"O preço do dinheiro de prazo longo está subindo no mundo inteiro, ao mesmo tempo."
Nas duas últimas edições, esta newsletter descreveu um problema brasileiro. Curva longa abrindo, estrangeiro saindo da bolsa, câmbio pressionado por risco fiscal e eleitoral. Hoje é preciso somar uma segunda camada, e ela muda o tamanho da conversa.
Visão AE
Nas duas últimas edições, esta newsletter descreveu um problema brasileiro. Curva longa abrindo, estrangeiro saindo da bolsa, câmbio pressionado por risco fiscal e eleitoral.
Hoje é preciso somar uma segunda camada, e ela muda o tamanho da conversa.
O rendimento dos títulos do governo americano com vencimento em 30 anos chegou a 5,32% na manhã de ontem. É o maior nível desde 2007. Na França, os títulos equivalentes atingiram o maior patamar desde 2008. No Reino Unido, se aproximaram de 6%. A Alemanha caminhava para o maior custo de financiamento em quinze anos numa emissão importante de dívida longa.
Ou seja: o preço do dinheiro de prazo longo está subindo no mundo inteiro, ao mesmo tempo.
Isso desmonta uma frase que tem circulado muito em conselho brasileiro neste segundo semestre: "vamos esperar passar a eleição". A eleição explica parte do prêmio que o Brasil paga. Não explica por que a França, o Reino Unido e os Estados Unidos estão pagando mais caro pelo mesmo prazo, na mesma semana.
A decisão mental desta edição é essa. Não existe mais um lugar barato esperando do outro lado de outubro. Quem estiver adiando decisão de estrutura de capital contando com uma janela melhor lá na frente precisa, no mínimo, questionar a premissa.
E há um lembrete concreto, em português, do que esse ambiente faz.
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Em 60 segundos
- Juros globais: títulos americanos de 30 anos a 5,32%, maior nível desde 2007. França na máxima desde 2008, Reino Unido perto de 6%.
- Crédito Brasil: Casas Bahia com RJ e dívida declarada de R$ 17,3 bi; Marabraz no mesmo movimento; Braskem Idesa em Chapter 11 nos EUA.
- Bolsa: Ibovespa na décima queda seguida, aos 166.784 pontos.
- Fluxo: R$ 15,63 bi de saída estrangeira da B3 em agosto até o dia 13, maior desde janeiro de 2022.
- Câmbio: dólar a R$ 5,2011 na segunda, queda de 0,41%, movimento de ajuste e não de reversão.
- Fed: mercado precifica risco de alta; Goldman classifica como exagero e vê aumento em setembro como muito improvável.
- Petróleo: WTI acima de US$ 85 após Trump descartar renovar a trégua com o Irã.
- Tecnologia: semicondutores caem 2,8% no pré-mercado, Nvidia recua 1,8%.
- Petrobras: indício de petróleo na Foz do Amazonas, sem confirmação comercial, com conclusão da perfuração em 15 dias.
- Eleição: BTG/Nexus mantém 47% a 44% no segundo turno, mesmo placar da semana anterior.
Três pedidos de recuperação em 48 horas
Na segunda-feira, o Grupo Casas Bahia protocolou pedido de recuperação judicial no Foro Central Cível de São Paulo, com dívida declarada de R$ 17,3 bilhões.
No mesmo movimento, a varejista de móveis Marabraz também entrou com pedido.
E, fora do Brasil, a Braskem Idesa, subsidiária mexicana da petroquímica brasileira Braskem, pediu proteção sob o Chapter 11 nos Estados Unidos, o equivalente americano à recuperação judicial, após meses de pressão de liquidez. A empresa já fechou acordo com credores para reduzir a dívida em mais de US$ 920 milhões e espera concluir a reestruturação em até noventa dias.

Três empresas. Três setores diferentes. Uma janela de 48 horas.
O fio comum não é o segmento. É o custo do dinheiro.
Os números do balanço da Casas Bahia, divulgados no fim de semana, mostram por quê: prejuízo de R$ 11,181 bilhões no semestre e patrimônio líquido negativo em R$ 8,27 bilhões, revertendo o saldo positivo de R$ 2,774 bilhões registrado no fim de 2025. A companhia vinha sendo monitorada por analistas desde 2022, quando ainda se chamava Via Varejo. O mercado teve quatro anos de aviso.
A reação do pregão foi cirúrgica e vale ser lida com atenção. As ações da Casas Bahia caíram 33,33%. A concorrente Magazine Luiza subiu 8,18%, na leitura de que a crise da rival abre espaço de mercado. E o setor bancário foi para baixo por conta da exposição às dívidas das duas varejistas: Itaú Unibanco caiu 1,59% e foi a principal queda em volume do dia, com BTG Pactual, Bradesco e Banco do Brasil também no vermelho.
Repare no que isso significa para quem não é nenhuma das três.
Para o sistema financeiro, o efeito relevante raramente é a exposição direta. É a de segunda ordem: recebíveis, antecipação de cartão, crédito comercial e a cadeia de fornecedores. E é a régua. Depois de um evento desse porte, o banco não reprecifica só quem quebrou. Reprecifica o setor, inclusive quem está saudável.
Para o real estate comercial, lojas fechadas são metros quadrados devolvidos a shoppings e ruas de varejo, com efeito direto sobre vacância e sobre poder de negociação de aluguel.
Para a indústria e a logística, é risco de contraparte espalhado por toda a cadeia de fornecimento.
E para qualquer empresa alavancada, é a repetição de uma lição que vale mais do que qualquer projeção: nenhum indicador operacional protege um balanço que não sustenta juro real de dois dígitos.
O mundo inteiro está reprecificando dívida longa
Volte ao dado que abre esta edição, porque ele explica os três casos acima.
Quando o rendimento dos títulos americanos de trinta anos vai a 5,32%, o que está acontecendo é que investidores estão exigindo remuneração maior para emprestar dinheiro por prazo longo. Eles fazem isso por dois motivos declarados: o endividamento elevado dos governos e a desconfiança de que a inflação vá ceder de forma persistente.
O efeito é global porque essa taxa é a referência mundial de custo de capital de prazo longo. Quando ela sobe, sobe também o preço de financiar qualquer projeto de dez, vinte ou trinta anos, em qualquer lugar.
A Yardeni Research acrescentou um ingrediente que merece atenção: investidores estão cada vez mais preocupados com o endividamento das gigantes de tecnologia que investem pesadamente em infraestrutura de inteligência artificial, e questionam se o Federal Reserve manterá vigilância suficiente contra a inflação caso o petróleo volte a subir. Como resumiu Emma Moriarty, da CG Asset Management, o Oriente Médio voltou a escalar e as taxas longas estão subindo, e esses fatores acabam corroendo o valor das ações.
Nas bolsas, quem sentiu primeiro foi exatamente o setor que financiou o crescimento com capital barato. Um fundo que acompanha empresas de semicondutores caiu 2,8% no pré-mercado de ontem. A Nvidia recuou 1,8%, com o custo de proteção contra um eventual calote da empresa se aproximando da máxima do mês anterior. O índice europeu Stoxx 600 caminhava para o quinto pregão consecutivo de perdas, a pior sequência do ano.

Foto: Thomas J. O'Halloran · Public domain · Wikimedia Commons
Para o CEO de construção, infraestrutura ou real estate, aqui está o ponto cego mais caro do momento: o custo de capital de longo prazo no Brasil não é definido apenas pela Selic. Ele responde à referência global, porque é ela que determina o apetite do capital estrangeiro por ativos brasileiros de renda. A curva lá fora subiu. A sua taxa de desconto provavelmente também.
Para o CEO de tecnologia, o recado é de calendário. A reprecificação de risco em ativos de crescimento costuma chegar às rodadas e aos múltiplos brasileiros com defasagem. Ainda não chegou. Historicamente, chega.
Não existe mais um lugar barato esperando do outro lado de outubro. O juro longo subiu no Brasil e subiu nos Estados Unidos, na França e no Reino Unido na mesma semana.
E o Fed? A pergunta mudou de direção
Aqui é preciso uma correção de rota honesta em relação ao que esta newsletter vinha dizendo.
Até a semana passada, o debate sobre os juros americanos era sobre quando o Fed começaria a cortar. Agora parte do mercado voltou a precificar o oposto: risco de alta. Traders chegaram a projetar totalmente um aumento de um quarto de ponto em dezembro e depois deslocaram a expectativa para janeiro.
O Goldman Sachs discorda, e com clareza. Numa nota assinada pelo economista-chefe Jan Hatzius, o banco afirma que um aumento na reunião de setembro tornou-se "muito improvável", diante de dados mais fracos de vendas no varejo, números decepcionantes de mercado de trabalho e desaceleração dos índices de inflação. Hatzius escreveu que os preços de mercado para a taxa básica estão excessivamente duros e que, pelas previsões do banco, é mais provável que os dados de inflação melhorem do que piorem ao longo do ano.
Ele pode estar certo. Mas repare no que já mudou de qualquer forma: a dúvida existe.
E parte dela vem de dentro do próprio banco central americano. O novo presidente do Fed, Kevin Warsh, no cargo desde maio, tem sido criticado por não deixar claro como ajustaria a política monetária diante de mudanças no cenário, e chegou a sugerir que o índice de inflação usado como referência do Fed poderia ser revisto já em janeiro. Bill Dudley, ex-presidente do Fed de Nova York, escreveu que abandonar orientação futura é desejável, mas delegar política monetária aos mercados não é estratégia viável: se o banco central busca orientação nos mercados e os mercados buscam orientação no banco central, as expectativas ficam indeterminadas e o resultado é mais incerteza e prêmios de risco mais altos.
Traduzindo para o seu planejamento: não existe hoje um cenário-base único e confiável para os juros americanos. Nem entre grandes bancos. Se o seu orçamento de 2027 tem uma única premissa de juro global, ele tem uma fragilidade que ainda não foi testada.
Membros leem o arquivo inteiro de edições e salvam as análises que importam para voltar quando quiserem.
O estrangeiro está saindo em ritmo recorde
Agora o número que dá densidade a tudo isso.
Investidores estrangeiros retiraram R$ 15,63 bilhões líquidos da B3 em agosto até o dia 13, segundo levantamento da consultoria Elos Ayta. É a maior saída mensal da série acompanhada desde janeiro de 2022, e supera o recorde anterior do próprio ano, de R$ 13,28 bilhões em maio. Ou seja: 2026 concentra agora os dois maiores episódios de retirada de capital estrangeiro da amostra.
E o mês ainda não acabou. O dado é parcial, até o dia 13.
Na semana anterior, o JPMorgan revisou sua estratégia para a América Latina no segundo semestre e reduziu a recomendação para o mercado brasileiro de compra para neutra, movimento que também estimulou saídas.
No mesmo compasso, o Ibovespa fechou segunda-feira aos 166.784 pontos, recuo de 0,09%, na décima sessão consecutiva de perdas. O dólar caiu 0,41% no dia, a R$ 5,2011, num ajuste técnico depois dos ganhos da semana anterior.
Vale registrar essa última linha com cuidado, porque ela é uma armadilha de leitura. O dólar caiu ontem. O ambiente que pressiona o dólar para cima não mudou. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e só uma delas é tendência.
Para quem tem operação de mercado de capitais planejada para este ano, seja emissão de dívida, follow-on ou abertura de capital, o recado é de janela. Ela não fechou. Mas está mais estreita do que estava em julho, e os dois motivos que a estreitam, o doméstico e o global, não têm prazo definido para se resolver.
O petróleo tem agora um motivo político com data indefinida
O presidente Donald Trump afirmou que não retomará a trégua com o Irã enquanto persistir o impasse sobre o controle do Estreito de Ormuz. Ataques a navios e a escalada da retórica reduziram as perspectivas de acordo rápido para normalizar o tráfego na região.
O petróleo respondeu. O WTI superou US$ 85 o barril, e o Brent operava acima de US$ 90 na véspera.

Nas duas últimas edições, escrevemos que preço que se sustenta depois do susto vira premissa de orçamento. Agora existe um fato político concreto sustentando o patamar, o que reduz a chance de reversão rápida.
O mecanismo de transmissão já foi detalhado aqui e continua o mesmo: diesel, frete rodoviário e marítimo, embalagem, resina, energia térmica e, com defasagem de semanas, os índices de preço de atacado que reajustam contratos de locação e de prestação de serviço.
Para o agronegócio, entra também pelo custo de fertilizante e de frete de escoamento.
Para a indústria de transformação, o caso da Braskem Idesa acrescenta uma segunda camada: a cadeia petroquímica está entre as mais sensíveis à combinação de juro caro com ciclo de commodity instável. Vale mapear concentração de fornecedor de resina e derivados antes de precisar.
E uma notícia de fronteira, com a cautela vinda da própria fonte
A Petrobras confirmou a identificação de hidrocarbonetos no poço exploratório Morpho, na bacia da Foz do Amazonas.
A presidente da companhia, Magda Chambriard, disse em entrevista no Amapá que a descoberta é muito relevante e que, tudo dando certo, ajudará na recomposição das reservas da Petrobras e do país. Mas fez questão de acrescentar que o achado é diferente de uma descoberta comercial, e que há pela frente uma sequência de estudos até qualquer conclusão.

Foto: Fernando Frazão/ABr · CC BY 3.0 br · Wikimedia Commons
Os números ajudam a dimensionar o esforço. A embarcação de sonda custa cerca de US$ 1 milhão por dia de utilização, e já foram desembolsados US$ 300 milhões apenas para isso. Faltam mil metros para chegar ao fundo do poço, com previsão de conclusão em quinze dias. A companhia pretende perfurar mais três poços no bloco, após obtenção de licença ambiental.
Chambriard lembrou o contexto que explica a urgência estratégica: 80% do petróleo brasileiro vem hoje do pré-sal, com pico de produção projetado para meados de 2034, e o Brasil é atualmente o sétimo maior produtor mundial de petróleo bruto.
É raro uma empresa pedir mais cautela do que a imprensa. Quando acontece, vale seguir a empresa.
O que colocar na reunião de diretoria
Cinco perguntas para a próxima pauta:
- Nosso planejamento assume que o custo de capital melhora depois de outubro? Se sim, essa premissa precisa ser revista: o juro longo subiu em quatro grandes economias na mesma semana, por motivos que não são eleitorais.
- Qual é a nossa exposição indireta aos eventos de crédito da semana? Recebíveis, fornecedores comuns, concentração de canal, locatários. O risco de contraparte não aparece no DRE até o dia em que aparece inteiro.
- Nosso orçamento de 2027 roda com uma ou com várias premissas de juro global? Se grandes bancos discordam publicamente sobre a direção do Fed, uma premissa única é frágil.
- Temos operação de captação planejada para este ano? Se sim, a discussão sobre antecipar deveria acontecer nesta reunião, não na próxima.
- Quanto do nosso custo depende de derivados de petróleo? Frete, embalagem, resina, energia. O patamar atual tem agora um motivo político sem prazo de validade.
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Agenda da próxima semana
Hoje, quarta-feira. A China divulga as taxas preferenciais de empréstimo de um e cinco anos, com projeção de manutenção em 3,00% e 3,50%. É o primeiro teste concreto da promessa de intensificar estímulos anticíclicos feita por Pequim na semana passada. Manutenção significa que a promessa segue apenas verbal, o que interessa diretamente a mineração, siderurgia, celulose e agro. No Brasil, sai o fluxo cambial estrangeiro semanal, que complementa a foto da bolsa: mostra se o dinheiro efetivamente deixou o país ou apenas trocou de classe de ativo dentro dele. Saem também os índices de preços ao consumidor da Zona do Euro e do Reino Unido e a balança comercial do Japão.
Quinta. Inflação e PMI de serviços do Japão, além do índice de preços ao produtor da Alemanha e dos pedidos de seguro-desemprego nos Estados Unidos. A inflação japonesa é o gatilho mais relevante da semana para o carry trade global, o dinheiro barato que financia parte do fluxo para mercados emergentes.
Sexta. PMIs industriais prévios de Alemanha, Zona do Euro e Estados Unidos, mais o PMI de serviços americano. É o primeiro retrato de agosto, já contaminado pela alta dos juros longos e do petróleo.
Até 31 de agosto, o governo precisa enviar o Orçamento de 2027 ao Congresso. Com juro global mais alto, o custo de financiar qualquer necessidade fiscal fica maior do que estava quando as premissas foram desenhadas.
- Reveja qualquer decisão que esteja sendo adiada com a premissa de custo de capital melhor após outubro
- Mapeie exposição indireta aos três eventos de crédito da semana, incluindo fornecedores e locatários em comum
- Rode o orçamento de 2027 com pelo menos dois cenários de juro global, não um
- Antecipe a discussão sobre operações de captação enquanto a janela de mercado segue aberta
- Refaça a conta de custo logístico e de embalagem com o petróleo no patamar atual, não no médio do semestre
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