"Quando o mercado empurra a inflação de 2029 para perto de 4%, ele está dizendo que o juro alto deixou de ser uma fase e passou a ser um cenário."
O primeiro Boletim Focus com coleta inteiramente posterior à eleição revisou de uma só vez as premissas de juros, inflação, câmbio e crescimento. Essas premissas são as mesmas que estão sendo usadas agora para fechar os orçamentos de 2027.
Visão AE
O Banco Central anuncia a Selic na noite desta quarta-feira, mas a mudança mais importante para o planejamento das empresas aconteceu na terça pela manhã. O primeiro Boletim Focus com coleta inteiramente posterior à eleição revisou de uma só vez as premissas de juros, inflação, câmbio e crescimento. Essas premissas são as mesmas que estão sendo usadas agora para fechar os orçamentos de 2027.
O número que mais chama atenção não é o deste ano, e sim o de 2029. A inflação esperada para aquele ano subiu de 3,51% para 3,98%, em um horizonte no qual o Banco Central já deveria ter trazido os preços de volta à meta de 3%. Quando o mercado empurra a inflação de 2029 para perto de 4%, ele está dizendo que o juro alto deixou de ser uma fase e passou a ser um cenário.
A decisão que o CEO deve levar desta edição é simples de enunciar e trabalhosa de executar: o orçamento de 2027 precisa ser refeito com as premissas que o mercado passou a usar nesta semana. Isso significa Selic de 12,50% no fim do ano que vem, dólar perto de R$ 5,40 e reajustes contratuais calibrados para uma inflação mais próxima de 4,8% do que de 4,3%.
Em 60 segundos
- Copom: a AE projeta 13,50% hoje; o comunicado definirá o crédito de 2027.
- Focus: a Selic de 2027 passou a 12,50%, e o orçamento precisa refletir isso.
- Inflação esperada: 4,76% em 2027 e perto de 4% até 2029, com reflexo direto nos reajustes.
- Câmbio: o dólar está no maior nível do ano e deve seguir volátil até haver sinal fiscal.
- Crédito: a inadimplência do Itaú subiu pela primeira vez em meses, e os bancos tendem a ficar mais seletivos.
- CBS: referência de 11,3%, mas a carga real depende dos créditos de cada empresa.
- Petróleo: queda de cerca de 9% em dois dias, com estoques baixos mantendo o risco de volatilidade.
O que muda na mesa do CEO
O primeiro efeito está no custo financeiro. A Selic esperada para o fim de 2027 passou de 11,75% para 12,50% em uma única semana, o que representa 0,75 ponto a mais de custo médio sobre toda a dívida pós-fixada da empresa. Para 2028, a projeção saltou de 10% para 11%, o que adia em pelo menos um ano o cenário de crédito mais barato que muitos planos de investimento pressupunham.
O segundo efeito está nos contratos e na folha. A inflação esperada para 2027 subiu de 4,34% para 4,76%, a terceira alta seguida. Esse número tende a aparecer nas cláusulas de reajuste de fornecedores, nos aluguéis e na negociação salarial do próximo ano, e convém que a empresa chegue a essas conversas já com essa referência na mesa.
O terceiro efeito está nas compras. O dólar esperado para o fim de 2026 passou de R$ 5,05 para R$ 5,34, e o de 2027 de R$ 5,15 para R$ 5,40. As compras importadas de dezembro e do primeiro trimestre estão sendo precificadas agora, em um câmbio que fechou a terça-feira no maior nível desde o fim do ano passado.
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Copom: o número importa, mas o comunicado importa mais
A Análise Econômica projeta um corte de 0,25 ponto, levando a Selic de 13,75% para 13,50%, sustentado pelos sinais de desaceleração da atividade. A mediana do Focus para o fim de 2026 também está em 13,50%, o que implica um corte até dezembro, sem indicar em qual das duas reuniões restantes. Entre os operadores, a piora das expectativas fortaleceu a hipótese de pausa, embora parte das instituições ainda espere a redução já nesta quarta.

Foto: Rawlan1998 · Public domain · Wikimedia Commons
Para a empresa, a diferença imediata entre os dois cenários é pequena. O que vai mexer com o crédito de 2027 é a sinalização que acompanha a decisão. Se o comunicado indicar que o ciclo de cortes terminou, a tendência é que os juros de prazo mais longo, que financiam máquinas, obras e expansão, continuem pressionados mesmo com um eventual corte hoje.
Para quem constrói ou financia imóveis, o ponto de atenção é a revisão para 2028. Lançamentos e concessões costumam ser viabilizados com a expectativa de juros menores dois anos à frente, e esse horizonte acaba de ficar mais caro.
Na indústria, o quadro é de demanda ainda fraca: o índice de gerentes de compras da S&P Global subiu de 44,8 para 46,1 em outubro, mas segue abaixo de 50, com a produção em queda pelo sexto mês seguido e os novos pedidos pelo 19º. A confiança dos industriais está no maior nível em nove meses, mas os clientes ainda trabalham com estoques elevados, o que tende a adiar a volta das encomendas.
Câmbio e crédito: a espera também tem preço
O dólar fechou a terça-feira a R$ 5,4872, depois de passar de R$ 5,51 durante o dia, e o Ibovespa registrou a sexta queda seguida, aos 165.528 pontos. Operadores atribuíram o movimento à ausência, até aqui, de medidas de contenção de gastos e de um nome definido para o Ministério da Fazenda. Segundo a imprensa, a indicação deve ficar para o fim de novembro, e o ministro Dario Durigan não estabeleceu prazo para o anúncio das medidas fiscais.

Foto: Rafael Matsunaga · CC BY 2.0 · Wikimedia Commons
Para o planejamento, a consequência prática é trabalhar com volatilidade de câmbio e juros por algumas semanas, e não por alguns dias. Empresas com compras importadas relevantes ganham ao definir faixas de câmbio com gatilhos claros de renegociação, repasse ou proteção, em vez de decidir a cada oscilação. Exportadores do agro e da mineração, por sua vez, têm receita em reais mais alta, mas também verão encarecer os fertilizantes e insumos importados da próxima safra.
No crédito, o balanço do Itaú trouxe um sinal que merece leitura cuidadosa. O banco lucrou R$ 12,6 bilhões no terceiro trimestre, em linha com o esperado, com rentabilidade de 23,6% sobre o patrimônio. A inadimplência acima de 90 dias, porém, subiu de 1,9% para 2,0%, a primeira alta em muitos meses, e o custo do crédito cresceu 10,2% em 12 meses.
O nível continua baixo, mas o movimento importa porque se soma ao Bradesco, que em outubro mostrou inadimplência de 4,6% e provisões 24% maiores. A leitura provável é de bancos mais criteriosos na concessão nos próximos meses, o que recomenda negociar linhas de crédito antes da virada do ano.
A Selic esperada para o fim de 2027 subiu de 11,75% para 12,50% em uma semana. O custo do capital de 2027 mudou antes de qualquer decisão do Copom.
CBS de 11,3%: a conta que não pode ficar para dezembro
Na semana passada, o Tribunal de Contas da União calculou em 11,3% a alíquota de referência da CBS, o tributo federal que substitui PIS e Cofins a partir de janeiro de 2027. O número ficou acima dos 9,21% estimados pelo Comitê Gestor do IBS e dos 8,8% projetados pela Fazenda em 2024. O Senado tem até 15 de dezembro para fixar a alíquota e, se não deliberar, vale o cálculo do TCU. Em 2027 e 2028, a alíquota efetivamente cobrada será de 11,2%.
É importante ler esse número com cuidado. A CBS não representa um acréscimo automático de 11,3% sobre os preços, porque substitui tributos existentes e permite abater o imposto pago nas compras. Segundo o Valor, a Fazenda estima uma alíquota média efetiva abaixo de 8,5%. Saúde, educação e transporte coletivo têm reduções de até 60%, e a cesta básica terá alíquota zero.
O efeito real depende da estrutura de cada empresa. Quem estava no regime cumulativo do PIS e da Cofins, com alíquota de 3,65%, tende a sentir mais a mudança, e esse é o caso de muitas empresas de serviços e de tecnologia, cujo principal custo é a folha e que, por isso, têm poucos créditos a abater. A indústria, com cadeias mais longas, tende a aproveitar mais créditos. O varejo, que já emite notas com a alíquota-teste de 0,9%, tem pouco mais de dois meses para ajustar preços e sistemas. A decisão aqui é comercial, não apenas fiscal, e convém que margem e preço de 2027 sejam simulados por linha de produto ainda em novembro.
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Petróleo, segurança digital e o mundo lá fora
O Brent fechou a terça a US$ 103,60, o menor nível desde 7 de outubro, acumulando queda de cerca de 9% em dois dias. O movimento refletiu sinais de avanço diplomático entre Estados Unidos e Irã, incluindo o relato de uma minuta de memorando de entendimento, ainda sem confirmação. Na mesma madrugada, os EUA realizaram um ataque classificado como limitado na ilha iraniana de Qeshm, e um oficial iraniano afirmou que o fim do conflito ainda está distante. Na B3, PRIO e Brava Energia estiveram entre as quedas, acompanhando a commodity.
Um detalhe ajuda a entender por que a volatilidade deve continuar. A Saudi Aramco informou que está ampliando um oleoduto capaz de escoar petróleo sem passar pelo Estreito de Ormuz, por onde circula cerca de 20% da oferta global. Quando a maior petroleira do mundo investe em uma rota alternativa, o sinal é de que o risco no estreito segue no radar.

Foto: U.S. Navy photo by Mass Communication Specialist 3rd Class Jonathan Sunderman · Public domain · Wikimedia Commons
Com os estoques globais 509 milhões de barris abaixo do nível pré-guerra, segundo a Agência Internacional de Energia, qualquer notícia tende a mover o preço com intensidade. Para logística, aviação e indústria química, a janela é boa para renegociar fretes de curto prazo, mas ainda não para travar contratos longos com base na queda recente.
Nos Estados Unidos, a apuração das eleições de meio de mandato começou na noite de terça e pode levar dias. O resultado define o espaço do governo americano para tarifas, gastos e política externa, e se soma ao relatório de emprego de sexta-feira como fonte de oscilação para o dólar no mundo.
Por fim, um lembrete de risco operacional que vale para qualquer setor. Em outubro, o Hospital Israelita Albert Einstein informou um ataque que acessou dados de pacientes, com notificação à Autoridade Nacional de Proteção de Dados e investigação da Polícia Federal, e o Sírio-Libanês relatou um incidente em um sistema de projetos sociais, sem evidência de vazamento público.
Se instituições com esse nível de investimento em tecnologia foram alvo no mesmo mês, a pergunta útil para a diretoria é quem responde e como a empresa se comunica com os clientes quando o incidente acontecer.

O que colocar na reunião de diretoria
- O orçamento de 2027 em elaboração já usa Selic de 12,50%, dólar de R$ 5,40 e inflação perto de 4,8%?
- Quais contratos com fornecedores e clientes vencem até março, e com qual índice de reajuste serão renovados?
- Em quais faixas de câmbio a empresa renegocia, repassa ou protege as compras importadas, e quem decide em cada uma?
- Já existe uma simulação de margem por linha de produto com a CBS de 11,2% e os créditos reais da operação?
- As linhas de crédito para o primeiro semestre estão negociadas, ou dependem de condições que podem mudar até janeiro?
Agenda da próxima semana
- Quarta-feira, 4/11: decisão do Copom à noite, com a AE projetando 13,50%. No mesmo dia saem o Caged de setembro, para o qual a AE estima 96,6 mil vagas, ante 165,8 mil em agosto, e indicadores de emprego e inflação nos Estados Unidos. A desaceleração do emprego formal ajuda a calibrar planos de contratação e a expectativa de consumo no fim do ano.
- Quinta-feira, 5/11: produção industrial de setembro, com projeção da AE de queda de 0,4%, e decisão do Banco da Inglaterra, que deve elevar os juros para 4%.
- Sexta-feira, 6/11: relatório de emprego dos EUA, decisivo para a reunião do Fed em dezembro, e balança comercial de outubro, que pode superar US$ 10 bilhões. Exportadores devem acompanhar esses dados antes de travar câmbio.
- Terça-feira, 10/11: ata do Copom, com o detalhamento do raciocínio do Banco Central sobre os próximos passos.
- Até o fim de novembro: COP31 em Antália, de 9 a 20/11; pagamento da primeira parcela do 13º salário até 30/11, na mesma semana da Black Friday; e indicação do ministro da Fazenda, segundo a imprensa. Até 15 de dezembro, o Senado fixa a alíquota da CBS.
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Próximos passos
- Atualizar o orçamento de 2027 com Selic de 12,50%, dólar de R$ 5,40 e IPCA de 4,76%.
- Definir faixas de câmbio com gatilhos de renegociação e proteção para as compras do primeiro trimestre.
- Simular preço e margem por linha de produto com a CBS de 11,2% ainda em novembro.
- Renegociar linhas de crédito antes da virada do ano, usando as taxas atuais como teto.
- Revisar o plano de resposta a incidentes cibernéticos e de comunicação com clientes.
Esta publicação tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento, jurídica ou financeira. As decisões tomadas com base neste material são de responsabilidade exclusiva do leitor. Análise Econômica.
