Petrobras subiram 3,53% e puxaram o Ibovespa para 206.220 pontos, alta de 0,94%. A alta da bolsa foi de petróleo, não de política.
O mesmo barril tem efeitos opostos por setor. Para quem produz e exporta óleo, é receita. Para quem transporta, é custo. A China continua com as exportações de combustíveis suspensas "até novo aviso", o que mantém o mercado de diesel apertado.
- Logística e varejo: frete por entrega mais caro no quarto trimestre.
- Indústria: resinas, embalagens e solventes acompanham o petróleo, mesmo com o dólar parado.
- Agro e proteínas: diesel e frete pesam junto com o grão mais caro no atacado.
Trabalhe com uma faixa de preço, não com um número só. Petróleo acima de US$ 100 não é manchete de sexta. É custo de segunda.
O mesmo barril enche a balança comercial e esvazia a margem do frete.
Consumo: faturar mais vendendo menos não é crescimento

A CNC projeta R$ 9,27 bilhões em vendas no Dia das Crianças, ante R$ 9,11 bilhões no ano passado. Parece crescimento. Mas a cesta de presentes ficou 6,7% mais caro: chocolates subiram 19,3%, videogames 11,2%, brinquedos 7,1%. As roupas subiram cerca de 4% e viraram o presente mais racional.
Se o preço sobe mais do que a venda, o consumidor está levando menos unidades. O pano de fundo explica: juros médios ao consumidor de 61,7% ao ano, 82% das famílias endividadas e inadimplência recorde. A própria CNC espera desaceleração do consumo de bens financiáveis no segundo semestre.
Para o varejo, a lição vale para o Natal: planeje a compra pela unidade, não pelo valor. Para os bancos, o juro alto sustenta a margem até a inadimplência mandar a conta. Ontem, as ações preferenciais do Bradesco caíram 2,09%.
O consumidor não sumiu. Ele comprou um presente menor.
Membros leem o arquivo inteiro de edições e salvam as análises que importam para voltar quando quiserem.
Enquanto isso, no mundo
A IA move o comércio e começa a ser cobrada. A OMC dobrou a previsão de crescimento do comércio mundial de bens em 2026, de 1,9% para 3,9%. Chips e servidores responderam por 47% desse crescimento no primeiro semestre. No mesmo dia, a Nasdaq caiu 1,25% depois de o Financial Times reportar que a receita anualizada da OpenAI estaria perto de US$ 50 bilhões, abaixo dos cerca de US$ 70 bilhões noticiados antes. A empresa não comentou. A CoreWeave caiu 7,77%. Para o CEO brasileiro, o recado é o mesmo do conselho: projeto de IA vai ser cobrado por resultado, não por anúncio.

Quem paga a luz do data center. Um relatório do Senado americano aponta que nenhuma das sete grandes empresas investigadas aceitou pagar integralmente a nova rede elétrica de que seus data centers precisam. Um data center de 100 MW consome como 100 mil casas e emprega cerca de 100 pessoas. Na Louisiana, um projeto da Meta pode subir a conta de luz dos moradores em US$ 8 a US$ 13 por mês. O debate deve chegar ao Brasil, que disputa esse tipo de investimento.
O El Niño ganhou um mapa. A Embrapa publica hoje, às 10h, orientações técnicas por região: chuva concentrada no Sul, seca no Semiárido, rios baixos no Norte, calor e falta d'água no Centro-Oeste. O Banco Central já considera que o fenômeno pode reduzir a produtividade de milho e arroz. Para agro, alimentos e energia, o El Niño não é previsão do tempo. É orçamento de 2027.

A 6x1 ganhou uma disputa de calendário. O Senado fez ontem a terceira de cinco sessões de discussão da PEC que reduz a jornada de 44 para 40 horas. O governo quer votar antes do dia 25 e prepara pedido para encurtar prazos. A oposição critica a pressa. A data depende do plenário. O Senado discute o calendário. A empresa pode discutir a escala.
O que colocar na reunião de diretoria
- Qual parte da nossa exposição cambial está protegida até o fim de outubro?
- Quanto diesel, frete e embalagem pesam no custo de cada linha de produto?
- O orçamento de 2027 tem um cenário com Selic parada?
- Como está a inadimplência da nossa carteira própria e quem compra parcelado de nós?
- Quantos funcionários estão em escala 6x1 e quanto custaria uma jornada de 42 horas?
Agenda da próxima semana
- Hoje, 9h: IPCA de setembro. Define o tom para os cortes da Selic.
- Hoje, 10h: Embrapa publica o mapa do El Niño por região.
- Hoje: pesquisa AtlasIntel, com 5.000 entrevistas.
- Segunda, 12/10: feriado, Dia das Crianças e pesquisa Quaest.
- Semana de 13/10: quarta e quinta sessões de discussão da PEC 6x1 no Senado.
- Quarta, 14/10: inflação americana, teste para uma nova alta do Fed.
- 25/10: 2º turno. 27 e 28/10: reunião do Fed, três dias depois da urna.
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Próximos passos
- Proteja parte da exposição em dólar até 25/10 e evite grandes decisões em dia de pesquisa.
- Revise cláusulas de repasse de diesel e frete nos contratos do quarto trimestre.
- Inclua um cenário de Selic parada no orçamento de 2027.
- Aperte o crédito próprio e incentive Pix e débito nas vendas de fim de ano.
- Feche o mapa de escalas em 6x1 antes de o Senado definir a data da votação.
Esta publicação tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento, jurídica ou financeira. As decisões tomadas com base neste material são de responsabilidade exclusiva do leitor. Análise Econômica.
