Arquivo
Bússola do CEO28 de agosto de 2026Edição #25

O Brasil tem o menor desemprego da história e a renda caindo

Desemprego a 5,3%, informalidade a 37,5% e renda média em queda. Tudo no mesmo relatório.

Bússola do CEO · Leitura de 11 min
O Brasil tem o menor desemprego da história e a renda caindo
"Mais gente trabalhando. De forma pior. Ganhando menos por cabeça."

A decisão mental desta edição é essa: emprego recorde não é a mesma coisa que consumidor mais forte.

Visão AE

O Brasil registrou ontem o menor desemprego da série histórica: 5,3%, com 103,3 milhões de pessoas ocupadas, recorde absoluto desde o início da medição, em 2012.

É uma manchete boa. E ela vai circular o dia inteiro.

O problema está três parágrafos abaixo, no mesmo relatório do IBGE.

A informalidade subiu de 37,2% para 37,5%, com 700 mil trabalhadores informais a mais em um único trimestre. E o rendimento médio real caiu 0,7% no período, para R$ 3.762.

Mais gente trabalhando. De forma pior. Ganhando menos por cabeça.

A decisão mental desta edição é essa: emprego recorde não é a mesma coisa que consumidor mais forte.

E isso resolve um paradoxo que vinha incomodando a leitura da semana. Por que a confiança do consumidor está na mínima desde novembro de 2022, mesmo com a inflação recuando e a conta de luz com desconto?

Porque a renda de cada pessoa caiu enquanto o número de pessoas ocupadas subia.

Em 60 segundos

  • Desemprego na mínima da série. 5,3% no trimestre até julho, com 103,3 milhões de ocupados, recorde absoluto.
  • Informalidade subiu. De 37,2% para 37,5%, com 700 mil informais a mais em um trimestre.
  • Renda média caiu 0,7%. Para R$ 3.762. A massa de renda subiu só 0,2%.
  • Contas externas pioraram. Déficit de US$ 8,11 bilhões em julho, contra US$ 6,6 a 6,7 bilhões esperados.
  • Investimento estrangeiro caiu no mês e bateu recorde no ano. US$ 7,46 bilhões em julho, mas US$ 4,5 bilhões de reinvestimento de lucros, o maior de 2026.
  • Custo de tecnologia importada subiu 27,6% em doze meses. Cloud, software e informação.
  • Ormuz continua fechado. Corrigimos: houve avanço de negociação, não reabertura.
  • Dólar em R$ 5,1620. Terceira alta seguida, numa semana de deflação recorde aqui.

O que muda na mesa do CEO

Demanda. Trabalhador informal com renda média em queda compra com mais frequência, ticket menor e menos acesso a crédito formal. O efeito não aparece primeiro na receita total. Aparece no mix.

Crédito. Se o seu modelo de risco calibra por taxa de desemprego, ele acabou de ficar desatualizado. O indicador agregado melhorou e a qualidade do vínculo piorou. São coisas diferentes.

Folha. Desemprego em mínima histórica com atividade desacelerando é mercado apertado sem estar aquecido. Contratar continua caro num país que está vendendo menos.

Câmbio. O dólar fechou ontem a R$ 5,1620, terceira alta seguida, numa semana em que a inflação brasileira despencou. O câmbio não está olhando para cá.

Logística. Precisamos corrigir o que publicamos anteontem. O Estreito de Ormuz não reabriu. Voltaremos a isso.

Seus concorrentes vão ler essa análise depois. Crie sua conta e receba a Bússola do CEO todas as manhãs, antes do mercado abrir.

Criar minha conta grátis

O relatório que se contradiz sozinho

Vamos aos números, porque eles merecem ser lidos juntos.

A taxa de desocupação ficou em 5,3% no trimestre encerrado em julho, contra 5,8% no trimestre anterior e 5,6% um ano antes. É a menor taxa da série para trimestres terminados em julho. A população desocupada caiu para 5,8 milhões, recuo de 8%. O nível de ocupação chegou a 58,9%.

Tudo isso é real. Nada aqui é maquiagem estatística.

Agora a outra metade.

O número de trabalhadores informais passou de 38,1 milhões para 38,8 milhões, alta de 1,7% em um trimestre, com aumento maior no setor privado. A taxa de informalidade subiu para 37,5%.

E o rendimento médio mensal real habitual ficou em R$ 3.762, com queda de 0,7% na comparação trimestral — ainda que 3,3% acima do mesmo período de 2025.

O detalhe mais revelador está na massa de renda. Ela subiu apenas 0,2% no trimestre, para R$ 383,472 bilhões.

Traduzindo: o bolo total cresceu quase nada, e cresceu porque tem mais gente dividindo, não porque cada fatia ficou maior.

Para o varejo e o e-commerce, isso muda o que vende antes de mudar quanto vende. Mais transações de ticket baixo, menos bem durável de ticket alto. Quem estiver montando a curva de compra do quarto trimestre assumindo que o emprego recorde sustenta a venda de eletrodoméstico vai errar a categoria, não só o volume.

Para o sistema financeiro, é um problema de calibragem. Modelo de risco que olha renda declarada e taxa de desemprego não captura a diferença entre um trabalhador com carteira e um informal. A base de tomadores ficou mais frágil justamente no mês em que o indicador agregado ficou mais bonito.

Para a saúde suplementar, há um efeito que quase ninguém liga: plano coletivo empresarial depende de vínculo formal. O emprego que cresceu no trimestre foi majoritariamente o informal. Projetar crescimento de carteira pela taxa de desemprego é olhar o indicador errado.

E hoje sai o Caged, que mede exatamente a outra ponta. Nossa projeção é de 137,9 mil vagas formais líquidas em julho, após 145,16 mil em junho. A Pnad mostrou quanta gente está ocupada. O Caged mostra quantas dessas têm carteira assinada.

Vendedor informal trabalhando em rua movimentada no Brasil

O Brasil tem o menor desemprego da história e a renda média caindo. As duas frases são do mesmo relatório.

Uma correção necessária: Ormuz não reabriu

Na edição de quarta-feira, tratamos o acordo temporário entre Omã e Irã como uma distensão relevante sobre o Estreito de Ormuz. O mercado leu da mesma forma: o petróleo caiu quase 4% e o apetite a risco melhorou.

O estreito continua fechado.

Houve avanço nas negociações entre os dois países para normalizar a circulação de embarcações. Mas não houve reabertura efetiva.

E há um detalhe nessas negociações que muda a natureza do problema: elas incluem a divisão das receitas provenientes da passagem.

Ou seja, Irã e Omã não estão negociando apenas se o estreito reabre. Estão negociando quem fica com o pedágio.

O sinal sugere que o custo de passagem por ali tende a ser permanentemente maior do que era antes do conflito, mesmo depois de uma eventual reabertura. O que era uma rota livre virou um ativo com receita disputada.

Se a sua empresa desmontou cobertura de energia ou de combustível com base no anúncio de terça-feira, vale revisar hoje. Para energia, química, agro e indústria, a orientação prática é manter o hedge até haver reabertura efetiva, não anúncio de negociação.

E o número que sustenta isso está nas contas externas divulgadas ontem: as despesas líquidas com transporte subiram 26,3% em doze meses. O frete internacional não normalizou.

Navio petroleiro navegando pelo Estreito de Ormuz

Foto: U.S. Navy photo by Mass Communication Specialist 3rd Class Jonathan Sunderman · Public domain · Wikimedia Commons

As contas externas vieram piores. E erramos.

O déficit em transações correntes somou US$ 8,110 bilhões em julho, contra US$ 2,330 bilhões em junho. O mercado esperava algo em torno de US$ 6,6 a 6,7 bilhões. Nossa projeção era de US$ 7,3 bilhões.

Erramos, ainda que por margem menor que o consenso. No acumulado de doze meses, o déficit chegou a US$ 62,9 bilhões, ou 2,49% do PIB, contra 2,47% em junho.

O investimento estrangeiro também decepcionou no mês: US$ 7,46 bilhões, abaixo dos US$ 7,92 bilhões projetados pelo mercado e dos US$ 8,82 bilhões que nós projetávamos. É o menor resultado mensal desde fevereiro.

Antes de soar o alarme, o contraponto.

No acumulado de janeiro a julho, o investimento direto soma US$ 54,4 bilhões, 24,4% acima do mesmo período de 2025. Em doze meses, chegou a US$ 88,4 bilhões, equivalente a 3,50% do PIB, cobrindo o déficit corrente acumulado com folga de US$ 25,5 bilhões.

E tem um número dentro do número que merece atenção. Da participação no capital de julho, US$ 4,5 bilhões foram reinvestimento de lucros — o maior valor do ano.

A leitura provável é direta: empresa estrangeira já instalada no Brasil está preferindo reaplicar aqui a remeter lucro para fora. Para o CEO que busca sócio ou comprador internacional, o apetite existe e está documentado no balanço de pagamentos.

Agora, o ponto que ninguém vai comentar e que provavelmente está na sua planilha.

Dentro da conta de serviços, as despesas líquidas com telecomunicação, computação e informações subiram 27,6% em doze meses, para US$ 1 bilhão. As de propriedade intelectual, 27,4%, também para US$ 1 bilhão.

Isso é o custo de cloud, software e licença importados. Está indexado ao câmbio e ao ciclo global de tecnologia ao mesmo tempo — duas variáveis que a maioria das empresas não monitora juntas.

Se você trata contrato de nuvem como despesa administrativa estável, essa linha diz o contrário.

E há mais uma: as despesas líquidas com juros subiram 10,4%, para US$ 4,6 bilhões no mês. É a Selic alta chegando ao balanço de pagamentos.

Hoje às 11h, o discurso que decide o câmbio

O Banco Central atuou no câmbio ontem de manhã em duas frentes simultâneas: vendeu US$ 1 bilhão em moeda à vista e realizou 20 mil contratos, no valor de US$ 1 bilhão, de swap cambial reverso — operação cujo efeito equivale à compra de dólares no mercado futuro.

É o que o mercado chama de "casadão". O efeito sobre a cotação é, em tese, nulo. O objetivo é dar liquidez.

O sinal sugere preocupação com o funcionamento do mercado, não com o nível da taxa. E a intervenção veio no mesmo dia do dado externo ruim e na véspera do evento da semana.

Hoje, às 11h de Brasília, Kevin Warsh faz o primeiro grande discurso de sua gestão à frente do Federal Reserve, no simpósio de Jackson Hole.

Ele chega sob pressão considerável.

A dívida pública americana ultrapassou US$ 40 trilhões. O custo de captação de longo prazo atingiu máxima de quase duas décadas na semana passada. O Tesouro fez intervenções no mercado de títulos e no câmbio. E o Fed superou a meta de inflação de 2% por seis anos consecutivos.

Ontem, no primeiro dia do simpósio, Beth Hammack, presidente do Fed de Cleveland, afirmou que "agora é a hora de agir" sobre os juros americanos. Os rendimentos dos Treasuries longos voltaram a subir na sessão.

O ponto de atenção é a assimetria. Warsh construiu sua gestão sobre a recusa em dar sinalização antecipada. O mercado quer exatamente sinalização antecipada. Frustração é um cenário tão provável quanto clareza.

Para quem tem dívida em dólar, insumo importado ou contrato de cloud dolarizado, isso significa uma coisa prática: a janela para executar cobertura é antes das 11h, não depois.

Sede do Federal Reserve em Washington

Foto: AgnosticPreachersKid · CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons

Membros leem o arquivo inteiro de edições e salvam as análises que importam para voltar quando quiserem.

Criar minha conta grátis

A Nvidia entregou e alongou o prazo do cliente

Fechando o arco que abrimos ontem: a Nvidia divulgou receita de US$ 96,22 bilhões no trimestre encerrado em julho, alta de 106% na comparação anual, superando o consenso de US$ 92,17 bilhões. A divisão de Data Center sozinha gerou US$ 89 bilhões, 117% acima de um ano antes.

Para o trimestre atual, a companhia projeta US$ 108 bilhões, sem incluir venda de computação para data centers na China. E projetou crescimento de receita de cerca de 70% no próximo ano fiscal, contra os 44% que o consenso esperava.

A ação chegou a cair no mercado estendido de quarta, mas saltou mais de 8% na quinta, com o Nasdaq avançando mais de 1%. Goldman Sachs elevou o preço-alvo para US$ 300 e o JPMorgan para US$ 320.

Mas o dado mais interessante para quem compra tecnologia não é a receita.

É que o prazo médio de recebimento chegou a 60 dias, refletindo prazos de pagamento mais longos concedidos a grandes clientes com grau de investimento. E o estoque subiu a US$ 32 bilhões, em preparação para o lançamento da próxima geração de chips.

A maior vendedora de chips do mundo está alongando o prazo que dá aos clientes e estocando para o próximo ciclo.

Quem vende assim está financiando a própria demanda.

Para o CEO de TIC ou de qualquer empresa com CAPEX de infraestrutura, a leitura prática é dupla: a fila continua, então prazo de entrega precisa ser tratado como risco de cronograma de projeto e não como item de compra; e negociar prazo de pagamento é possível, porque o fornecedor global está fazendo exatamente isso.

Jensen Huang, CEO da Nvidia, apresentando microchips de IA

O que colocar na reunião de diretoria

  1. Nosso modelo de risco de crédito distingue vínculo formal de informal? Se calibra só por taxa de desemprego, ele acabou de ficar desatualizado.
  2. A curva de compra do quarto trimestre foi montada por categoria ou por volume total? Mais transações de ticket baixo e menos bem durável é uma mudança de mix, não de tamanho.
  3. Executamos a cobertura cambial pendente antes das 11h de hoje? Depois do discurso, o preço é outro.
  4. Alguém desmontou hedge de energia com base no anúncio de terça sobre Ormuz? Se sim, revisar hoje.
  5. Quanto da nossa despesa de tecnologia está em dólar? A rubrica de serviços importados subiu 27,6% em um ano.
  6. Nossa projeção de carteira de plano coletivo usa taxa de desemprego ou criação de emprego formal? São indicadores diferentes e apontam para lados diferentes.

Agenda da próxima semana

  • Hoje, 28/08 — Discurso de Kevin Warsh, às 11h de Brasília. Primeiro grande pronunciamento de sua gestão, três semanas antes da reunião do Fed, com a inflação americana parada em 3,7% e uma diretora do próprio Fed já defendendo ação. É o evento de maior risco assimétrico da semana para o câmbio brasileiro.
  • Hoje, 28/08 — IGP-M de agosto. Nossa projeção é de deflação em torno de 0,55%, a terceira consecutiva. Isso define reajuste de aluguel comercial e de contratos B2B indexados. Três deflações seguidas é a melhor carta que um inquilino comercial teve em anos — e cartas assim vencem.
  • Hoje, 28/08 — Caged de julho. Projetamos 137,9 mil vagas formais líquidas. É o número que separa ocupação total de emprego com carteira, e conversa diretamente com a alta da informalidade.
  • Hoje, 28/08 — Bandeira tarifária de setembro. Primeira leitura depois do mês em que o bônus de Itaipu deu crédito na fatura. Setembro terá dois efeitos somados: o fim do desconto e a bandeira.
  • Segunda, 31/08 — Reunião do governo com o escritório de comércio americano. Primeira mesa formal sobre as sobretaxas que somam até 37,5%, com fundamentação que inclui desmatamento, propriedade intelectual, Pix e etanol. Chega no fim de uma semana em que o dólar já subiu três vezes.

A próxima edição chega amanhã cedo. Crie sua conta gratuita e continue um passo à frente.

Criar minha conta grátis

Próximos passos

  • Execute a cobertura cambial pendente antes das 11h, quando Warsh discursa
  • Revise qualquer hedge de energia desmontado com base no anúncio sobre Ormuz, que não reabriu
  • Recalibre o modelo de risco de crédito ao consumo por tipo de vínculo, não por renda declarada
  • Abra a renegociação de aluguel comercial hoje, com o IGP-M acumulando três deflações
  • Separe no orçamento a despesa de tecnologia em reais da despesa dolarizada e renegocie com banda cambial

Esta publicação tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento, jurídica ou financeira. As decisões tomadas com base neste material são de responsabilidade exclusiva do leitor. Análise Econômica.

Amanhã às 05:57

Receba a próxima edição direto no seu email.

Inscrever-se