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Bússola do CEO•28 de outubro de 2026•Edição #66

O susto passou, o prêmio ficou

O câmbio aliviou, mas o custo real do capital de longo prazo continuou subindo. Veja o que muda nos projetos e o que acompanhar hoje.

Bússola do CEO · Leitura de 7 min
O susto passou, o prêmio ficou
"O mercado aliviou o susto, mas ainda não o prêmio."

A leitura da AE é que o mercado aliviou o susto, mas ainda não o prêmio de risco. Os dados de contas externas divulgados pelo Banco Central no meio do choque mostram que o país não enfrenta problema de financiamento externo. O que o investidor cobra é clareza sobre o cronograma fiscal.

Visão AE

Depois do pregão mais tenso em seis anos, a terça-feira trouxe a primeira correção. O dólar recuou cerca de 1%, para perto de R$ 5,35, os juros futuros devolveram entre 34 e 41 pontos-base e o Ibovespa praticamente parou de cair, fechando em queda de 0,51%.

Ao mesmo tempo, os títulos públicos atrelados à inflação de prazo mais longo voltaram a subir e terminaram acima dos níveis anteriores ao primeiro turno. O papel de 2060 passou a pagar IPCA mais 7,34% ao ano.

A leitura da AE é que o mercado aliviou o susto, mas ainda não o prêmio de risco. Os dados de contas externas divulgados pelo Banco Central no meio do choque mostram que o país não enfrenta problema de financiamento externo.

O que o investidor cobra é clareza sobre o cronograma fiscal. Para o CEO, a decisão desta edição é usar a menor volatilidade para executar com calma o que ficou pendente na segunda-feira, sem confundir trégua com retorno às premissas anteriores à eleição.

Em 60 segundos

  • Câmbio: dólar perto de R$ 5,35, aliviando, mas acima do pré-eleição.
  • Juros: nominais recuam; reais de longo prazo sobem para mais de IPCA + 7%.
  • Externo: investimento direto de US$ 11,3 bilhões e déficit no menor nível em dois anos.
  • Fiscal: medidas prontas, a serem anunciadas depois da definição da equipe.
  • Global: Fed e Orçamento britânico hoje; Brent a US$ 109.
  • Empresas: Gerdau com margem de 20,2%; Santander divulga hoje.

O que muda na mesa do CEO

Para quem avalia projetos de longo prazo, a distinção mais importante desta semana é entre juro nominal e juro real. O nominal recuou na terça: o Tesouro Prefixado 2029, por exemplo, caiu de 15,26% para 14,79% ao ano.

O real, que mede o custo do dinheiro acima da inflação e serve de referência para concessões, imóveis e expansão industrial, continuou subindo. Com títulos longos pagando mais de IPCA + 7%, poucos projetos de vários anos fecham a conta nas premissas usadas antes da eleição. Vale recalcular a taxa interna de retorno em termos reais antes de qualquer aprovação.

No câmbio, o recuo para perto de R$ 5,35 reduz a pressão imediata sobre importados, contratos de nuvem e dívidas em moeda estrangeira. Ainda assim, o dólar segue cerca de 7% acima do fechamento da sexta-feira anterior à eleição.

A menor volatilidade abre espaço para proteger parte da exposição de forma escalonada, em vez de concentrar a decisão num único dia. Também permite precificar a reposição de estoque com uma faixa realista de câmbio, entre R$ 5,30 e R$ 5,40.

O mercado de crédito corporativo também pede cautela. O Tesouro cancelou todos os leilões de venda de títulos desta semana, inclusive o de LFT, sinal de que a renda fixa ainda opera sob gestão de crise. Nesse ambiente, linhas bancárias já aprovadas tendem a ser mais confiáveis do que emissões de debêntures planejadas para as próximas semanas.

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O colchão externo que passou despercebido

Os números de setembro divulgados pelo Banco Central na segunda-feira ficaram ofuscados pelo pregão, mas ajudam a separar risco de preço de risco de solvência:

  • Investimento direto: US$ 11,3 bilhões no mês, quase o dobro dos US$ 6,5 bilhões esperados pelos economistas. Em 12 meses, soma US$ 88,3 bilhões, ou 3,43% do PIB.
  • Conta corrente: o déficit caiu para 2,33% do PIB em 12 meses, o menor nível em dois anos, e é integralmente coberto por esse capital de longo prazo.

Sede do Banco Central do Brasil em Brasília

O contraste está no dinheiro de curto prazo. No mesmo mês, ações e fundos registraram saída de US$ 1,7 bilhão. Quem investe em fábricas e operações continuou chegando, enquanto quem compra ativos financeiros preferiu esperar.

Para o planejamento das empresas, isso reduz a probabilidade de uma crise cambial nos moldes do passado e reforça que a variável a acompanhar é o cronograma fiscal, não a balança de pagamentos.

O plano existe; falta o calendário

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou ter reiterado ao presidente a necessidade de uma sinalização propositiva ao mercado. Segundo ele, o governo tem várias medidas fiscais estudadas e prontas, voltadas à busca do centro da meta.

Fachada do Ministério da Fazenda em Brasília

A sequência anunciada, porém, é primeiro definir a equipe do próximo mandato e só depois apresentar as medidas, o que tende a estender o período de incerteza por algumas semanas. O ministro também disse ter autorizado o Tesouro a intervir no mercado de títulos, se necessário.

No campo tributário, o projeto do Imposto Seletivo deve ser enviado ao Congresso nesta semana. A proposta mantém em 2027 a carga hoje cobrada via IPI dos setores atingidos, como bebidas e tabaco, com cobrança a partir do fim de janeiro ou do início de fevereiro. Para essas empresas, é uma informação que dá contorno ao planejamento do próximo ano.

O mercado aliviou o susto, mas ainda não o prêmio.

Washington e Londres no mesmo dia

O Federal Reserve anuncia hoje, às 15h de Brasília, sua decisão de juros. A expectativa majoritária é de manutenção entre 3,75% e 4,00%, com cerca de 10% de chance de alta.

O mercado, porém, já atribui probabilidade superior a 70% a um aumento em dezembro. Mais do que a decisão, o tom da entrevista coletiva vai indicar se o dólar global seguirá firme, o que limita a recuperação do real e a margem do Copom, que se reúne em 4 de novembro.

Pela manhã, o Reino Unido apresenta seu Orçamento de outono. A folga fiscal britânica caiu de £ 23,6 bilhões para cerca de £ 12 bilhões antes das novas medidas, e o título de 30 anos paga 5,83% ao ano, o maior patamar desde 1998. Uma leitura negativa em Londres pressionaria os juros longos das economias ricas, com reflexo no custo de capital dos emergentes.

Fachada do Banco da Inglaterra em Londres

Foto: Katie Chan · CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons

No petróleo, o Brent recuou pelo segundo dia e fechou a US$ 109,41. Representantes do Irã sinalizaram disposição para negociar a reabertura do Estreito de Ormuz, e a Opep+ indicou que manterá suas metas de produção. Os ataques dos houthis à Arábia Saudita continuam, o que torna o desconto provisório. Por ora, a queda combinada do petróleo e do dólar alivia a pressão sobre a paridade do diesel e o custo do frete.

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Empresas: o valor de faturar em dólar

A temporada de balanços começou a mostrar como as empresas chegaram ao choque. A Gerdau registrou no terceiro trimestre EBITDA ajustado de R$ 3,8 bilhões e margem de 20,2%, a maior desde 2023, puxada pela expansão na América do Norte.

A demanda americana vinha de energia renovável, manufatura e data centers. É um lembrete de que diversificação geográfica e receita em moeda forte protegem também no curto prazo, e de que a corrida da inteligência artificial já aparece no balanço de uma siderúrgica brasileira.

Fábrica e operação industrial de siderurgia

Hoje, antes da abertura, o Santander Brasil divulga o primeiro balanço de um grande banco após a eleição, e os analistas esperam um trimestre mais difícil. A comunicação sobre a qualidade da carteira e o custo de risco num ambiente de juro real elevado será tão relevante quanto o lucro.

No varejo, a Black Friday, projetada em R$ 13,3 bilhões no comércio eletrônico, foi planejada com um dólar que não existe mais. Eletrodomésticos e eletrônicos, que lideram as vendas, têm alto conteúdo importado. Se o câmbio se mantiver no patamar atual, o espaço para descontos tende a ficar menor.

O que colocar na reunião de diretoria

  1. Os projetos de 2027 foram recalculados com juro real acima de IPCA + 7%?
  2. Vamos aproveitar a menor volatilidade para proteger parte da exposição cambial de forma escalonada?
  3. As captações previstas para as próximas semanas têm alternativa em linhas bancárias já aprovadas?
  4. Qual parcela da nossa receita está protegida em moeda forte, e faz sentido ampliá-la?
  5. A precificação da Black Friday e da reposição de fim de ano considera o câmbio atual?

Agenda da próxima semana

  • Quarta (28):
    • Antes da abertura: balanços de Santander e Klabin.
    • Pela manhã: Orçamento do Reino Unido.
    • Ao longo do dia: fluxo cambial semanal.
    • 15h: decisão do Fed, com entrevista às 15h30.
    • Após o fechamento: balanços de Motiva e Intelbras.
  • Quinta (29):
    • IGP-M, com projeção AE de 1,75%.
    • Caged, com projeção de 96,6 mil vagas.
    • Resultado do Governo Central, com superávit projetado de R$ 6 bilhões.
    • PIB e PCE dos Estados Unidos, decisão do BCE e balanço da Vale.
  • Sexta (30): taxa de desemprego e PMI da China.
  • Ao longo da semana: envio do projeto do Imposto Seletivo ao Congresso.
  • 4 de novembro: Copom.

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Próximos passos

  • Recalcular a TIR dos projetos de longo prazo com juro real acima de IPCA + 7%.
  • Escalonar a proteção cambial aproveitando a menor volatilidade.
  • Priorizar linhas bancárias já aprovadas sobre emissões nas próximas semanas.
  • Precificar a reposição de estoque com dólar entre R$ 5,30 e R$ 5,40.
  • Usar o tom do Fed e o resultado fiscal de quinta como gatilhos de revisão do orçamento.

Esta publicação tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento, jurídica ou financeira. As decisões tomadas com base neste material são de responsabilidade exclusiva do leitor. Análise Econômica.

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