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Bússola do CEO•03 de novembro de 2026•Edição #69•Atualizada em 03 de novembro de 2026

O custo de capital de 2027 mudou antes da Selic

Depois do segundo turno, os juros de prazo longo subiram mais de dois pontos. O Copom decide na quarta, e o petróleo deu uma trégua na segunda.

Franklin Lacerda — Economista e CEO da Análise Econômica · Leitura de 10 min
O custo de capital de 2027 mudou antes da Selic
"O maior perigo em tempos de turbulência não é a turbulência, mas agir com a lógica de ontem. — Peter Drucker"

O Brasil volta do feriado com três preços sendo revistos ao mesmo tempo. O primeiro é o risco do país, que subiu com força na semana seguinte ao segundo turno. O segundo é o preço do dinheiro no curto prazo, que o Copom decide nesta quarta-feira entre um último corte e uma pausa.

Visão AE

O Brasil volta do feriado com três preços sendo revistos ao mesmo tempo. O primeiro é o risco do país, que subiu com força na semana seguinte ao segundo turno.

O segundo é o preço do dinheiro no curto prazo, que o Copom decide nesta quarta-feira entre um último corte e uma pausa. O terceiro é o da energia: o petróleo recuou na segunda-feira com o avanço das negociações entre Estados Unidos e Irã.

Para as empresas, o efeito mais concreto da última semana não está na bolsa, e sim na curva de juros. Entre 23 e 29 de outubro, a taxa do título prefixado com vencimento em 2029 passou de 12,77% para 14,95% ao ano.

Isso significa que debêntures, financiamentos de máquinas e capital de giro de prazo longo planejados para 2027 já estão mais caros, qualquer que seja a decisão do Banco Central.

A perspectiva também importa. Mesmo depois da semana mais dura desde 2020, o dólar acumula alta de apenas 0,81% em 2026, e o Ibovespa ainda sobe 4,22% no ano.

A volatilidade tem custo real, mas pede revisão de premissas, não reação por impulso. A decisão que o CEO deve levar desta edição é revisar, ainda nesta semana, quais projetos e captações de 2027 foram calculados com a curva de juros anterior à eleição.

Em 60 segundos

  • Juros longos: o crédito de prazo longo encareceu mais de dois pontos, independentemente da Selic.
  • Copom: a AE espera corte para 13,50%; o mercado passou a precificar manutenção em 13,75%.
  • Câmbio: o dólar perto de R$ 5,44 encarece importados, mas está praticamente estável no ano.
  • Petróleo: o Brent caiu para US$ 104,77, mas as projeções do Goldman subiram.
  • Indústria: a demanda esfria e os insumos sobem, com repasse mais difícil.
  • Tecnologia: o mercado global passou a exigir caixa dos investimentos em IA.
  • Consumo: a Black Friday terá demanda, com crédito restrito e o Pix ganhando relevância.

O que muda na mesa do CEO

A primeira mudança está na estrutura de capital. Quem pretendia captar em 2027 com taxas próximas às de outubro precisa refazer as contas. A taxa de desconto dos projetos subiu junto com a curva, e o retorno exigido de cada novo investimento fica mais alto. Vale separar o que é urgente do que pode esperar por um sinal mais claro sobre a política fiscal.

A segunda mudança está nas compras. Com o dólar perto de R$ 5,44, insumos, componentes, licenças de software e mercadorias importadas para o fim do ano chegam mais caros. Faz sentido definir já as faixas de câmbio que disparam renegociação, repasse ou proteção cambial, para que a empresa não decida no meio da oscilação.

A terceira mudança está no capital de giro e no crédito ao cliente. O Índice de Custo do Crédito atingiu em setembro o maior nível da série, antes mesmo do choque. Para quem vende parcelado ou financia o cliente, isso significa mais pedidos recusados e prazos mais caros justamente no trimestre de maior consumo do ano.

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A semana que reprecificou o risco Brasil

No primeiro pregão após o segundo turno, a B3 acionou o circuit breaker, a interrupção automática das negociações, pela primeira vez em seis anos. Na semana, o Ibovespa caiu 18,12%, o pior resultado desde março de 2020, e o dólar subiu mais de 9%, a maior alta semanal desde 2008.

Entrada principal do prédio da B3 em São Paulo.

Foto: Rafael Matsunaga · CC BY 2.0 · Wikimedia Commons

O Tesouro Nacional cancelou os leilões de títulos previstos e fez recompras extraordinárias para reduzir a pressão sobre as taxas. As varejistas listadas estiveram entre as maiores quedas do setor no dia 26, com Quero-Quero, Magazine Luiza, C&A e Centauro liderando as perdas.

O contraste com os fundamentos externos ajuda a ler o momento. Em setembro, o país recebeu US$ 11,3 bilhões em investimento direto, e o acumulado de janeiro a setembro é o maior para o período desde 2011.

O superávit comercial chegou a US$ 62,4 bilhões no mesmo intervalo, ante US$ 46,3 bilhões um ano antes, e outubro pode superar US$ 10 bilhões. A leitura da AE é que o movimento reflete prêmio de risco doméstico, e não escassez de dólares.

Esse diagnóstico não elimina o custo que já chegou às empresas, mas indica onde está a variável decisiva. A definição da equipe econômica do próximo mandato e o detalhamento das medidas fiscais que o Ministério da Fazenda diz ter prontas tendem a pesar mais sobre a curva de juros do que qualquer dado de atividade nas próximas semanas.

Construtoras e concessionárias sentem isso primeiro: o título atrelado à inflação de 2032 passou a pagar quase 8% de juro real, mais de um ponto acima do patamar anterior à eleição.

Copom: o número importa, mas o comunicado importa mais

A Análise Econômica projeta um corte de 0,25 ponto, levando a Selic de 13,75% para 13,50%, com base nos sinais de desaceleração da atividade. O mercado se moveu em outra direção depois da eleição: as opções de Copom negociadas na B3 passaram a indicar entre 66% e 69% de chance de manutenção. As duas leituras são próximas em efeito imediato. A diferença relevante está no sinal sobre 2027.

Sala de imprensa do Banco Central do Brasil onde ocorrem anúncios sobre a taxa Selic.

Foto: Roque de Sá/Agência Senado.

A inflação limita o espaço do Banco Central. O IPCA acumulado em 12 meses estava em 4,58% em setembro, e a prévia de outubro, em 4,62%, ambos acima do teto da meta, de 4,5%. Os preços ao produtor também aceleram: o IGP-M subiu 1,47% em outubro, e os produtos industrializados acumulam 5,5% em 12 meses, o que sugere repasses adicionais ao consumidor nos próximos meses.

Do outro lado, a atividade perde fôlego. A AE estima queda de 0,4% na produção industrial de setembro, que seria a segunda seguida, e uma geração de empregos formais bem menor que a de agosto. A confiança da indústria recuou para 91 pontos, enquanto o desemprego, em 5,2%, segue no menor nível da série. Para a indústria, a combinação é desconfortável: a demanda esfria, o insumo encarece e o poder de repasse fica menor que em choques cambiais anteriores.

O ponto de atenção para o CEO é a frase que acompanhará a decisão. Se o comunicado indicar o fim do ciclo de cortes, a curva tende a precificar juros altos por mais tempo, e a despesa financeira da dívida pós-fixada deve ser simulada com a Selic estável até meados de 2027.

Entre 23 e 29 de outubro, a taxa do título prefixado de 2029 passou de 12,77% para 14,95% ao ano. O custo de capital de 2027 mudou antes de qualquer decisão do Copom.

Petróleo em trégua, energia ainda cara

O Brent fechou a segunda-feira a US$ 104,77, queda de 7,63%, depois que negociadores iranianos concluíram uma rodada com mediadores do Catar e uma minuta de acordo passou a circular.

O Irã afirmou ter um plano para reabrir o Estreito de Ormuz em dois dias, desde que suas condições sejam atendidas. Não há acordo assinado nem data definida, e a própria OPEP+ manteve suas metas de produção para dezembro.

Navio petroleiro transportando combustível pelo Estreito de Ormuz.

Foto: U.S. Navy photo by Mass Communication Specialist 3rd Class Jonathan Sunderman · Public domain · Wikimedia Commons

Quem projeta preços continua cauteloso. Mesmo com a queda, o Goldman Sachs elevou sua estimativa para a média do Brent em dezembro de US$ 90 para US$ 105, e para 2027 de US$ 80 para US$ 88, citando riscos persistentes de oferta. Para o orçamento, a leitura prudente é tratar o movimento de segunda como alívio, sem rever contratos de frete ou energia com base em uma única sessão.

No diesel, o efeito tende a demorar. O governo renovou em 27 de outubro, por mais 30 dias, a subvenção de R$ 2,12 por litro, que já amortece o preço ao longo da cadeia. A queda do petróleo tende a reduzir primeiro o custo fiscal da medida, e só depois, se persistir, o preço ao consumidor.

Para o agro, que está em pleno plantio, e para a logística, o fim do ciclo atual do subsídio, no fim de novembro, é a data que merece cenário próprio. Para as companhias aéreas, segundo representantes do setor, o combustível chegou a 45% dos custos operacionais.

No cenário externo, dois eventos desta semana podem influenciar o câmbio. Os Estados Unidos realizam hoje as eleições de meio de mandato, que renovam toda a Câmara e parte do Senado.

E o Federal Reserve, que manteve os juros entre 3,75% e 4% com dois votos por alta, terá na sexta-feira o relatório de emprego que ajuda a definir a reunião de dezembro, quando o mercado vê cerca de 74% de chance de aumento. Juros americanos subindo enquanto o Brasil discute cortar tendem a pressionar o real.

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IA, proteína e Black Friday: três testes de margem

Nos Estados Unidos, o mercado passou a cobrar retorno em caixa dos investimentos em inteligência artificial. O Nasdaq caiu 2,86% na sexta-feira e 5,3% em outubro, a maior perda mensal desde março de 2025. A Alphabet registrou fluxo de caixa livre negativo de US$ 9,07 bilhões, e a Amazon, de US$ 42,4 bilhões, enquanto a Microsoft ofereceu saída voluntária a cerca de 60 mil funcionários, 27% do quadro global.

No Brasil, o Itaú anunciou a compra da startup de IA NeoSpace por R$ 2,925 bilhões, com parte do pagamento diferida em cinco anos. As duas notícias convivem bem: a tecnologia segue estratégica, mas cada projeto precisa vir acompanhado de uma meta de caixa clara.

Na proteína animal, o foco de doença de Newcastle em uma granja de perus em Santa Catarina levou a restrições de markets importantes. A China limitou a suspensão a 14 estabelecimentos catarinenses, enquanto México, Malásia e Uruguai suspenderam produtos avícolas de todo o país.

Santa Catarina responde por cerca de 23% das exportações brasileiras de frango, e, segundo o JPMorgan, o estado representa entre 10% e 20% das exportações de frango da JBS, via Seara, e da MBRF. O Ministério da Agricultura garante a segurança do consumo interno. O efeito econômico provável é mais oferta de frango no mercado doméstico, o que pressiona as integradoras e pode favorecer o varejo alimentar.

Centro de distribuição com caixas e encomendas prontas para envio na Black Friday.

No varejo, a Black Friday de 26 a 29 de novembro deve movimentar R$ 13,3 bilhões no comércio eletrônico, alta de 20,7%, segundo a Confi. A confiança do consumidor voltou a subir em outubro, para 84,7 pontos, mas o crédito segue restrito: 81,7% das famílias estavam endividadas em setembro, e, na Black Friday de 2025, a Appmax registrou 2,29 milhões de transações negadas por falta de limite. Como 36% dos consumidores citam o desconto no Pix como condição de compra, a estratégia de pagamento pode pesar tanto quanto o preço.

Para quem acompanha a agenda climática, a COP31 começa em 9 de novembro em Antália, na Turquia. Para exportadores do agro, da energia e da mineração, a discussão sobre rastreabilidade e transição energética continua a se refletir em acesso a mercados e custo de capital.

O que colocar na reunião de diretoria

  1. Quais captações e projetos de 2027 foram calculados com a curva de juros anterior à eleição, e qual é o retorno deles com as taxas atuais?
  2. Em quais faixas de câmbio a empresa renegocia fornecedores, repassa preços ou contrata proteção, e quem decide em cada uma delas?
  3. Qual é o impacto na despesa financeira se a Selic permanecer em 13,75% até meados de 2027?
  4. A estratégia comercial da Black Friday considera a taxa de aprovação de crédito e alternativas de pagamento, como o Pix?
  5. Os projetos de tecnologia e IA em andamento têm metas de caixa definidas para os próximos trimestres?

Agenda da semana

Terça-feira, 3/11: a B3 reabre após o feriado e absorve a queda do petróleo. O Copom inicia sua reunião, e o Boletim Focus traz a primeira coleta inteiramente posterior à eleição. Também saem o PMI industrial brasileiro e, segundo a imprensa, o balanço do Itaú no terceiro trimestre, além das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos.

Quarta-feira, 4/11: decisão do Copom à noite, com a AE projetando 13,50%. No mesmo dia, saem o Caged de setembro, para o qual a AE estima 96,6 mil vagas, e a inflação ao consumidor nos Estados Unidos.

Quinta-feira, 5/11: produção industrial de setembro, com projeção da AE de queda de 0,4%, e decisão do Banco da Inglaterra, que deve elevar os juros para 4%.

Sexta-feira, 6/11: relatório de emprego americano, decisivo para o Fed de dezembro, e balança comercial de outubro, que pode passar de US$ 10 bilhões.

Terça-feira, 10/11: ata do Copom, que detalha o raciocínio do Banco Central sobre os próximos passos.

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Próximos passos

  • Recalcular o retorno dos projetos de 2027 com a curva de juros atual e reclassificar prioridades.
  • Definir faixas de câmbio com gatilhos de renegociação, repasse e proteção para as compras de dezembro e do primeiro trimestre.
  • Simular a despesa financeira da dívida pós-fixada com a Selic estável em 13,75% até meados de 2027.
  • Revisar o preço de reposição dos importados e reforçar o pagamento via Pix antes de fechar as ofertas da Black Friday.
  • Vincular cada investimento em tecnologia e IA a uma meta trimestral de redução de custo ou geração de receita.

Esta publicação tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento, jurídica ou financeira. As decisões tomadas com base neste material são de responsabilidade exclusiva do leitor. Análise Econômica.

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