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Bússola do CEO09 de setembro de 2026Edição #32

O dólar caiu por causa de uma pesquisa

Nenhum indicador econômico foi divulgado entre o movimento e a explicação dele.

Bússola do CEO · Leitura de 13 min
O dólar caiu por causa de uma pesquisa
"O preço da sua moeda melhorou por uma razão política. O preço do seu custo piorou por uma razão física."

Entre segunda e terça, o dólar recuou para perto de R$ 5,09 e o Ibovespa subiu quase 2%. Nenhum indicador econômico foi divulgado nesse intervalo.

Visão AE

Entre segunda e terça, o dólar recuou para perto de R$ 5,09 e o Ibovespa subiu quase 2%. Nenhum indicador econômico foi divulgado nesse intervalo.

O que saiu foi uma pesquisa eleitoral. E ela estava dentro da margem de erro.

No mesmo pregão, o barril de petróleo subiu 1,40% e fechou perto de US$ 97. Também na terça, o IGP-DI de agosto mostrou que os preços agropecuários na origem pararam de cair e voltaram a subir.

Ou seja: o preço da sua moeda melhorou por uma razão política. O preço do seu custo piorou por uma razão física.

Um desses dois movimentos pode ser desfeito pela próxima pesquisa. O outro depende do Estreito de Ormuz e da lavoura.

A decisão mental desta edição é operacional, não estratégica: trate a janela cambial como tática de curto prazo — use, não planeje em cima dela.

Em 60 segundos

  • IGP-DI subiu 0,06% em agosto, revertendo queda de 0,86% em julho. A terceira deflação seguida não veio.
  • Preços agropecuários ao produtor viraram para cima: matérias-primas brutas de -3,02% para +1,43%, com soja, milho, bovinos e carne bovina em alta.
  • Preços ao consumidor caíram 0,37% no mesmo índice. Quem está no meio da cadeia absorve a diferença.
  • INCC acelerou para 0,66%, único componente do IGP-DI que ganhou força. Custo de obra subiu num mês de inflação parada.
  • Focus manteve Selic em 13,75% para o fim de 2026, dólar em R$ 5,20 e reduziu o IPCA de 5,01% para 5,00%.
  • Dólar operou perto de R$ 5,09 no início do pregão de terça, abaixo da própria mediana do Focus.
  • Brent perto de US$ 97,26 e OPEP+ mantendo produção em outubro. Sem barril extra para amortecer.
  • China importou 28,2% a mais em agosto, mas comprou 10,9% menos do Brasil. A causa é cota, não preço.
  • Produção de vestuário caiu 6,8% no ano; importações de produtos chineses subiram 21,3% em agosto.
  • PMI industrial em 46,3, a contração mais forte em 40 meses.
  • Escala 6x1 adiada para depois das eleições. Passivo de folha com data.

O que muda na mesa do CEO

Vamos direto ao que muda de verdade nesta semana.

No caixa. A janela cambial é executável agora. Se há compra dolarizada prevista para o quarto trimestre — insumo, equipamento, componente, licença de software —, a diferença entre R$ 5,09 e os R$ 5,20 que o mercado ainda projeta para o fim do ano é dinheiro real. Não é margem enorme. Mas é dinheiro que existe hoje e pode não existir na semana que vem.

No custo. O barril subiu 1,40% no mesmo dia em que o dólar caiu 0,76%. Faça a conta em reais: o combustível ficou mais caro, não mais barato. Quem só olhou a cotação da moeda concluiu o contrário.

Na margem. O IGP-DI de agosto mostrou uma inversão de composição que quase ninguém vai destacar. Os preços ao consumidor caíram 0,37%. Os preços agropecuários ao produtor subiram. Se você está no meio dessa cadeia — indústria de alimentos, distribuição, varejo alimentar —, é a sua margem que está absorvendo a diferença.

No estoque. As matérias-primas brutas saíram de queda de 3,02% em julho para alta de 1,43% em agosto. Soja, milho, bovinos e carne bovina subiram. Custo de reposição sobe antes do preço de venda. Essa defasagem tem nome e prazo: dois a quatro meses.

No crédito. A janela de captação também abriu, e pela mesma razão frágil. Se há emissão ou alongamento de dívida planejado para o quarto trimestre, a pergunta não é se as condições vão melhorar mais. É quanto custa perder esta janela se a próxima pesquisa devolver o prêmio de risco.

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A terceira deflação não veio

Esperava-se que o IGP-DI de agosto registrasse a terceira queda mensal consecutiva. Nossa própria projeção apontava para um leve recuo.

Veio alta de 0,06%.

O número é pequeno. Quase irrelevante isoladamente. O índice acumula 2,19% no ano e 2,63% em doze meses, e o resultado ficou em linha com o consenso de mercado, que esperava +0,05%.

A notícia não é a magnitude. É a composição.

O índice de preços ao produtor, que responde por 60% do IGP-DI, passou de queda de 1,31% em julho para alta de 0,10% em agosto. Segundo André Braz, do FGV IBRE, soja, milho, bovinos e carne bovina avançaram no mês, e as matérias-primas brutas saíram de queda de 3,02% para alta de 1,43%. Do outro lado, os preços industriais continuaram caindo e ajudaram a conter o avanço.

Traduzindo para a operação: o produtor rural parou de dar desconto. A indústria continua dando.

Para quem compra commodity agrícola e vende produto industrializado, isso é compressão de margem pelos dois lados. Custo subindo na entrada, preço travado na saída.

Há um detalhe que merece atenção separada. Dentro de um índice geral praticamente parado, o Índice Nacional de Custo da Construção acelerou de 0,61% para 0,66%. Foi o único componente que ganhou força.

Ou seja: em agosto, a inflação geral parou e a de construir acelerou. Se o seu contrato de obra é reajustado por índice geral, ele está capturando o número errado. Se você tem aditivo em negociação ou empreendimento em orçamento, vale reabrir antes de assinar.

Colheita de soja no campo agrícola

Uma pesquisa moveu o câmbio. Nenhuma pesquisa vai mover o barril.

O Brent para novembro fechou a segunda-feira perto de US$ 97,26, com alta de 1,40%. O WTI subiu 0,84%, a US$ 92,25.

A causa é conhecida e não é nova: escalada militar no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% da oferta mundial de petróleo. No fim de semana, forças americanas atingiram três petroleiros iranianos, em resposta a mísseis balísticos disparados pelo Irã contra dois navios de guerra americanos. O Irã ameaçou estabelecer nova área de navegação restrita.

O dado novo é outro, e ele é o que importa para o CEO: a OPEP+ decidiu manter os níveis de produção em outubro, interrompendo uma sequência de aumentos.

Isso significa que não há barril adicional entrando no mercado para compensar o prêmio de risco geopolítico. O amortecedor de oferta foi desligado.

E o petróleo não é uma linha isolada de custo. Ele chega à sua empresa por caminhos diferentes ao mesmo tempo.

Na logística, é a maior linha variável do frete. Na indústria química e de embalagens, é matéria-prima direta. No agro, entra pelo fertilizante e pela secagem de grão. No varejo alimentar, aparece no custo de última milha. E na energia elétrica chega por um caminho paralelo — o El Niño muito forte já configurado eleva o risco hidrológico e o acionamento térmico.

Há ainda a tensão doméstica de sempre. Quanto mais tempo o preço interno de combustível ficar abaixo da paridade internacional, maior o passivo de reajuste acumulado. Todo reajuste adiado até outubro continua existindo. Ele só muda de data.

A pergunta para a sua área de suprimentos: qual é o nível de Brent, sustentado por quantos dias, que aciona automaticamente a renegociação do contrato de frete? Se esse gatilho não está escrito, com responsável nomeado, você vai renegociar tarde.

Ainda nesta quarta, o Superior Tribunal de Justiça tem pauta para definir se é permitida a exploração de óleo e gás não convencionais por fraturamento hidráulico no país. Com o barril perto de US$ 97, essa deixa de ser uma questão jurídica e vira uma variável de custo de energia para toda indústria intensiva em gás.

O dólar caiu 0,76%. O barril subiu 1,40%. Em reais, o combustível ficou mais caro no mesmo dia em que a moeda melhorou.

Plataforma de petróleo offshore em alto-mar

A China comprou mais e o Brasil vendeu menos

Os dados chineses de agosto saíram na terça e trazem um contraste que vale colocar na mesa.

As importações da China cresceram 28,2% na comparação anual. As exportações subiram 25%, acelerando ante os 23,9% de julho, com veículos avançando 53,2% e itens de alta tecnologia 42,9%. O superávit comercial ficou em US$ 119,1 bilhões.

Vale um contrapeso: tanto exportações quanto importações vieram abaixo do que o mercado esperava. Preço de commodity reage à diferença entre o realizado e o projetado, não ao número absoluto. Quem leu apenas "+28,2%" e concluiu demanda garantida leu metade.

E agora o dado brasileiro, que é o que interessa.

As exportações do Brasil para a China caíram 10,9% em agosto, para US$ 8,340 bilhões, enquanto as importações de produtos chineses cresceram 21,3%, para US$ 6,609 bilhões.

A China importou muito mais do mundo e comprou bem menos do Brasil no mesmo mês.

A explicação, segundo o MDIC, não é competitividade. É cota. A cota brasileira de carne bovina livre de tarifa adicional na China é de 1,106 milhão de toneladas em 2026, e a expectativa é de que tenha sido atingida em agosto. Acima dela incide tarifa de 55%. Exportadores provavelmente anteciparam o esgotamento e reduziram embarques para não pagar.

O ponto cego aqui é perigoso. Perder venda por preço e perder venda por cota dão o mesmo número no extrato. Só uma das duas se resolve com desconto. Quem tratar essa queda como perda de competitividade vai baixar preço para recuperar um volume que não voltaria de qualquer forma.

No acumulado de janeiro a agosto, aliás, as vendas à China crescem 15%, com superávit de US$ 25,5 bilhões. A tendência do ano segue positiva. O que quebrou foi o calendário de embarque.

Para frigorífico e trading, a decisão prática é de agenda: mapear a data provável de virada de cota em 2027 e distribuir volume ao longo do ano, em vez de concentrar no primeiro semestre e depois parar.

Porto comercial com navios e contêineres

Foto: Roger Davies · CC BY-SA 2.0 · Wikimedia Commons

O câmbio ajuda o insumo e ajuda mais o concorrente

Aqui está a leitura mais contraintuitiva desta edição, e ela vale para toda a indústria de transformação.

Dólar mais barato reduz o custo do insumo importado da sua fábrica. Reduz também, e muitas vezes mais, o preço do produto acabado que o concorrente asiático coloca na prateleira.

Os números do têxtil ilustram isso com clareza incômoda.

A Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção alertou nesta semana que a MP das blusinhas tende a agravar a perda de competitividade da produção nacional. A entidade reconhece pontos positivos na medida — reforço de fiscalização e possibilidade de revisão do regime —, mas critica a assimetria: a isenção mantida para a importação não foi compensada por benefício equivalente à indústria brasileira.

Os dados que a Abit coloca na mesa: a produção de vestuário caiu 6,8% entre janeiro e julho na comparação anual, e a têxtil recuou 3,9%. Em doze meses, a queda em vestuário chega a 4,2%.

O consumo não caiu junto. Mudou quem está atendendo.

E isso conversa diretamente com o dado do comércio bilateral: as importações brasileiras de produtos chineses cresceram 21,3% em agosto.

Some a isso o quadro industrial mais amplo. O PMI industrial brasileiro caiu para 46,3 pontos em agosto, a contração mais intensa em quarenta meses. Os preços industriais continuam caindo, o que significa que a indústria não está conseguindo repassar. E o custo de energia sobe com o barril.

Compressão por cima, por baixo e pela lateral.

A pergunta para a sua diretoria industrial: ao avaliar o efeito do câmbio, você separou o impacto sobre o custo do seu insumo do impacto sobre o preço do concorrente importado? Os dois têm sinais opostos, e a magnitude muda por linha de produto.

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O que ficou para depois de outubro

Três decisões que mexem em custo empresarial foram empurradas para o outro lado da eleição.

A votação da proposta sobre a escala 6x1 no Senado ficou para depois do pleito, com entidades do setor de hospitalidade mantendo mobilização. Adiamento não é cancelamento. É um passivo com data marcada — e ele atinge varejo, alimentação, hotelaria, logística, segurança, facilities e saúde, todos intensivos em mão de obra. Se o seu plano de headcount para 2027 não tem um cenário com essa mudança, ele está incompleto.

No campo internacional, o Canadá passou a aplicar novas tarifas comerciais em resposta a políticas dos Estados Unidos, no mesmo dia em que o secretário de Estado americano iniciou viagem oficial a países da América Latina. Parece agenda diplomática. É rota de exportação. O Canadá é justamente um dos países que negocia acordo com o Mercosul, e uma escalada tarifária dele com Washington muda o cálculo de quem procura destino alternativo.

E houve uma cena que rendeu manchete curiosa e tem cauda longa: um protesto com robôs em Varsóvia pediu regulamentação urgente da inteligência artificial. A parte engraçada dura um parágrafo. A parte cara é o custo de compliance que vem depois. Pressão social por regulação precede regulação de fato, e regulação de fato muda prazo de implantação, custo de auditoria e viabilidade de projeto de automação.

Vale registrar um contraponto sobre tecnologia. O dólar mais barato favorece contrato de nuvem, licença e equipamento importado — investimento de ciclo curto. Mas o apetite global por risco andou na direção oposta nos mesmos dois dias, com o Bitcoin recuando para cerca de US$ 78,8 mil sob pressão da expectativa de alta de juros nos Estados Unidos. Para projeto de infraestrutura que só fica pronto daqui a alguns anos, o que manda é o custo de capital, e ele piorou.

O dólar mais barato ajuda o contrato de nuvem do próximo trimestre. Não ajuda o data center de 2028.

Braços robóticos em linha de produção industrial

O que colocar na reunião de diretoria

  • Temos compra dolarizada prevista para o quarto trimestre que possa ser antecipada esta semana? A janela existe hoje e depende de uma pesquisa dentro da margem de erro.
  • Nosso custo de reposição foi recalculado com o IPA de agosto, ou ainda usa o IPC? Se usa o índice ao consumidor, a projeção de margem está otimista.
  • Qual é o gatilho objetivo de Brent — preço e número de dias — que aciona renegociação de frete e energia, e quem é o responsável por acioná-lo?
  • Ao avaliar o câmbio, separamos o efeito no nosso insumo do efeito no preço do concorrente importado? Nos dois casos o sinal é o mesmo, mas a conclusão pode ser oposta.
  • Nosso plano de headcount para 2027 tem um cenário com mudança na escala 6x1? A votação foi adiada, não cancelada.

Agenda da próxima semana

Hoje, quarta-feira (9). Saem produção e vendas de veículos de agosto — o termômetro mais sensível de crédito ao consumidor no país. O STJ define a diretriz sobre fracking, e o STF analisa o recolhimento de contribuições sociais devidas por empregadores rurais. Nos Estados Unidos, a Apple faz sua conferência anual de lançamentos, e o acessório que acompanhar esse lançamento agora entra no Brasil sem imposto federal até US$ 50.

Quinta-feira (10). O Banco Central Europeu decide juros, com expectativa consolidada de elevação da taxa de depósito para 2,50% — o que significa comprador europeu mais seletivo e euro mais firme para quem importa bem de capital. No Brasil, o IBGE divulga a pesquisa mensal de serviços de julho, e a CNC publica a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor de agosto. Essa última é a leitura definitiva de capacidade de tomada de crédito antes de fechar a política de parcelamento do quarto trimestre.

Sexta-feira (11). IPCA de agosto e CPI americano na mesma manhã. Depois de o IGP-DI vir acima do projetado, a leitura do IPCA ganha peso adicional — é ela que fecha a discussão de Copom e Fed.

Terça e quarta que vem (15 e 16). Copom e Fed. As duas decisões que definem o custo de capital de 2027.

Entre hoje e a quarta-feira que vem, o CEO brasileiro recebe uma leitura de serviços, uma de endividamento das famílias, duas de inflação e três decisões de banco central. Não vai faltar informação. Vai faltar tempo para reagir.

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Próximos passos

  • Antecipe compras dolarizadas do quarto trimestre enquanto o câmbio opera abaixo da mediana do Focus
  • Recalcule o custo de reposição das categorias agrícolas com base no IPA de agosto, não no IPC
  • Escreva o gatilho de Brent que aciona renegociação de frete e energia, com nível, prazo e responsável nomeado
  • Reabra o orçamento das obras em andamento com o INCC de agosto antes de aprovar qualquer aditivo
  • Mapeie a data provável de virada da cota chinesa de carne bovina em 2027 e redistribua o calendário de embarque

Esta publicação tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento, jurídica ou financeira. As decisões tomadas com base neste material são de responsabilidade exclusiva do leitor. Análise Econômica.

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