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Bússola do CEO•22 de outubro de 2026•Edição #62

O ponto de partida de 2027 já está na mesa

A Fitch vê aperto fiscal e juro real alto em 2027 com qualquer resultado eleitoral, e o balanço da WEG já mostra clientes adiando investimento.

Bússola do CEO · Leitura de 7 min
O ponto de partida de 2027 já está na mesa
"A urna decide domingo. O ponto de partida de 2027 já está na mesa."

Faltam três dias para o segundo turno, e é natural que boa parte das conversas de diretoria gire em torno do resultado. Um relatório divulgado nesta quarta pela Fitch oferece uma referência útil para tirar a eleição do centro da discussão de orçamento.

Visão AE

Faltam três dias para o segundo turno, e é natural que boa parte das conversas de diretoria gire em torno do resultado. Um relatório divulgado nesta quarta pela Fitch oferece uma referência útil para tirar a eleição do centro da discussão de orçamento.

A agência espera uma política fiscal mais apertada em 2027 independentemente do vencedor, com crescimento de 1,4%, Selic em 11,75% no fim do ano e juro real ainda elevado.

No mesmo dia, o balanço da WEG mostrou como esse ambiente já aparece na prática. A empresa bateu recorde de receita no exterior, mas no Brasil cresceu apenas 1,8%, com clientes adiando investimentos.

A decisão mental desta edição é fechar o orçamento de 2027 a partir desse cenário-base, que vale para qualquer resultado, e tratar o domingo como fonte de volatilidade de curto prazo, não como premissa de planejamento.

Em 60 segundos

  • 2027: a Fitch projeta PIB de 1,4% e juro real alto, com qualquer resultado eleitoral.
  • Indústria: a WEG cresce no exterior e desacelera no Brasil, com clientes adiando investimentos.
  • Câmbio: o real forte barateia o insumo importado, mas reduz a receita exportada.
  • Combustível: a inflação britânica sobe com combustíveis quase 30% mais caros.
  • Diesel: o subsídio vence segunda e ainda não há anúncio.
  • Marketing: anúncio digital mais caro às vésperas da Black Friday.

O que muda na mesa do CEO

O primeiro ponto é a premissa de crescimento. Se a economia avançar perto de 1,4% em 2027, como projeta a Fitch, o crescimento de receita que vem apenas do movimento da economia será pequeno. Planos que dependem de expansão do mercado interno precisam de alavancas próprias: ganho de participação, novos canais ou novos produtos.

O segundo é o custo do dinheiro. A Selic deve cair cerca de dois pontos até o fim de 2027, mas a Fitch avalia que o Banco Central manterá o juro real elevado, o que continuará limitando consumo, investimento e crédito.

Para o tomador, o alívio tende a ser menor do que a queda nominal sugere, e o orçamento deveria trabalhar com Selic perto de 11,75% no fim de 2027, e não abaixo disso.

O terceiro é a disciplina de investimento. Com juro real perto de 9% e demanda contida, projetos com retorno longo ficam mais difíceis de justificar, e o conselho tende a cobrar caixa positivo como condição para novos investimentos.

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O caso WEG: crescer lá fora, desacelerar aqui dentro

O resultado da WEG no terceiro trimestre reúne quase todas as forças que vêm pressionando a indústria brasileira. A receita líquida cresceu 5,7%, para R$ 10,86 bilhões, mas a margem Ebitda, que mede quanto sobra da receita depois dos custos da operação, recuou 0,6 ponto, para 21,6%. O lucro ficou em cerca de R$ 1,67 bilhão, alta de 0,9% e abaixo do esperado, e a ação caiu 7,34% na quarta.

Do lado positivo, o mercado externo respondeu por 62,5% da receita, um recorde. As vendas na América do Norte cresceram 31,1% em dólares, puxadas por transformadores e geradores para data centers, um sinal de que a corrida da inteligência artificial está gerando encomendas para fabricantes tradicionais de equipamentos elétricos.

Transformadores elétricos industriais de grande porte

Do lado menos favorável, a receita no Brasil subiu só 1,8%, com atividade industrial mais fraca e clientes adiando aportes.

A margem sofreu com o cobre e outros insumos mais caros, com tarifas nos Estados Unidos, com custos de pessoal nas fábricas novas e com o real valorizado, que segundo o Goldman Sachs tirou cerca de 4 pontos do crescimento da receita.

Esse último ponto merece atenção de qualquer empresa que exporta: o mesmo câmbio que barateia o insumo importado reduz o valor em reais do que é vendido lá fora. Vale calcular agora quanto da receita e quanto do custo estão em dólar antes de concluir se o real forte ajuda ou atrapalha.

Quando uma das fornecedoras mais sólidas da indústria vê o cliente brasileiro adiar investimento, o orçamento de 2027 precisa partir de demanda contida.

Custos: combustível no mundo e o diesel na segunda-feira

A inflação no Reino Unido subiu para 3,5% em setembro, acima do esperado, puxada por combustíveis 29,8% mais caros em um ano. É mais um sinal de que o choque do petróleo chegou aos preços ao consumidor nas economias desenvolvidas, o que tende a manter os juros globais altos por mais tempo. No Brasil, o diesel comum subiu 6,67% na primeira quinzena de outubro, e a mesma pressão aparece no frete.

O petróleo ficou estável na quarta, com o Brent em US$ 108,82. Houve notícias de diplomacia nas duas frentes que mais afetam o diesel: Rússia e Ucrânia aceitaram retomar negociações com os Estados Unidos, e o chanceler iraniano escreveu no Financial Times que o país busca uma solução diplomática.

Ataques a petroleiros perto do Iraque e de Omã, porém, continuaram. A leitura provável é que um eventual alívio no preço viria de forma gradual, e por isso ainda não deveria entrar no orçamento.

Navio petroleiro navegando em alto mar

No curto prazo, a variável mais próxima é doméstica. O subsídio de R$ 2,12 por litro ao diesel rodoviário vence na segunda-feira, e até a noite de quarta não havia anúncio sobre sua renovação.

Para logística, agronegócio e varejo, vale ter prontos os dois cenários de frete e verificar quais contratos de transporte têm reajuste atrelado ao diesel. Para quem opera no Paraná e em Santa Catarina, a previsão de chuva forte até domingo é mais um motivo para folga nos prazos.

Marketing, investimento e crédito: o que os balanços ensinam

A Meta, maior plataforma de publicidade digital do mundo, mostrou que o preço médio por anúncio subiu 14% no trimestre, com impressões 10% maiores. Na edição de ontem, comentamos que a Netflix havia reduzido sua projeção de receita com publicidade e sugerimos que poderia haver espaço para renegociar mídia.

O dado da Meta ajusta essa leitura: a verba de publicidade não sumiu, ela se concentrou nas grandes plataformas, onde ficou mais cara. A um mês da Black Friday, o mesmo orçamento de mídia deve comprar menos alcance, o que reforça o valor de canais próprios, como a base de clientes e o CRM.

Análise de métricas de anúncios digitais em computador

A Tesla trouxe outra lição útil. O lucro caiu 43,8% no trimestre, enquanto os investimentos mais que dobraram, com foco em inteligência artificial e robótica. Ainda assim, a ação subiu 3,4% após o balanço, porque o fluxo de caixa livre voltou a ser positivo.

Em um ambiente de juro real alto, essa é uma boa régua para projetos de automação: o mercado e os conselhos aceitam investir pesado, desde que o caixa continue saudável.

No varejo, o crédito corporativo segue no radar. Depois do fim da recuperação judicial da Americanas na segunda, o GPA está executando o plano de renegociação de cerca de R$ 4,5 bilhões em dívidas homologado no início do mês.

Para fornecedores do setor, limites e prazos de crédito por cliente merecem revisão periódica com dados atualizados, especialmente em um ano de juro alto.

Executivos em reunião discutindo orçamento e crédito

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O que colocar na reunião de diretoria

  1. Orçamento: o orçamento de 2027 depende do resultado de domingo ou está apoiado em um cenário-base que vale para qualquer resultado?
  2. Câmbio: quanto da nossa receita e quanto do nosso custo estão em dólar, e qual o efeito líquido do real forte?
  3. Clientes: quais clientes empresariais estão adiando decisões de compra, e por quanto tempo?
  4. Mídia: o plano de mídia da Black Friday já considera anúncios mais caros?
  5. Frete: temos os dois cenários prontos para a decisão do diesel na segunda?

Agenda da próxima semana

  • Quinta (22): reunião do Conselho Monetário Nacional, leilão de gás natural da União e balanço do Bradesco após o fechamento, o primeiro grande banco a divulgar o terceiro trimestre.
  • Sexta (23): IPCA-15 de outubro, a prévia da inflação. A projeção da AE, de 0,41%, foi feita antes das surpresas recentes com IGP-10, diesel e inflação externa, o que aumenta a importância do dado.
  • Sábado (24): pesquisas finais antes do segundo turno.
  • Domingo (25): segundo turno da eleição presidencial.
  • Segunda (26): fim do ciclo atual do subsídio ao diesel.
  • Depois: decisões do Fed em 28 de outubro e do Copom em 4 de novembro.

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Próximos passos

  • Fechar o orçamento de 2027 com PIB perto de 1,4% e Selic perto de 11,75%.
  • Calcular o saldo entre receitas e custos em dólar antes de revisar preços.
  • Revisar o plano de mídia de novembro considerando anúncios mais caros.
  • Deixar prontos os dois cenários de frete para a decisão do diesel na segunda.
  • Condicionar novos projetos de automação à manutenção de caixa positivo.

Esta publicação tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento, jurídica ou financeira. As decisões tomadas com base neste material são de responsabilidade exclusiva do leitor. Análise Econômica.

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