"O planejamento de longo prazo não lida com decisões futuras, mas com o futuro das decisões presentes. — Peter Drucker"
A quinta-feira trouxe dados que, em outro momento, teriam animado o mercado: superávit público, IGP-M menor e crescimento forte nos EUA. Ainda assim, o Ibovespa caiu e o dólar subiu.
Visão AE
A quinta-feira trouxe dados que, em outro momento, teriam animado o mercado:
- Contas públicas: o governo central registrou superávit de R$ 4,84 bilhões em setembro, acima do esperado.
- Atacado: o IGP-M desacelerou para 1,47% em outubro, abaixo das projeções.
- Estados Unidos: a economia cresceu 3,4% no trimestre, em ritmo anualizado.
Ainda assim, o Ibovespa caiu pela quarta sessão seguida e fechou abaixo de 170 mil pontos pela primeira vez desde agosto. O dólar voltou a subir, para perto de R$ 5,39.
A leitura da AE é que o mercado não está precificando o retrato do mês, e sim o regime fiscal de 2027 em diante. Enquanto essa âncora não for apresentada, números de curto prazo melhores tendem a mover pouco o prêmio de risco.
Para o CEO, isso sugere separar dois planejamentos. A operação pode aproveitar a conjuntura, que trouxe algum alívio nesta semana. A estrutura de capital deve seguir o regime, que continua em definição.
Em 60 segundos
- Fiscal: superávit de R$ 4,84 bilhões em setembro; projeto para o centro da meta prometido até dezembro.
- Contratos: IGP-M de 1,47%, abaixo do esperado, favorece renegociação.
- Mercado: bolsa abaixo de 170 mil pontos e dólar perto de R$ 5,39.
- Empresas: Vale com lucro 53% menor; Ambev com volume de cerveja quase estável.
- Mundo: PIB americano de 3,4%; BCE mantém juros e Lagarde antecipa saída.
O que muda na mesa do CEO
A notícia mais prática da semana para muitas empresas é o IGP-M. O índice subiu 1,47% em outubro, abaixo da alta de 1,57% de setembro e da expectativa de mercado, e acumula 5,24% em doze meses.
A desaceleração veio do atacado agrícola, com milho, soja, tomate e batata subindo menos. Para quem tem aluguéis comerciais e contratos de serviço indexados ao IGP-M, é um momento favorável para renegociar reajustes ou propor a troca de índice nas renovações de novembro e dezembro.
O alívio não é uniforme. No varejo, hortaliças e legumes subiram 10,6% no mês, e a FGV espera que os alimentos in natura sigam voláteis. Para redes de alimentação, food service e varejo alimentar, o custo de alguns itens continua pressionado, mesmo com grãos mais comportados.
Na estrutura de capital, a orientação permanece a mesma das últimas edições. Com a bolsa abaixo de 170 mil pontos, o dólar perto de R$ 5,39 e os juros longos elevados, captações e investimentos de longo prazo merecem cautela até que o quadro fiscal ganhe contorno. A diferença em relação ao início da semana é que já existe um prazo de referência para acompanhar.
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O fiscal ganhou um prazo
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo enviará ao Congresso, até o fim do ano, um projeto para perseguir o centro da meta fiscal a partir de 2027. O ministro do Planejamento, Bruno Moretti, indicou que o ajuste deve vir de gatilhos e de revisão de despesas. O conteúdo ainda não foi detalhado, mas é o primeiro cronograma explícito desde a eleição.
O resultado de setembro ajuda a compor o quadro, sem resolvê-lo. O superávit de R$ 4,84 bilhões reverteu o déficit de R$ 14,4 bilhões registrado um ano antes e veio acima da projeção de R$ 4,65 bilhões. O debate que move juros e câmbio, porém, é sobre a trajetória dos próximos anos. Para as empresas, o projeto prometido até dezembro passa a ser o principal gatilho para revisar premissas de orçamento.

Foto: enioprado · CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons
Conjuntura serve para operar. Regime serve para investir.
Empresas: os limites das proteções
Os balanços de duas das maiores empresas do país ajudam a entender o momento:
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Vale: lucro de US$ 1,255 bilhão no terceiro trimestre, queda de 53% em um ano e abaixo do esperado. O minério ficou cerca de 10% mais barato e o custo total por tonelada subiu 21%, pressionado por frete e energia. O cobre foi o destaque positivo, com resultado operacional 66% maior. A lição vale além da mineração: faturar em dólar protege do câmbio, mas não do preço da commodity nem de custos logísticos dolarizados.
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Ambev: lucro de R$ 4,37 bilhões, acima da projeção, com receita orgânica 7,6% maior. O volume de cerveja no Brasil, porém, cresceu apenas 0,5%, e o avanço veio sobretudo de preço e mix. Quando um produto de consumo de massa cresce quase só por preço, o recado é sobre o bolso das famílias. Para varejo e bens de consumo, o espaço para repasse existe, mas tem limite.

Foto: vasu at en.wikipedia 59.162.175.35 08:37, 13 April 2012 (UTC)vasudevarao.k · CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons
Mundo: Estados Unidos fortes, Europa em transição
A economia americana cresceu 3,4% em ritmo anualizado no terceiro trimestre, acima das projeções. O consumo avançou 3,8% e o investimento privado, 19,4%, com destaque para equipamentos.
A inflação PCE ficou em 3,6% em doze meses, e o núcleo, que exclui alimentos e energia, em 3,1%. Para exportadores, é sinal de demanda firme. Para o câmbio, significa dólar global sustentado e pouco espaço para alívio vindo de fora.
Na Europa, o Banco Central Europeu manteve a taxa de depósito em 2,50% e apontou a alta da energia como risco de mais inflação e menos crescimento.
No mesmo dia, Christine Lagarde anunciou que deixará a presidência da instituição em fevereiro, antes do previsto, num momento de volatilidade nos títulos franceses. O mercado atribui chance relevante de nova alta de juros na Zona do Euro em dezembro.
O petróleo recuou 0,84%, para US$ 110,80 o barril, com relatos de negociações entre Estados Unidos e Irã. Do outro lado, novos incidentes com petroleiros no Estreito de Ormuz mantêm o risco no radar. O vaivém diário reforça a recomendação de manter travas de frete e combustível.

Foto: Jon Olav Eikenes · CC BY 2.0 · Wikimedia Commons
Membros leem o arquivo inteiro de edições e salvam as análises que importam para voltar quando quiserem.
O que colocar na reunião de diretoria
- Quais contratos indexados ao IGP-M vencem até dezembro e podem ser renegociados agora?
- O planejamento separa decisões operacionais, que usam a conjuntura, de decisões de capital, que dependem do regime fiscal?
- Quanto da nossa margem depende de custos dolarizados de frete e energia, mesmo onde a receita é protegida?
- Nosso crescimento recente veio de volume ou de preço, e quanto espaço de repasse ainda existe?
- Quais revisões do orçamento serão disparadas pela apresentação do projeto fiscal?
Agenda da próxima semana
- Sexta (30): taxa de desemprego, PIB da Zona do Euro, decisão do Banco do Japão e PMI da China; repercussão do balanço da Vale; balanços de Usiminas e Irani.
- Segunda (2): feriado de Finados.
- Terça (3): eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, com potencial de mexer com petróleo e dólar; balanço do Itaú.
- Quarta (4): decisão do Copom, a primeira após a eleição; divulgação do Caged de setembro.
- 10 de novembro: balanço da Petrobras.

Foto: Diliff · CC BY 2.5 · Wikimedia Commons
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Próximos passos
- Mapear contratos indexados ao IGP-M e abrir renegociação nas renovações de fim de ano.
- Separar formalmente as premissas operacionais das premissas de estrutura de capital.
- Revisar a exposição a custos dolarizados de frete, energia e insumos.
- Avaliar o equilíbrio entre preço e volume no portfólio de produtos.
- Definir o projeto fiscal prometido até dezembro como gatilho de revisão do orçamento de 2027.
Esta publicação tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento, jurídica ou financeira. As decisões tomadas com base neste material são de responsabilidade exclusiva do leitor. Análise Econômica.
