"O país vai crescer puxado pelo campo. As empresas, em conjunto, estão adiando decisões."
Ontem, o mercado fez duas revisões no mesmo relatório. Passou a esperar mais um corte da Selic em 2026. E reduziu, pela segunda semana seguida, a projeção de crescimento do país.
Visão AE
Ontem, o mercado fez duas revisões no mesmo relatório.
Passou a esperar mais um corte da Selic em 2026. E reduziu, pela segunda semana seguida, a projeção de crescimento do país.
Parecem duas notícias. É uma só.
O Boletim Focus agora projeta juro de 13,50% no fim do ano, e não mais 13,75%. Mas a inflação esperada subiu e já está acima do teto da meta. Juro menor com inflação maior só fecha a conta de um jeito: com a economia andando mais devagar.
É um desconto de liquidação. O preço cai porque a demanda caiu.
A decisão mental desta edição: se você colocar a Selic menor no orçamento, coloque na mesma planilha a demanda de um país crescendo menos de 2%.
Em 60 segundos
- Selic: mercado passou a ver 13,50% em dezembro. Para 2027, nada mudou.
- Inflação: IPCA esperado em 4,92%, acima do teto. Respostas recentes apontam para cima.
- PIB: 1,88%, com investimento das empresas crescendo só 0,9%.
- Ata do Copom: sai hoje às 8h. Espere o texto antes de travar financiamento.
- Petróleo: US$ 100,34, com queda baseada em diplomacia que ainda não aconteceu.
- Dólar: R$ 5,10, abaixo da projeção de R$ 5,20 para dezembro.
- Bets: MP deve ser assinada amanhã. Até a publicação, é hipótese.
O que muda na mesa do CEO
Dívida. O alívio projetado é de 0,25 ponto, e só até dezembro. A curva de 2027 não se mexeu. Não é motivo para antecipar CAPEX nem para trocar a estrutura da dívida às pressas.
Contratos. O mercado elevou a projeção do IGP-M de 2026 de 4,54% para 4,73%. É o índice que reajusta aluguel comercial e boa parte dos contratos B2B.
Demanda B2B. O investimento produtivo deve crescer 0,9% em 2026. Quem vende máquina, obra, software corporativo ou serviço ligado a expansão sente isso antes de todo mundo.
Custo. Petróleo e dólar melhoraram ontem. Os dois pelos motivos mais frágeis possíveis: expectativa diplomática e pesquisa eleitoral.
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O juro cai porque o crescimento cai
A foto do Focus de segunda-feira é clara.
A Selic esperada para o fim de 2026 caiu de 13,75% para 13,50%, a primeira revisão para baixo. A inflação esperada subiu de 4,90% para 4,92%. E o detalhe mais revelador: entre as 91 instituições que responderam nos últimos cinco dias úteis, a mediana já está em 4,97%. As respostas mais recentes apontam para cima.
A meta é 3%. O teto é 4,5%. O mercado espera fechar o ano acima dele.
Então por que o juro cairia mais?
A resposta está na atividade. A projeção de PIB caiu para 1,88%, contra 1,95% um mês atrás. E, por dentro, o crescimento tem dono: a agropecuária deve crescer 2,2%, enquanto a formação bruta de capital fixo, que é o investimento das empresas em máquinas, obras e equipamentos, deve crescer só 0,9%.
Traduzindo: o país vai crescer puxado pelo campo. As empresas, em conjunto, estão adiando decisões.
Para a construção e o real estate, a combinação é incômoda: juro um pouco menor ajuda o financiamento, mas o IGP-M mais alto pesa no aluguel e o investimento corporativo parado esvazia a demanda por galpão e obra. Para a indústria de bens de capital, a leitura é mais direta. Carteira de pedidos depende do CAPEX dos outros, e o CAPEX dos outros está andando a 0,9%.
O Brasil vai crescer puxado pelo campo. O investimento das empresas está andando a 0,9%.
Hoje, o Banco Central responde
O mercado apostou ontem. O Banco Central responde hoje, às 8h, com a ata da reunião que levou a Selic a 13,75%.
É o documento que costuma mexer mais com os juros do que a própria decisão. O comunicado cabe em uma página. A ata traz o balanço de riscos, a leitura sobre atividade e emprego e as condições para seguir ou parar.
Duas perguntas definem a leitura:
- O viés de alta que o Copom manteve no balanço de riscos é uma restrição real ao ritmo de cortes ou apenas cautela no texto?
- Novembro comporta mais um corte ou uma pausa?
Se a ata vier mais dura, parte da aposta feita ontem será devolvida. Se vier mais branda, o mercado ganha argumento para o corte de dezembro.
Até a leitura do documento, a recomendação prática é simples: não trave decisões de financiamento com base no Focus de ontem. Espere o texto de hoje. E lembre que, na quinta, o Banco Central publica o Relatório de Política Monetária, com as projeções oficiais de inflação.
Petróleo e dólar: uma janela que depende de notícia
Duas variáveis de custo melhoraram na segunda-feira.
O Brent caiu 3,4% e fechou a US$ 100,34, depois de tocar US$ 98,98 durante o pregão. Foi o quarto dia seguido de queda. O motivo: aposta em diplomacia na guerra com o Irã, com a Assembleia Geral da ONU começando hoje em Nova York, e a recuperação parcial dos embarques sauditas. Segundo o TD Securities, o fluxo de petróleo do Oriente Médio já está perto de 80% do nível anterior à guerra.
Repare na palavra "aposta". O acordo não existe. E o risco físico continua: no sábado, os Houthis miraram Riade e o porto de Yanbu, terminal-chave de exportação saudita no Mar Vermelho.
O preço caiu. O risco não saiu do lugar.
E há um alerta de memória útil. Em julho, com o Brent abaixo de US$ 90, a Abicom ainda apontava defasagem de 58% no diesel brasileiro. A queda do petróleo lá fora não chega automaticamente ao preço aqui dentro. Não há estimativa nova da Abicom depois da queda de ontem, então a leitura de que a pressão sobre o diesel diminuiu é, por enquanto, só uma inferência.
O dólar seguiu a mesma lógica. Fechou em queda de 0,7%, a R$ 5,10, acompanhando o recuo dos juros americanos e o chamado "trade eleitoral": o movimento do mercado reagindo a pesquisas de intenção de voto. À noite, a Quaest mostrou novo empate técnico no segundo turno, com Flávio Bolsonaro com 42% e Lula com 41%, dentro da margem de erro de dois pontos.
O detalhe que importa para quem compra fora: o próprio Focus projeta o dólar a R$ 5,20 no fim do ano, há 14 semanas. Ou seja, o dólar está mais barato hoje do que o mercado acha que ele vai estar em dezembro. Janela ou armadilha, depende da próxima pesquisa.
Para logística, indústria e varejo com produto importado, a leitura é a mesma: alívio de expectativa não é alívio contratado. Use a janela para fechar volume e hedge. Não use para rebaixar a premissa de custo do orçamento.
E há mais uma variável nesta semana. Na quinta, Donald Trump recebe Xi Jinping em Washington, com a trégua comercial entre os dois países perto de vencer em novembro. Tarifas, terras raras e compras agrícolas estão na mesa. Para o agro brasileiro, que carrega o PIB deste ano, o ponto de atenção é qualquer compromisso chinês de comprar mais produto americano. O Brasil não está na mesa. A soja está.

Foto: The White House · Public domain · Wikimedia Commons
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O concorrente do varejo que tem aplicativo
No primeiro semestre de 2026, os brasileiros depositaram R$ 88,4 bilhões em casas de apostas legalizadas. O próprio setor estima que o mercado ilegal tenha tamanho parecido.
É o tamanho de um concorrente que o varejo nunca pôs na planilha.
Agora, o governo prepara uma medida provisória sobre o tema. Segundo reportagens dos últimos dias, o presidente pretende assiná-la amanhã, quarta-feira. O desenho mais citado mudou ao longo da semana: em vez de proibir tudo, o texto proibiria cassinos e jogos online, como o chamado "Tigrinho", e manteria as apostas esportivas, com regras de publicidade mais rígidas.
Isso ainda depende de confirmação. Nenhuma linha foi publicada. E medida provisória vale no dia da publicação, mas perde efeito se o Congresso não votar no prazo.
O que já é concreto é a reação. Clubes e federações divulgaram um manifesto alegando risco de perda de até R$ 1 bilhão em patrocínios. Flamengo, Palmeiras, Corinthians e São Paulo estão entre os signatários. Emissoras de televisão também pressionam o governo. E há uma dimensão fiscal: até julho, o governo arrecadou cerca de R$ 10 bilhões com jogos.
Para quem decide, três leituras práticas:
- Varejo: é tentador supor que o dinheiro que sai das apostas vai para a loja. Não há evidência disso. O próprio setor argumenta que a proibição fortaleceria o mercado clandestino. Não coloque esse efeito no plano do quarto trimestre.
- Anunciantes: se a publicidade de apostas for restringida, o espaço esportivo e de TV aberta pode ficar mais disponível, e mais barato. É uma oportunidade de negociação para 2027.
- Mídia e esporte: vale estressar receita num cenário com menos verba desse setor.
Se as bets saírem do intervalo, o intervalo fica mais barato.

O que colocar na reunião de diretoria
- Nosso orçamento de 2027 usa Selic em queda e demanda firme ao mesmo tempo? As duas premissas são compatíveis?
- Quanto da nossa receita depende do investimento de clientes que estão adiando CAPEX?
- Temos contratos indexados ao IGP-M com aniversário no quarto trimestre?
- Estamos usando o dólar a R$ 5,10 para travar compras, ou esperando que ele caia mais?
- Se a publicidade de apostas for restringida, nossa estratégia de mídia esportiva para 2027 muda?

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Agenda da semana
- Hoje (22): ata do Copom, às 8h. Abertura da Assembleia Geral da ONU, com discurso de Lula e depois de Trump. STF realiza audiência pública sobre a responsabilidade de parlamentares em emendas.
- Quarta (23): PMIs preliminares de EUA e Europa, o primeiro termômetro global depois do choque de energia. Data prevista para a assinatura da MP das bets.
- Quinta (24): cúpula Trump–Xi em Washington. Relatório de Política Monetária do BC. Confiança do Consumidor FGV.
- Sexta (25): IPCA-15 de setembro. A projeção da AE é de +0,49%, e o Focus projeta IPCA de 0,52% para o mês. É o teste de que a deflação de agosto foi um evento tarifário.

Foto: Basil D Soufi · CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons
- Espere a ata de hoje antes de travar prefixado ou renegociar prazo de dívida
- Rode o orçamento 2027 com Selic de 13,50% e PIB abaixo de 1,9% juntos
- Mapeie contratos indexados ao IGP-M que reajustam até dezembro
- Avalie hedge e compras de insumo importado com o dólar abaixo da projeção de dezembro
- Prepare a negociação de mídia esportiva para 2027, condicionada ao texto final da MP
Esta publicação tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento, jurídica ou financeira. As decisões tomadas com base neste material são de responsabilidade exclusiva do leitor. Análise Econômica.
