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Bússola do CEO•27 de outubro de 2026•Edição #65

O dia em que o custo de capital mudou

Os juros longos subiram mais de 2 pontos em um único pregão. Veja o que revisar em projetos, crédito e custos.

Bússola do CEO · Leitura de 8 min
O dia em que o custo de capital mudou
"O dólar vira manchete. O juro longo vira orçamento."

O primeiro pregão após o segundo turno confirmou e ampliou a reação que os mercados no exterior haviam antecipado no domingo. O Ibovespa fechou em queda de 13,88%, a maior perda percentual desde março de 2020, depois de acionar o circuit breaker logo na abertura.

Visão AE

O primeiro pregão após o segundo turno confirmou e ampliou a reação que os mercados no exterior haviam antecipado no domingo. O Ibovespa fechou em queda de 13,88%, a maior perda percentual desde março de 2020, depois de acionar o circuit breaker logo na abertura.

O dólar subiu 8,36% e encerrou a R$ 5,40, após tocar a região de R$ 5,60 pela manhã. O Tesouro Nacional cancelou os leilões da semana e recomprou cerca de R$ 7,1 bilhões em títulos prefixados para amortecer a pressão sobre a dívida pública.

A leitura da AE é que o número que mais muda o planejamento das empresas não é o da bolsa nem o do câmbio, mas o dos juros de longo prazo. Os contratos com vencimento entre 2028 e 2031 subiram entre 2 e 2,6 pontos percentuais em um único dia, o que eleva a régua de retorno de qualquer projeto de vários anos.

Segunda-feira foi o dia em que o mercado votou; a pesagem virá com sinais fiscais concretos, que ainda não chegaram. Até lá, a melhor postura é revisar premissas com cenários, sem tomar um pregão isolado como tendência.

Em 60 segundos

  • Mercado: bolsa −13,9%, dólar a R$ 5,40 e Tesouro atuando para amortecer a pressão.
  • Capital: juros longos acima de 15% elevam a régua dos projetos de 2027.
  • Setores: imobiliário, consumo e bancos sofrem; exportadores se protegem.
  • Fiscal: continuidade sinalizada; comando da Fazenda definido até o fim do ano.
  • Custos: petróleo recua em dólar, mas o diesel importado sobe em reais.
  • Juros: Fed decide na quarta; Copom em 4 de novembro, com menos espaço para cortes.

O que muda na mesa do CEO

Para quem tem projetos de investimento em análise, a consequência mais direta está na taxa de desconto. O DI para janeiro de 2029 passou de 12,64% para 15,25%, e o de 2031 foi de 12,64% para 15,24%.

Esses patamares redefinem quanto um projeto precisa render para valer a pena e quanto custará uma debênture ou um financiamento de longo prazo contratado nas próximas semanas. Projetos que passavam com folga no orçamento de 2027 merecem novo cálculo antes de seguir ao conselho.

O câmbio entra pela conta de custos. Com o dólar perto de R$ 5,40, insumos importados, componentes eletrônicos, contratos de nuvem e dívidas em moeda estrangeira sem proteção ficam cerca de 8% mais caros em reais. O Boletim Focus divulgado na segunda ainda projetava dólar de R$ 5,05 no fim do ano, mas a coleta foi feita antes da eleição. Quem usa esse número como premissa trabalha com um cenário que já mudou.

A orientação prática é separar urgência de ansiedade. Mapear a exposição cambial líquida, conferir covenants atrelados ao CDI e precificar a reposição de estoque pelo câmbio atual são tarefas desta semana. Já cancelar projetos, refazer toda a política comercial ou contratar proteções longas com base em um único pregão tende a custar caro, ainda mais num momento em que o próprio Tesouro atua para reduzir a volatilidade.

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O mapa do risco desenhado pela bolsa

A distribuição das perdas ajuda a entender onde o mercado enxerga risco de resultado:

  • Imobiliário: −28,63%.
  • Consumo: −26,14%.
  • Empresas de menor porte (small caps): −26,52%.
  • Exportadoras: foram na direção oposta.

Os setores mais atingidos têm algo em comum: dependem de crédito barato e de demanda doméstica financiada, as variáveis mais sensíveis a juros altos por mais tempo.

Na construção civil, a leitura é direta, porque o setor vende parcela e a parcela depende da curva de juros. Revisar o calendário de lançamentos e a taxa de retorno de concessões com a nova curva é uma medida prudente.

Canteiro de obras de construção civil urbana

Foto: Fons Heijnsbroek · CC0 · Wikimedia Commons

No varejo, o desafio é chegar ao fim do ano com importados mais caros na reposição e um consumidor que já estava cauteloso. A confiança do consumidor medida pela FGV subiu levemente em outubro, para 84,7 pontos. A avaliação sobre o momento presente, porém, caiu ao menor nível desde março de 2025, com endividamento e inadimplência limitando o orçamento das famílias. Vale lembrar que a pesquisa foi feita antes da eleição.

Nos bancos, o juro mais alto ajuda a margem financeira, mas impõe perdas de marcação a mercado e pode pressionar a inadimplência mais adiante. O balanço do Santander, na quarta-feira, será o primeiro termômetro do setor depois do choque.

Do outro lado, mineração, siderurgia, celulose e agro exportador passam a ganhar mais em reais. Para essas empresas, a questão é como alocar o caixa adicional num país de juros mais altos e quanto o custo local de energia, frete e pessoal vai consumir desse ganho nos próximos trimestres.

Âncora fiscal: continuidade sinalizada, cronograma em aberto

O fator que definirá quanto do movimento de segunda-feira será permanente é a política fiscal. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o próximo mandato deve preservar o arcabouço fiscal e buscar melhora gradual do resultado primário.

Ele citou a revisão de benefícios tributários e o aperfeiçoamento dos critérios de acesso a programas sociais, mas ainda não há um pacote detalhado. Segundo o presidente do PT, quem comandará a Fazenda a partir de 2027 deve ser definido até o fim do ano.

Dario Durigan durante pronunciamento sobre política fiscal

Foto: Diogo Zacarias · Public domain · Wikimedia Commons

Para o planejamento das empresas, isso indica que a volatilidade pode durar semanas, e não apenas dias. O mais sensato é trabalhar com faixas de câmbio e de juros em vez de um único número, revisando o orçamento à medida que surgirem sinais concretos.

O Copom se reúne em 4 de novembro com a Selic em 13,75% e terá de pesar o real mais fraco e a curva de juros mais alta. Casas de análise já projetam um ciclo de cortes mais curto, e a hipótese de pausa ganhou espaço, embora a decisão dependa da comunicação do Banco Central.

O dólar vira manchete. O juro longo vira orçamento.

Custos: o desconto do petróleo e a conta em reais

Do lado externo, houve algum alívio. O Brent recuou 0,86%, para US$ 110,74 o barril, enquanto delegações da Arábia Saudita, do Paquistão e da Turquia estiveram em Teerã para tentar evitar a retomada do confronto entre Estados Unidos e Irã. O Goldman Sachs estima o valor justo do petróleo em torno de US$ 85, o que dá a medida do prêmio de risco ainda embutido no preço.

Navio petroleiro navegando em alto mar

Em reais, o efeito tende a ser o oposto. Com o dólar 8% mais caro, o preço de paridade do diesel importado sobe mais do que a queda do petróleo consegue compensar. Isso amplia uma defasagem que já era relevante antes da eleição. Para agro, distribuição, varejo e indústria, travar contratos de frete e simular o efeito de um eventual reajuste sobre a margem de contribuição segue como lição de casa da semana.

O mesmo câmbio chega às férias. Num ano em que o país já soma recorde de 22,7 milhões de passageiros internacionais até setembro, a viagem de fim de ano ao exterior ficou mais cara de um dia para o outro. Parte dessa demanda pode migrar para o turismo doméstico, com reflexo para companhias aéreas, hotelaria e meios de pagamento.

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Tecnologia e clima seguem o próprio calendário

Enquanto a bolsa brasileira recuava, o Itaú anunciou a compra da startup brasileira de inteligência artificial NeoSpace por R$ 2,925 bilhões, operação que ainda depende de aprovação regulatória. Em Nova York, os índices subiram puxados por empresas de tecnologia.

A Meta informou planos de levantar US$ 95 bilhões para investimentos em IA, e a Anthropic protocolou seu pedido de abertura de capital. Para o CEO, a disputa por dados e produtividade não pausa por causa do ciclo doméstico, e projetos de IA com retorno mensurável continuam merecendo prioridade, mesmo com uma régua de capital mais exigente.

Servidores em centro de dados de tecnologia e inteligência artificial

No clima, a Organização Meteorológica Mundial projeta o pico do El Niño para dezembro, com o Sul do Brasil concentrando o excesso de chuvas. É um risco para safra, logística, seguros e preço de alimentos que não depende de Brasília e se soma à pressão cambial sobre a inflação.

O que colocar na reunião de diretoria

  1. Quais projetos de 2027 continuam viáveis com juros longos acima de 15%?
  2. Qual é a exposição cambial líquida da empresa, e quanto ela passa a custar com o dólar a R$ 5,40?
  3. Há covenants ou contratos atrelados ao CDI que mereçam renegociação preventiva?
  4. A reposição de estoque e os novos contratos de insumo estão sendo precificados pelo câmbio atual?
  5. O orçamento de 2027 trabalha com faixas de câmbio e juros ou com um único número?

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Agenda da próxima semana

  • Terça (27): segundo pregão após a eleição, importante para medir se o movimento se estabiliza.
    • O Banco Central divulga investimento estrangeiro direto e contas externas de setembro. A AE projeta US$ 10,1 bilhões em investimento direto, valor suficiente para cobrir o déficit externo estimado em US$ 5,34 bilhões.
    • O Fed inicia sua reunião.
    • A Hypera divulga balanço após o fechamento.
  • Quarta (28): decisão do Fed, com manutenção dos juros amplamente esperada, Orçamento de outono do Reino Unido e balanço do Santander.
  • Quinta (29): o dia mais carregado.
    • IGP-M, Caged e resultado do Governo Central.
    • PIB dos Estados Unidos e decisão do Banco Central Europeu.
    • Balanços de Vale e Ambev.
  • Sexta (30): taxa de desemprego e PMI da China.
  • 4 de novembro: primeira decisão do Copom após a eleição.

#Próximos passos

  • Recalcular até sexta a taxa mínima de retorno dos projetos de 2027 com a nova curva de juros.
  • Mapear a exposição cambial líquida, as dívidas em dólar sem hedge e os covenants ligados ao CDI.
  • Precificar reposição de estoque e novos contratos de insumo pelo câmbio atual.
  • Adiar captações não urgentes e confirmar linhas de crédito já aprovadas.
  • Substituir as premissas do Focus por cenários com faixas de câmbio e juros. :::

Esta publicação tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento, jurídica ou financeira. As decisões tomadas com base neste material são de responsabilidade exclusiva do leitor. Análise Econômica.

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