"A Selic pode cair e ficar parada. Planeje para isso."
A pergunta que domina esta semana está errada. Todo mundo quer saber se o Copom corta os juros na quarta-feira. Provavelmente corta. A Análise Econômica projeta a Selic indo a 14%, e o mercado precifica isso há semanas. A pergunta certa é outra: e se for a última vez?
Visão AE
A pergunta que domina esta semana está errada.
Todo mundo quer saber se o Copom corta os juros na quarta-feira. Provavelmente corta. A Análise Econômica projeta a Selic indo a 14%, e o mercado precifica isso há semanas.
A pergunta certa é outra: e se for a última vez?
Dois fatos mudaram o jogo desde sexta. O primeiro é que o petróleo voltou a disparar. Subiu cerca de 7% em um único dia com a retomada dos ataques no Oriente Médio, com o barril fechando perto de US$90,74 e os estoques americanos no menor nível em anos. O segundo é que o rombo total do governo, aquele que já inclui os juros da dívida, chegou a 9,99% do PIB em doze meses. O maior desde a pandemia.
Some os dois e esses riscos podem levar o Copom a interromper o ciclo de cortes antes do previsto.
A decisão mental de hoje é de calibragem de horizonte. Se o corte de quarta for o fim da linha, e não o segundo degrau de uma escada, todo plano de segundo semestre montado sobre juros em queda precisa ser refeito.
Aja dentro da janela que ainda está aberta. Mas planeje para o cenário em que ela se fecha.
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Em 60 segundos
- Copom: decide quarta, após o fechamento. Projeção AE de corte a 14%, com risco de ser o último do ciclo.
- Petróleo: voltou a subir 7% em um dia. Analistas veem faixa de US$80 a US$100 no curto prazo.
- Fiscal: rombo total em 9,99% do PIB. Só de juros, R$110,7 bilhões em junho.
- Emprego: desemprego a 5,4%, recorde. Consumo firme, folha mais cara.
- Indústria: confiança na maior queda em dez meses; produção deve cair pelo segundo mês.
- Externo: US$9,1 bilhões de investimento produtivo em junho. A conta externa está financiada.
O nó que aperta o Brasil
Para entender por que o Banco Central pode parar, olhe um número que passou quase despercebido.
Só em junho, o governo gastou R$110,7 bilhões pagando juros da dívida. Foi isso que levou o rombo total a quase 10% do PIB em doze meses.

Foto: Leandro Neumann Ciuffo · CC BY 2.0 · Wikimedia Commons
Aqui está o nó. Quanto mais alta a Selic, maior essa conta de juros. Ou seja, o Brasil precisa que os juros caiam justamente para aliviar o próprio rombo. Só que o Banco Central só pode cortar se a inflação permitir. E o petróleo acabou de voltar a ameaçar a inflação.
É um círculo que se morde.
Para o CEO, isso tem uma tradução muito concreta e muitas vezes ignorada: a Selic e o crédito longo são coisas diferentes. A taxa que o Copom decide na quarta é o dinheiro de curto prazo. O crédito que financia obra, expansão e dívida estruturada depende da confiança de que as contas públicas fecham. E com o rombo em 10% do PIB, essa confiança não melhorou.
O recado prático para construção, infraestrutura e para qualquer empresa com funding longo a contratar é direto: não espere que a queda da Selic barateie o crédito de prazo longo. Trave condições agora, enquanto o humor da desinflação ainda ajuda.
A Selic pode cair e ficar parada. Planeje para isso.
O petróleo voltou. E ele decide o resto.
A trégua durou pouco.
Com a retomada dos ataques, o barril subiu cerca de 7% em uma única sessão. E há um agravante técnico que amplifica tudo: os estoques americanos caíram mais de 7 milhões de barris na semana, ao menor nível em vários anos. Sem colchão de estoque, cada nova escalada bate com força total no preço.

Analistas de bancos globais já trabalham com o barril oscilando entre US$80 e US$100 no curto prazo. Repare no que isso significa na prática: quem planeja o segundo semestre com um preço único de petróleo não está gerindo risco, está apostando.
Para a indústria de transformação, o momento é o pior dos mundos. A confiança do setor teve a maior queda em dez meses, a produção deve recuar pelo segundo mês seguido, e agora o custo de energia e de insumos petroquímicos volta a subir. Com demanda fraca e confiança em baixa, tentar repassar preço é arriscado. A leitura provável é que a margem industrial se defende dentro da fábrica, cortando custo, e não na etiqueta.
Para o agronegócio, o diesel mais caro encarece o escoamento da safra bem no momento em que o real valorizado reduz a receita de exportação em reais. Dois ventos contrários ao mesmo tempo.
O ponto de atenção é retravar hedge de combustível e energia agora, antes que a escalada precifique de vez.
Os americanos nunca tiveram tão pouco petróleo estocado. Sem colchão, cada ataque no Oriente Médio bate com força total no preço.
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A economia em duas velocidades
Um detalhe dos índices de confiança da FGV merece a atenção de quem planeja capacidade.
Eles vieram mistos em julho. A indústria registrou a maior queda em dez meses. Serviços e consumidor também recuaram. Mas comércio e construção subiram.
Não é ruído. É retrato de uma economia que anda em ritmos diferentes conforme o setor.
Do lado bom, o varejo vive o melhor cenário de demanda do ano. O desemprego caiu para 5,4%, o menor patamar já registrado, e o mercado criou 145 mil vagas formais em junho, acima do esperado. Com inflação baixa e emprego recorde, a massa salarial sustenta o consumo.
Mas há uma contradição curiosa nesse mesmo dado: a confiança do consumidor caiu, mesmo com o emprego no melhor nível da história. O brasileiro está trabalhando e, ainda assim, desconfiado. Para o varejista, isso significa demanda real, porém seletiva. Vale capturar o volume sem assumir que a euforia chegou.
E há a conta que vem junto com o pleno emprego: contratar e reter ficou mais caro. Com mão de obra escassa, salário e rotatividade pressionam a folha. Nos serviços, setor que mais emprega, o custo de gente é a inflação que não aparece na manchete.
A boa notícia que ninguém está contando
Enquanto o fiscal preocupa, o setor externo virou o ponto forte da economia brasileira.
Entraram US$9,1 bilhões em investimento produtivo estrangeiro em junho, acima das projeções. É dinheiro que vem para construir empresa e projeto, não para especular em aplicação financeira. Ao mesmo tempo, o déficit em transações correntes recuou para US$2,3 bilhões, melhor que os US$3,3 bilhões de maio.

A avaliação da Análise Econômica é que esse desempenho afastou definitivamente o risco de descasamento entre o déficit externo e sua principal fonte de financiamento. Em português: a conta externa do Brasil está financiada.
Soja, petróleo e carne bovina devem sustentar um superávit comercial próximo de US$7,7 bilhões em julho. É o que ancora o câmbio, com o dólar rondando os R$5,06, e o câmbio ancorado é hoje um dos pilares da inflação baixa.
O contraponto, para quem exporta, é que esse mesmo real forte aperta a margem. A Vale acabou de elevar sua projeção de custos citando exatamente dois vilões: a valorização do real e o petróleo mais caro. É a conta que todo exportador está refazendo agora. E, no pano de fundo, a indústria chinesa voltou a contrair em julho, o que é mais um sinal amarelo para quem vende commodities.
O que colocar na reunião de diretoria
- Nosso plano de segundo semestre pressupõe uma sequência de cortes de juros? O que muda se o de quarta for o último?
- Já retravamos hedge de combustível e energia, considerando um barril que pode oscilar entre US$80 e US$100?
- Estamos trabalhando com um preço único de petróleo no orçamento, ou com cenários de banda?
- Nosso funding de longo prazo está contratado, sabendo que ele depende do fiscal e não da Selic?
- Com o desemprego na mínima histórica, quanto o custo de contratar e reter está corroendo nossa margem?
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Agenda da próxima semana
- Segunda (03/08, hoje): sai o Boletim Focus, última fotografia das expectativas antes do Copom, e os PMIs industriais do Brasil e do exterior.
- Terça (04/08): produção industrial brasileira de junho, que deve confirmar a segunda queda mensal seguida. Nos EUA, saem os dados de vagas abertas.
- Quarta (05/08) — decisão do Copom: o anúncio sai após o fechamento dos mercados. Watch: o comunicado, que dirá se o ciclo continua ou para por aqui.
- Quinta (06/08): balança comercial brasileira de julho, com superávit projetado perto de US$7,7 bilhões.
- Sexta (07/08): IGP-DI, que deve trazer nova deflação, e o relatório de emprego americano, que calibra a próxima decisão do Fed.
- Refaça o plano de segundo semestre num cenário em que a Selic cai na quarta e fica parada até dezembro.
- Retrave hedge de combustível e energia antes que a escalada do petróleo seja precificada por inteiro.
- Substitua o preço único de petróleo do orçamento por cenários de banda entre US$80 e US$100.
- Contrate funding de longo prazo agora, sem esperar que a queda da Selic barateie o crédito longo.
- Meça e ataque o custo de contratar e reter, que sobe com o desemprego na mínima histórica.
Esta publicação tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento, jurídica ou financeira. As decisões tomadas com base neste material são de responsabilidade exclusiva do leitor. Análise Econômica.
