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Bússola do CEO15 de setembro de 2026Edição #36

O Focus melhorou. A indústria piorou. No mesmo dia.

ICEI no pior da série, Brent perto de US$ 110 e duas sessões decisivas em Brasília.

Bússola do CEO · Leitura de 13 min
O Focus melhorou. A indústria piorou. No mesmo dia.
"O Focus está reagindo ao IPCA de agosto, que já aconteceu. O industrial está reagindo ao custo que está chegando."

A decisão mental desta edição: quando alguém melhora uma projeção e quem toca fábrica piora a avaliação no mesmo dia, confie em quem está mais perto do custo.

Visão AE

Na segunda-feira saíram dois indicadores oficiais.

O Boletim Focus mostrou o mercado melhorando a projeção de inflação de 2026 pela terceira semana seguida, de 5,00% para 4,90%. Primeira leitura abaixo de 5% desde maio.

No mesmo dia, o ICEI da Confederação Nacional da Indústria mostrou o empresário industrial derrubando em 3,6 pontos a sua avaliação da economia brasileira. De 36,6 para 33,0. Foi a maior queda entre todos os componentes do índice.

Mesma economia. Mesmo dia. Leituras opostas.

Não é contradição estatística. É diferença de horizonte. O Focus está reagindo ao IPCA de agosto, que já aconteceu. O industrial está reagindo ao custo que está chegando.

E o custo chegou na segunda-feira. O petróleo bateu a máxima em quatro meses depois que a Arábia Saudita fechou preventivamente o oleoduto Leste-Oeste, infraestrutura que transportava cerca de 7 milhões de barris por dia contornando o Golfo Pérsico.

A decisão mental desta edição: quando alguém melhora uma projeção e quem toca fábrica piora a avaliação no mesmo dia, confie em quem está mais perto do custo.

Em 60 segundos

  • Focus: IPCA 2026 de 5,00% para 4,90%; 2027 subiu para 4,30%, quinta alta seguida
  • PIB: revisado de 1,93% para 1,89% em 2026 e de 1,50% para 1,45% em 2027
  • Selic: projeção de fim de ano inalterada em 13,75%, mesmo com inflação melhor
  • ICEI: 44,9 pontos, 21 meses de pessimismo, o período mais longo da série
  • Petróleo: Brent na máxima em quatro meses; oleoduto saudita de 7 milhões de b/d fechado
  • Superquarta: Copom deve cortar para 13,75%, Fed deve subir para 4,00%
  • Brasília: sessão do STF hoje e segunda frente em 23/09; o que pesa é a duração, não o desfecho
  • Tecnologia: semicondutores caem, cibersegurança sobe após alertas de segurança em IA
  • Comércio exterior: Argentina -17,5%; importação de manufaturados +13,4%
  • Câmbio: real acumula alta de cerca de 7% no ano frente ao dólar

O que muda na mesa do CEO

Quatro coisas mudaram entre sexta e segunda.

Energia. O petróleo deixou de se comportar como susto. Quando a rota principal e a alternativa estão comprometidas ao mesmo tempo, o mercado para de precificar choque temporário. Isso muda frete, embalagem, resina e energia térmica.

Custo de capital. O Copom começa hoje e decide amanhã, no mesmo dia em que o Fed deve subir juros. O Treasury americano de dez anos ronda 5%. Capital de giro tende a ficar menos caro; projeto longo, mais caro.

Demanda. O Focus cortou o PIB de 2026 de 1,93% para 1,89% e o de 2027 de 1,50% para 1,45%. A desaceleração deixou de ser leitura e virou mediana de mercado.

Segurança. Um movimento no setor de tecnologia sugere que o orçamento de segurança da informação de 2027 está subdimensionado na maioria das empresas. Voltaremos a isso.

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Quando a rota alternativa também fecha

Vale entender o que aconteceu, porque a geografia aqui explica uma linha da sua planilha.

O oleoduto Leste-Oeste da Arábia Saudita existe por um motivo específico: levar petróleo por terra até portos no Mar Vermelho quando o Golfo Pérsico complica. É o plano B saudita. Ele foi fechado preventivamente na sexta-feira, após ataques de drones lançados de território iraquiano.

No mesmo período, os houthis alcançaram a ilha de Perim, reforçando o controle sobre o estreito de Bab el-Mandeb, rota por onde têm passado de 4% a 5% do abastecimento global. É o outro plano B, o marítimo.

E a reunião entre Irã e países do Golfo sobre a navegação em Ormuz foi adiada sem nova data.

O resultado: o Brent operou perto de US$ 110 na segunda-feira, máxima em quatro meses, depois de já ter subido 8% na semana anterior. A produção saudita caiu ao menor nível desde 1990. As cotações oscilaram muito ao longo do dia, entre cerca de US$ 102 e US$ 110, o que por si só diz algo sobre o nível de nervosismo.

A leitura provável é que o mercado deixou de discutir um choque curto. Petróleo caro começa a parecer condição, não acidente.

Para a operação, a diferença é prática. Um choque de três semanas se absorve com estoque e negociação pontual. Uma condição de dois trimestres exige repactuar contrato de frete, revisar precificação e recalcular CAPEX logístico.

E o efeito não fica só no combustível. Embalagem, resina, fertilizante e frete marítimo carregam petróleo na composição de custo. A indústria sente na energia térmica. O agro sente no diesel e no fertilizante. O varejo sente no frete de última milha.

Há aqui uma particularidade brasileira que vale registrar. O diesel rodoviário segue com subvenção de R$ 1,00 por litro, e a gasolina e o etanol seguem desonerados. Esses mecanismos vencem em 27 de setembro e 9 de outubro. Ou seja: o produtor rural está plantando com diesel contido e vai colher e escoar depois que a proteção venceu. São dois orçamentos diferentes no mesmo ciclo.

21 meses

O Índice de Confiança do Empresário Industrial caiu 1,4 ponto em setembro, de 46,3 para 44,9. Segue abaixo da linha de 50, que separa confiança de pessimismo.

Com isso, a indústria completa 21 meses consecutivos sem confiança. É o período mais prolongado já registrado pela série da CNI desde 2015 e 2016.

A pesquisa ouviu 1.186 empresas entre 1º e 8 de setembro. Não é amostra pequena nem recorte enviesado: 475 pequenas, 441 médias e 270 grandes.

Mas o número que interessa não é o índice cheio. É a decomposição.

O Índice de Condições Atuais recuou 2,5 pontos. Dentro dele, a percepção sobre a economia brasileira despencou de 36,6 para 33,0. A avaliação sobre as condições da própria empresa caiu bem menos, de 45,7 para 43,8. E a expectativa dos industriais sobre o futuro das próprias empresas segue acima de 50 pontos.

Leia isso de novo, porque é o ponto central da edição.

O empresário industrial brasileiro está mais confiante na própria empresa do que na economia do país. E essa distância tem um nome operacional: investimento adiado.

O ICEI não mede produção, emprego ou investimento. Mede percepção. Mas percepção é o que antecede decisão de CAPEX, contratação e compra de estoque. Empresa saudável em ambiente pessimista investe defensivamente, mesmo com caixa e demanda.

O risco aqui não é a sua empresa ir mal. É a sua cadeia inteira decidir esperar ao mesmo tempo.

São 21 meses sem confiança. A avaliação da própria empresa está acima de 50. A da economia brasileira, em 33.

Linha de produção industrial em fábrica.

Superquarta: o comunicado vale mais que o número

O Copom começa a se reunir hoje e decide amanhã. O corte de 0,25 ponto, de 14% para 13,75%, é a expectativa majoritária do mercado e a projeção da Análise Econômica.

Nos Estados Unidos, o mercado atribui cerca de 90% de probabilidade a uma alta de 0,25 ponto do Fed na mesma quarta-feira. A AE projeta a taxa americana indo a 4,00%.

Dois bancos centrais, mesmo dia, direções opostas.

Mas o dado mais revelador do Focus de ontem não foi a inflação. Foi o que não mudou.

Apesar de terem melhorado a projeção de IPCA de 2026 pela terceira semana seguida, os analistas mantiveram a Selic em 13,75% para o fim do ano. E em 12,00% para 2027.

Traduzindo: o mercado espera o corte de amanhã e não espera que ele vire sequência.

Há uma nuance. A leitura restrita aos últimos cinco dias úteis aponta 13,56% para o fim de 2026, o que sugere que parte dos respondentes já incorpora cortes adicionais. E há casas projetando abaixo da mediana. Mas a mediana cheia continua onde estava.

Outro número do Focus merece atenção: a projeção de IPCA para 2027 subiu de 4,29% para 4,30%. Quinta alta consecutiva.

Três semanas de melhora em 2026. Cinco semanas de piora em 2027.

Se você está fechando orçamento do ano que vem agora, está usando qual das duas?

Para quem se financia, há uma separação que vale fazer. A Selic é a ponta curta: capital de giro, desconto de recebível, linha de curto prazo. Essa tende a aliviar. Projeto de dez anos, empreendimento imobiliário e obra de infraestrutura se financiam na ponta longa, que está subindo lá fora e incorporando prêmio de incerteza aqui dentro.

Capital de giro fica mais barato. Projeto longo fica mais caro. Mesma semana.

Jerome Powell discursando em coletiva do Federal Reserve.

Foto: Federalreserve · Public domain · Wikimedia Commons

Brasília também entrou no calendário do mercado

Há uma segunda sessão importante hoje, além do Copom.

O Supremo Tribunal Federal realiza sessão extraordinária nesta terça-feira para analisar a Pet 16.662, processo decorrente de desdobramentos das investigações sobre o Banco Master. Uma segunda frente, a Pet 16.704, está prevista para 23 de setembro.

A Bússola não comenta o mérito. Não é o nosso terreno e não é o que muda a sua planilha.

O que muda a sua planilha é a duração.

Curva longa de juros não precifica resultado de julgamento. Precifica quanto tempo as regras vão ficar indefinidas. Enquanto houver duas sessões marcadas e nenhuma definição sobre procedimento, o prêmio de risco embutido em qualquer decisão com horizonte superior a dois anos fica mais alto. Isso vale para emissão de dívida longa, para obra de infraestrutura, para contrato de concessão e para valuation em processo de M&A.

Na prática, há três coisas concretas a fazer com essa informação, e nenhuma delas é ter opinião política.

Primeira: separe o pipeline. Decisão reversível pode esperar sem custo relevante. Decisão irreversível tomada agora paga prêmio. Se o projeto pode ser aprovado em novembro com a mesma qualidade, aprovar em setembro é comprar incerteza sem necessidade.

Segunda: revise a tesouraria. A origem de tudo isso é a liquidação de um banco. O Banco Master, em comunicado citado pela imprensa, faz referência a investigação da Polícia Federal sobre fraudes de R$ 17 bilhões envolvendo a antiga gestão e detalha medidas de governança adotadas. Independentemente do desfecho, o recado para o tesoureiro corporativo é operacional: confira a concentração de aplicações por instituição e por conglomerado, e os limites de cobertura do FGC por CNPJ. Não é desconfiança do sistema. É higiene de caixa.

Terceira: ajuste a janela de captação. Emissão de dívida longa e operações estruturadas tendem a encontrar janelas mais estreitas em períodos de indefinição institucional. Quem tem vencimento no primeiro semestre de 2027 provavelmente ganha mais antecipando a rolagem do que esperando um cenário melhor que ninguém consegue datar.

Um dado do TSE ajuda a dimensionar o clima, sem entrar em política: 18 nomes do mercado financeiro já destinaram R$ 11,8 milhões às eleições de 2026. Não é opinião sobre quem vai ganhar. É comportamento observável de quem lida com incerteza profissionalmente, a três semanas do primeiro turno.

Fachada do Supremo Tribunal Federal em Brasília.

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O mercado tirou dinheiro da IA e colocou em segurança

Este é o movimento mais interessante da segunda-feira, e ele não veio de indicador econômico.

Dario Amodei, CEO da Anthropic, publicou no sábado um ensaio defendendo um ritmo mais lento na ampliação das capacidades dos modelos de inteligência artificial. Sam Altman, da OpenAI, e Elon Musk, da xAI, declararam concordar com a preocupação.

Na segunda, ações de IA e semicondutores recuaram. Os futuros do Nasdaq caíram 1,3% nas negociações asiáticas. Nvidia e AMD entre as perdas. Separadamente, as ações do SoftBank caíram 11% em Tóquio depois de Altman sinalizar que não pretende abrir o capital da OpenAI em 2026.

E ações e ETFs de cibersegurança tiveram forte valorização.

No mesmo pregão, semicondutor caiu e cibersegurança subiu. A tecnologia é a mesma.

A leitura do mercado é que a cibersegurança deixou de ser despesa operacional de TI e virou componente estrutural da expansão da inteligência artificial. Se os modelos ficam mais capazes, a capacidade de automatizar ataques também fica.

Para o CEO que não é do setor de tecnologia, a tradução é direta e tem consequência orçamentária.

Quando os próprios desenvolvedores apontam risco de uso indevido dos modelos para ataques automatizados, três coisas tendem a se mover: o orçamento de segurança da informação sobe, o prêmio do seguro cibernético acompanha, e clientes corporativos passam a exigir cláusulas novas de segurança em contrato.

Nada disso está na maioria dos orçamentos de 2027.

Isso vale para banco, indústria com operação automatizada, hospital com dado sensível, varejo com base de cliente. IA que não reduz custo é apresentação bonita. IA sem orçamento de segurança proporcional é risco contabilizado no lugar errado.

Sam Altman discursando em evento sobre inteligência artificial.

A pressão que vem dos dois lados

Um dado de comércio exterior fecha o quadro da indústria.

A balança comercial teve superávit de US$ 7,4 bilhões em agosto. Boa manchete. Mas dentro dela, as exportações para a Argentina caíram 17,5%, o equivalente a US$ 2,2 bilhões, puxando a América do Sul para baixo.

Isso conversa com o que o Painel Semanal da AE já havia registrado: as exportações brasileiras de veículos caíram 32% em agosto, com recuo de 37% nos embarques para a Argentina.

Três meses na mesma direção deixou de ser oscilação.

E do outro lado, as importações da indústria de transformação cresceram 13,4%, acrescentando US$ 2,85 bilhões ao resultado.

O canal externo encolhendo e a concorrência importada crescendo no mercado doméstico. Ao mesmo tempo. Na mesma empresa.

Some a isso a tarifa de remessas internacionais até R$ 3 mil, que caiu de 60% para 30% na semana passada, e o varejista que compete com importado entra na alta temporada com uma régua de preço diferente da do ano passado.

O dado de vendas no varejo de julho sai hoje. A projeção da AE é de retração de 0,1%, depois de duas altas mensais consecutivas.

O que colocar na reunião de diretoria

  1. Nosso cenário de energia assume choque ou condição? Rode o custo com Brent sustentado acima de US$ 100 por dois trimestres, e não por duas semanas. Apresente junto com o cenário de normalização.
  2. Nossa margem caiu por preço, por mix ou por custo de energia? Leve a decomposição, não o número agregado. É a pergunta que o conselho vai fazer de qualquer forma.
  3. Quais decisões nossas são reversíveis até outubro? Com duas sessões marcadas em Brasília e eleição em três semanas, decisão irreversível está pagando prêmio que decisão reversível não paga.
  4. Como está a concentração da nossa tesouraria por instituição e por conglomerado? Pergunta de higiene de caixa, não de desconfiança. Vale conferir também os limites do FGC.
  5. Quanto do orçamento de tecnologia de 2027 está em capacidade e quanto está em segurança? Se a segunda linha não foi revista este mês, ela está desatualizada.

Agenda da próxima semana

Hoje, terça. O Copom começa a se reunir e o STF realiza sessão extraordinária. Sai o varejo de julho, com projeção AE de retração de 0,1%. É o primeiro dado que mostra se a desaceleração chegou no caixa da loja. No exterior, ZEW na Zona do Euro e ADP nos Estados Unidos.

Amanhã, quarta. A superquarta. Selic e decisão do Fed. Também saem o IBC-Br de julho, com projeção AE de estabilidade, e o IGP-10 de setembro, com projeção AE de +0,25% depois de -0,5%. Esse último confirma a virada da inflação ao produtor e importa para quem tem contrato indexado a IGP.

Quinta. O Banco da Inglaterra deve manter a taxa em 3,75%, sem Relatório de Política Monetária. Saem o CPI da Zona do Euro e o do Japão.

Sexta. O Banco do Japão deve subir de 1,00% para 1,25%. Parece distante. Juro japonês mais alto encarece o funding do carry trade, a operação que capta barato lá fora para aplicar em juro alto aqui, e drena fluxo dos emergentes.

Já marque no calendário: 22 de setembro, ata do Copom, que dirá se o ciclo continua. 23 de setembro, a segunda frente no STF. 24 de setembro, Relatório Bimestral de Receitas e Despesas, que pode determinar congelamento de gasto não obrigatório. 27 de setembro, fim da subvenção do diesel. 4 de outubro, primeiro turno. 9 de outubro, fim da desoneração de gasolina e etanol.

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Próximos passos

  • Simule o custo logístico do quarto trimestre com Brent acima de US$ 100 sustentado por dois trimestres
  • Substitua preço fixo por cláusula de gatilho nos contratos de frete em renegociação
  • Classifique o pipeline de investimento entre reversível e irreversível até outubro e adie o que puder esperar
  • Confira a concentração de aplicações da tesouraria por instituição e por conglomerado
  • Separe no orçamento de tecnologia a linha de capacidade da linha de segurança e revise a segunda

Esta publicação tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento, jurídica ou financeira. As decisões tomadas com base neste material são de responsabilidade exclusiva do leitor. Análise Econômica.

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