Arquivo
Bússola do CEO16 de setembro de 2026Edição #37

O Brasil exportou mais petróleo do que soja

Varejo em -0,8%, Brent de volta aos US$ 109 e duas decisões de juros hoje.

Bússola do CEO · Leitura de 12 min
O Brasil exportou mais petróleo do que soja
"Metade do superávit comercial brasileiro deste ano vem de petróleo e derivados. É um seguro e uma sentença ao mesmo tempo."

Em agosto, o petróleo bruto respondeu por 14,6% das exportações brasileiras. A soja, por 13,3%. É a primeira vez no ano que o barril passa a saca em um mês. E, somando derivados, petróleo já responde por 49,4% de todo o superávit comercial de 2026.

Visão AE

Em agosto, o petróleo bruto respondeu por 14,6% das exportações brasileiras. A soja, por 13,3%.

É a primeira vez no ano que o barril passa a saca em um mês. E, somando derivados, petróleo já responde por 49,4% de todo o superávit comercial de 2026. Os dados são do Icomex, da FGV, divulgado ontem.

Guarde esse número, porque ele resolve uma contradição que talvez esteja incomodando você há semanas.

Quando o noticiário diz que o Brasil tem superávit comercial recorde, você olha o seu custo de frete e não reconhece o país descrito. As duas leituras estão certas. O mesmo preço de energia que está sustentando a conta externa brasileira é o que está pressionando frete, embalagem, resina e energia térmica na sua operação.

A decisão mental desta edição é essa: pare de perguntar como está o Brasil e comece a perguntar de que lado da equação a sua empresa está.

Porque tem gente ganhando muito com isso. Na segunda-feira, o Ibovespa caiu 0,91% pressionado pela Vale, com o minério recuando na China. Na terça, subiu 0,92% sustentado pela Petrobras, que avançava mais de 3%. Dois dias, dois sinais opostos, o mesmo conjunto de eventos por trás.

Em 60 segundos

  • Varejo: -0,8% em julho, com queda em 20 dos 27 estados e em 5 das 8 atividades
  • Bens duráveis: móveis e eletrodomésticos em -4,9%, a categoria mais dependente de crédito
  • Varejo ampliado: +0,4%, sustentado por veículos, que subiram 5,0% na comparação anual
  • Exportação: petróleo bruto em 14,6% da pauta de agosto, acima da soja, com 13,3%
  • Superávit: petróleo e derivados já respondem por 49,4% do saldo comercial do ano
  • Indústria: Brasil deficitário em transformação com China, Europa e Estados Unidos
  • Petróleo: Brent de volta aos US$ 109 após novos ataques no Oriente Médio
  • China: produção industrial em +5,2%, mas mineração em -1,4% e investimento imobiliário em -19,9%
  • Juros: Copom deve cortar para 13,75% e Fed deve subir para 4,00%, ambos hoje
  • Institucional: julgamento suspenso com prazo de vista de até 90 dias

O que muda na mesa do CEO

Quatro coisas mudaram em 24 horas.

Demanda. O varejo de julho caiu 0,8%, quando esperávamos 0,1%. Móveis e eletrodomésticos, a categoria mais dependente de parcelamento, recuou 4,9% em um único mês.

Custo. O Brent voltou ao patamar de US$ 109. Já não é um pico, é um nível. E nível se renegocia, não se absorve.

Volume exportado. A China acelerou a produção industrial para 5,2%, mas derrubou o investimento em construção imobiliária em 19,9% no ano. Quem vende minério precisa olhar a segunda metade desse relatório.

Custo de capital. O Copom e o Fed decidem hoje, em direções opostas. E a principal fonte de incerteza doméstica ganhou ontem uma janela de até 90 dias.

Seus concorrentes vão ler essa análise depois. Crie sua conta e receba a Bússola do CEO todas as manhãs, antes do mercado abrir.

Criar minha conta grátis

A conta que erramos, e o que ela diz

Começo pelo desconforto.

A projeção da Análise Econômica para o varejo de julho era de queda de 0,1%. O IBGE divulgou ontem: queda de 0,8%. Erramos por oito vezes.

Vale dizer onde. Assumimos que a desaceleração do consumo seria gradual e disseminada. Foi disseminada, e muito: a queda apareceu em 20 das 27 unidades da federação e em cinco das oito atividades pesquisadas. Mas não foi gradual.

O que puxou o resultado foi específico. Móveis e eletrodomésticos caíram 4,9%. Livros, jornais e papelaria, 4,2%. Tecidos, vestuário e calçados, 2,7%.

Olhe a primeira dessas três com atenção. Móveis e eletrodomésticos é a categoria mais sensível a crédito de toda a cesta do varejo brasileiro. Uma queda desse tamanho em um mês, com a Selic ainda em 14%, não é preferência de consumo. É capacidade de parcelamento.

E há um detalhe que separa a leitura boa da leitura preguiçosa. O varejo restrito caiu 0,8%, mas o varejo ampliado subiu 0,4%, sustentado por veículos, que avançaram 0,3% na margem e 5,0% na comparação anual.

Traduzindo: o consumidor parou de trocar a geladeira e continuou trocando o carro.

Isso diz algo sobre onde o crédito ainda funciona e onde parou de funcionar. Financiamento de veículo tem garantia real e prazo longo. Crediário de eletrodoméstico, não. Quando um sobrevive e o outro cai quase 5%, o recado é sobre estrutura de crédito, não sobre desejo de consumo.

Uma ressalva honesta, porque ela também é boa notícia para quem vende: o acumulado do ano segue positivo em 1,8%. O comércio está 10,6% acima do nível pré-pandemia. Isso não é colapso. É desaceleração com composição ruim.

E parte do resultado tem explicação de calendário. Veículos especializados atribuem o número de julho a uma normalização depois da Copa do Mundo, que havia impulsionado categorias específicas nos meses anteriores. É leitura de mercado, não conclusão metodológica do IBGE, mas faz sentido: a média móvel dos últimos três meses virou negativa em 0,1%, e o acumulado de 12 meses desacelerou de 2,3% em março para 1,6% em julho.

Se a sua meta do segundo semestre foi construída em cima dos meses de Copa, você está comparando o presente com um pico artificial. Grande evento antecipa consumo. Não cria consumo permanente.

Isso não é problema de desempenho da equipe comercial. É aritmética de base de comparação. Confundir os dois custa bônus, moral de time e, no limite, decisão errada de sortimento.

Corredor de loja de eletrodomésticos representando o setor de varejo

O petróleo que salva o país e come a sua margem

Agora a tese central.

Os números do Icomex são estes. O petróleo bruto somou US$ 32,3 bilhões de saldo no ano até agosto. Descontando o déficit de derivados, de US$ 4,9 bilhões, sobram US$ 27,3 bilhões líquidos, o equivalente a 49,4% de todo o superávit comercial do período.

Metade da conta externa brasileira, hoje, é petróleo.

No acumulado do ano a soja ainda lidera, com 15,7% contra 14,7%. Ninguém aqui está anunciando o fim do agro. Mas o mês de agosto virou a chave, e isso tem três consequências que poucos orçamentos mapearam.

Primeira: o câmbio mudou de âncora. Quando o real seguia as commodities agrícolas, o produtor de soja tinha um hedge natural. A moeda trabalhava a favor dele sem que precisasse contratar nada. Agora o real responde mais ao barril do que à saca. Quem vende grão perdeu parte de uma proteção que nem sabia que tinha.

Segunda: a dependência funciona nos dois sentidos. Se o conflito no Oriente Médio arrefecer e o preço cair, o Brasil perde metade da base do seu superávit ao mesmo tempo. O orçamento de 2027 precisa ser testado contra os dois cenários, não só contra o de petróleo caro.

Terceira, e a mais incômoda: o superávit é de commodity, não de manufatura. O mesmo Icomex mostra que, no acumulado até agosto, o Brasil é deficitário em indústria de transformação com China, União Europeia e Estados Unidos ao mesmo tempo.

Perder para os três maiores mercados simultaneamente não é barreira comercial nem tarifa pontual. É competitividade. A FGV registra que os Estados Unidos oferecem mais oportunidades de ampliar exportação manufatureira, e que a União Europeia poderia seguir caminho semelhante dependendo do acordo com o Mercosul. Existe espaço. Mas ele exige plano nomeado, não inércia cambial.

Enquanto isso, o custo continua subindo. O Brent voltou aos US$ 109 na terça, depois que os houthis lançaram nova série de ataques contra a Arábia Saudita e reforçaram posições na costa oeste do Iêmen, ao longo do Mar Vermelho.

Vale entender por que esse detalhe geográfico entra na sua planilha. Quem controla a costa oeste do Iêmen controla o acesso ao Mar Vermelho, que é a rota que encurta a viagem entre Ásia e Europa. Cada dia a mais de navegação é combustível, capital parado em mercadoria e prêmio de seguro. Isso chega aqui no preço do contêiner e no prazo de entrega de insumo importado, com defasagem de semanas.

Para o agro, há uma particularidade de calendário. O diesel rodoviário segue com subvenção de R$ 1,00 por litro, e gasolina e etanol seguem desonerados. Esses mecanismos vencem em 27 de setembro e 9 de outubro. Ou seja: o produtor está plantando com diesel protegido e vai colher e escoar depois que a proteção acabou. São dois orçamentos diferentes dentro do mesmo ciclo.

Metade do superávit comercial brasileiro deste ano vem de petróleo e derivados. É um seguro e uma sentença ao mesmo tempo.

Navio petroleiro navegando em alto-mar

Foto: Alexandre Prevot from Nancy, France · CC BY-SA 2.0 · Wikimedia Commons

Existem duas Chinas no mesmo relatório

A manchete de ontem foi que a produção industrial chinesa acelerou para 5,2% em agosto, acima dos 4,5% de julho e acima da expectativa de 4,8%.

Se você vende minério, essa manchete é uma armadilha.

Abra o relatório. A indústria de transformação chinesa cresceu 6,1%. Eletricidade, aquecimento, gás e água, 4,9%. E a produção do setor mineiro caiu 1,4%.

Agora o número que realmente importa. O investimento urbano em ativos fixos, que é o dinheiro que a China aplica em obra, fábrica e equipamento, recuou 7,2% nos oito primeiros meses do ano, piorando ante a queda de 6,7% registrada até julho. Dentro dele, o investimento em construção de imóveis despencou 19,9%. Infraestrutura caiu 4,0%. Indústria de transformação, 2,3%.

Existem duas Chinas no mesmo documento. Uma fabrica bens de maior valor agregado e exporta. A outra constrói prédios, consome minério de ferro e emprega gente.

O Brasil vende para a que está encolhendo.

E o consumo chinês também não ajuda: as vendas no varejo avançaram apenas 0,4% em agosto, o ritmo mais lento desde maio, abaixo da projeção de 0,8%. O desemprego urbano subiu de 5,2% para 5,3%. O próprio órgão de estatísticas afirmou que a economia operou de forma estável, reconhecendo que os fatores externos adversos estão se intensificando, com menção explícita ao conflito no Oriente Médio.

Some o frete marítimo mais caro por conta do petróleo, e a margem por tonelada cai mesmo com volume estável.

Para quem fornece a mineradoras, siderúrgicas ou opera logística portuária, a sugestão prática é direta: refaça a premissa de volume do quarto trimestre a partir da decomposição setorial chinesa, não do índice agregado. E condicione qualquer CAPEX de expansão a um gatilho observável de recuperação do investimento imobiliário chinês, com métrica e prazo escritos.

Obras de construção civil com guindastes na China

Membros leem o arquivo inteiro de edições e salvam as análises que importam para voltar quando quiserem.

Criar minha conta grátis

Hoje o juro se parte em dois

O Copom decide hoje. A expectativa majoritária do mercado e a projeção da AE é de corte de 0,25 ponto, de 14% para 13,75%.

O varejo em -0,8% reforça o argumento técnico. Atividade mais fraca dá suporte ao corte.

Mas na mesma quarta-feira o Fed deve subir 0,25 ponto, com sinalização de mais aperto pela frente. A AE projeta a taxa americana em 4,00%.

Nada disso é fato. As duas decisões saem depois que esta edição chegar na sua caixa de entrada. O que vale ler, quando saírem, é a linguagem do comunicado, não o número.

Para quem se financia, há uma separação que precisa ser feita hoje e não depois.

A Selic é a ponta curta: capital de giro, desconto de recebível, linha de curto prazo. Essa tende a aliviar. Já projeto de dez anos, empreendimento imobiliário e obra de infraestrutura se financiam na ponta longa, que carrega prêmio de prazo e não acompanha o corte.

E a ponta longa acabou de ganhar mais um componente.

O julgamento no Supremo Tribunal Federal foi interrompido ontem por pedido de vista do ministro Flávio Dino. O prazo regimental é de até 90 dias, contados da publicação da ata da sessão, após os quais o processo é liberado automaticamente para retomada. O outro processo em curso segue marcado para 23 de setembro.

A Bússola não comenta mérito. Não é o nosso terreno e não muda planilha.

O que muda planilha é o prazo. Curva longa não precifica desfecho de julgamento. Precifica quanto tempo as regras ficam indefinidas. E noventa dias a partir de agora atravessam o primeiro turno, o segundo turno e chegam a dezembro.

Nenhuma empresa vota nisso. Todas pagam o prêmio.

Há ainda um terceiro elemento no câmbio que merece atenção. O dólar operou estável na terça, mas os investidores estavam à espera de leilões cambiais programados pelo Banco Central, enquanto no exterior a moeda americana sustentava ganhos ante boa parte das divisas. Estabilidade administrada não é o mesmo que estabilidade de mercado. Quem está esperando um momento melhor para travar hedge deveria considerar isso.

E ainda hoje sai o IGP-10 de setembro, com prévio de -0,5% e projeção da AE de +0,25%. Se confirmar, a inflação ao produtor volta ao positivo justamente quando a do consumidor cedeu. Contratos B2B, aluguéis comerciais e insumos industriais são majoritariamente indexados a IGP. A sua inflação pode ser outra.

Ministro Flávio Dino no Supremo Tribunal Federal

O que colocar na reunião de diretoria

  1. De que lado da equação do petróleo nós estamos? Faça a conta separando quanto do seu custo sobe com o barril e quanto da sua receita depende de cliente que ganha com ele. Se as duas coisas existirem na mesma carteira, você tem dois orçamentos, não um.
  2. Quanto da nossa meta do segundo semestre foi construída sobre os meses de Copa? Separe efeito de base de perda real de participação antes de cobrar a equipe comercial.
  3. Nossa premissa de volume para a China veio do número agregado ou da decomposição? Se veio do agregado, ela está errada. O que importa é investimento em construção, e ele caiu quase 20%.
  4. Nosso plano de dívida separa ponta curta de ponta longa? Capital de giro deve ficar mais barato. Projeto de dez anos, não. Negocie os dois com premissas diferentes.
  5. Quais decisões nossas são reversíveis até dezembro? Com uma janela de até 90 dias de indefinição institucional e eleição em três semanas, decisão irreversível está pagando prêmio que decisão reversível não paga.

Agenda da próxima semana

Hoje, quarta. A superquarta. Selic e decisão do Fed. Também saem o IBC-Br de julho, com projeção AE de estabilidade, e o IGP-10 de setembro, com projeção AE de +0,25%. Lá fora, CPI do Reino Unido, produção industrial da Zona do Euro e vendas no varejo dos Estados Unidos, que permitem comparar a desaceleração brasileira com a resiliência ou não do consumidor americano.

Quinta. O Banco da Inglaterra deve manter a taxa em 3,75%, sem Relatório de Política Monetária. Saem também o CPI da Zona do Euro e o do Japão.

Sexta. O Banco do Japão deve subir de 1,00% para 1,25%. Parece distante. Juro japonês mais alto encarece o funding do carry trade, a operação que capta barato lá fora para aplicar em juro alto aqui, e drena fluxo dos emergentes.

Já marque no calendário: 22 de setembro, ata do Copom, que dirá se o ciclo continua. 23 de setembro, a segunda frente no Supremo. 24 de setembro, o Relatório Bimestral de Receitas e Despesas, que pode determinar congelamento de gasto não obrigatório. 27 de setembro, fim da subvenção do diesel. 4 de outubro, primeiro turno. 9 de outubro, fim da desoneração de gasolina e etanol.

A próxima edição chega amanhã cedo. Crie sua conta gratuita e continue um passo à frente.

Criar minha conta grátis

Próximos passos

  • Reprojete o sell-in do quarto trimestre usando a média móvel trimestral negativa, não o acumulado positivo do ano
  • Separe, na análise de performance, o efeito de base pós-Copa da perda real de participação
  • Refaça a premissa de volume para a China a partir da decomposição setorial, não do índice agregado
  • Rode o orçamento de 2027 em dois cenários simétricos de petróleo, com o câmbio ajustado em cada um
  • Classifique o pipeline de investimento entre reversível e irreversível até dezembro e adie o que puder esperar

Esta publicação tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento, jurídica ou financeira. As decisões tomadas com base neste material são de responsabilidade exclusiva do leitor. Análise Econômica.

Amanhã às 05:57

Receba a próxima edição direto no seu email.

Inscrever-se