"O atacado subiu 2,36% em um mês; o consumidor, 0,39%. A diferença tende a ficar com a margem de quem está no meio."
Dois indicadores divulgados na segunda-feira, com poucas horas de diferença, resumem bem o momento. Os preços no atacado subiram 2,36% em outubro, enquanto os preços ao consumidor avançaram 0,39%. Entre um número e outro há quase dois pontos percentuais de custo que alguém vai absorver.
Visão AE
Dois indicadores divulgados na segunda-feira, com poucas horas de diferença, resumem bem o momento. Os preços no atacado subiram 2,36% em outubro, enquanto os preços ao consumidor avançaram 0,39%. Entre um número e outro há quase dois pontos percentuais de custo que alguém vai absorver. Para quem está no meio da cadeia (indústria, distribuição e varejo), a probabilidade maior é que essa conta recaia sobre a própria margem.
Vale registrar que a Análise Econômica esperava desaceleração do IGP-10 neste mês, em torno de 0,70%. O índice subiu 1,76%, também acima do que o mercado projetava (1,44%). A alta de gasolina, soja e boi pesou mais do que a valorização recente do real. Por isso, a decisão mental desta edição é tratar a negociação com fornecedores como a principal alavanca de margem do quarto trimestre, mais do que o repasse automático de preços.
Em 60 segundos
- IGP-10 de 1,76%: reajustes de aluguéis e contratos ficam mais altos; fornecedores devem pedir aumento.
- Consumo: a semana do Dia das Crianças cresceu abaixo da inflação, e o repasse de preços ficou mais difícil.
- Petróleo: o Brent segue perto de US$ 110, e o subsídio ao diesel vence em 26 de outubro.
- 6x1: a jornada de 42 horas começa em meados de dezembro, e as escalas precisam ser fechadas em novembro.
- Focus: a Selic deve cair mais duas vezes, mas o PIB de 2027 foi revisado para 1,32%.
- Mundo: a China cresce exportando, e a França paga juros acima da Grécia.
O que muda na mesa do CEO
O primeiro efeito aparece nos contratos. O IGP-10, índice usado para reajustar aluguéis e muitos contratos de serviço e fornecimento, acumula 5,02% em 12 meses. Quem tem locações comerciais ou contratos indexados a esse índice já pode refazer a conta dos próximos reajustes.
O segundo efeito está na relação com fornecedores. O avanço do atacado foi puxado por gasolina, cadeia da soja e bovinos, insumos que chegam rapidamente ao frete, à ração, ao óleo, à carne e às embalagens. É provável que os pedidos de reajuste se intensifiquem nas próximas semanas, justamente quando as empresas fecham preços para novembro e dezembro.
O terceiro efeito está na demanda. Com o consumidor comprando em volume próximo de zero em termos reais, o repasse integral pode custar participação de mercado. Na prática, a margem tende a ser decidida mais na mesa de compras do que na etiqueta de preço.
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Custo subindo pela cadeia e consumidor cauteloso
O termômetro mais recente do consumo veio da Cielo. Na semana do Dia das Crianças, de 6 a 12 de outubro, o faturamento do varejo cresceu 4,2% sobre o mesmo período de 2025. O número parece razoável até ser comparado com a inflação de 12 meses, de 4,58%: descontado o efeito dos preços, o crescimento real fica perto de zero. O dado mais ilustrativo é que brinquedos, o produto-símbolo da data, venderam 3,6% menos do que no ano passado, e vestuário recuou 1,9%. O varejo físico (+4,5%) foi melhor que o e-commerce (+3,1%).

Não se trata de um consumidor ausente, mas de um consumidor cuidadoso, que escolhe onde gastar. Para o varejo, isso pede calibrar as compras de Natal pelo desempenho real de cada categoria nas datas recentes, e não pelo histórico de anos anteriores. Para a indústria de bens de consumo, o recado é parecido: o cliente varejista vai resistir a reajustes, porque também não consegue repassá-los.
No agronegócio, a mesma alta tem efeitos opostos ao longo da cadeia. Soja e boi mais caros favorecem quem produz e vende o grão ou o animal, mas encarecem a matéria-prima de frigoríficos, fabricantes de ração e indústria de alimentos, que vendem para um consumidor que não está aceitando aumentos com facilidade.
A falta de mão de obra também vem mudando modelos de negócio. A M. Dias Branco anunciou na sexta-feira a compra da Grespan, fabricante paulista de pão francês congelado, com receita bruta de R$ 138,7 milhões em 2025 e mais de 1.100 clientes, principalmente supermercados, atacarejos e padarias. Entre os motivos citados pela empresa está a escassez de mão de obra qualificada nas padarias: ao fornecer o pão já pronto para assar, com equipamento e suporte técnico, a solução reduz a dependência de profissionais especializados na loja. A aquisição não foi justificada pelo fim da escala 6x1, mas trata do mesmo problema que a nova jornada vai acentuar.
Sobre a 6x1, o cronograma ganhou mais clareza. A jornada máxima de 42 horas, com duas folgas semanais, deve começar em meados de dezembro, e as 40 horas chegam em dezembro de 2027. A emenda prevê que acordos e convenções coletivas definam a distribuição e a compensação das horas durante a transição, e que uma lei complementar poderá criar medidas específicas para micro e pequenas empresas. Como o primeiro marco cai no pico de vendas do ano, as escalas de dezembro precisam estar desenhadas e negociadas ainda em novembro.
O atacado subiu 2,36% em um mês; o consumidor, 0,39%. A diferença tende a ficar com a margem de quem está no meio.
Petróleo e diesel: o físico continua apertado
O Brent encerrou a segunda-feira em US$ 109,55, perto da máxima de cinco meses atingida na sexta. A pressão continua vindo do Estreito de Ormuz. Segundo a consultoria Kpler, citada pela Reuters, o fluxo de petróleo do Golfo caiu para uma média de cerca de 8,5 milhões de barris por dia na semana passada, e o Irã relatou mais um petroleiro atingido por mina no domingo, ainda sem confirmação independente.
Do lado americano, o governo suspendeu temporariamente parte das sanções a exportações russas, após um acordo para importar diesel da Rússia, com volumes que podem chegar a cerca de 7,6 milhões de barris por mês. A medida busca conter o preço do combustível nos Estados Unidos, mas tem um efeito colateral relevante para o Brasil: o diesel russo, que o país também compra, ganha um concorrente de peso. O impacto sobre o preço da importação brasileira ainda não está medido, mas o ponto de atenção está posto.
No mercado brasileiro, a ação da Petrobras caiu 2,82% na segunda, em correção depois de renovar recordes e chegar perto de R$ 820 bilhões em valor de mercado. O papel acumula alta de cerca de 100% no ano. A leitura provável é que o petróleo alto já esteja bem refletido no preço de quem produz, mas ainda não chegou por inteiro a quem consome, porque o diesel nas bombas segue amortecido por subsídio federal.
Esse amortecedor tem data. A subvenção de R$ 2,12 por litro ao diesel rodoviário vale até 26 de outubro e pode ser prorrogada por igual período. Para logística, agronegócio e varejo, vale simular desde já o custo do frete com e sem o benefício e verificar quais contratos de transporte têm gatilho de reajuste atrelado ao diesel.

Juros, crescimento e o ambiente externo
O Boletim Focus desta semana trouxe uma combinação que merece atenção. A projeção de inflação para 2026 ficou estável em 5,22%, interrompendo quatro semanas seguidas de alta, e o mercado manteve a expectativa de Selic em 13,25% no fim do ano, o que implica dois cortes de 0,25 ponto até dezembro. Ao mesmo tempo, as estimativas de crescimento foram reduzidas para 1,83% em 2026 e 1,32% em 2027. Para o orçamento do próximo ano, a revisão do PIB pesa mais do que a da Selic: o juro deve continuar caindo, mas o crescimento de receita inercial também ficou menor.
Há ainda uma diferença importante entre o juro de curto e o de longo prazo. Na segunda-feira, o dólar recuou para R$ 5,048, enquanto as taxas futuras de prazos mais longos subiram. Para quem financia projetos de vários anos, como infraestrutura, incorporação e expansão industrial, é a taxa longa que define o custo do capital. Na semana que antecede o segundo turno, o mais prudente é evitar fechar dívida longa apenas por oportunidade de mercado.
O ambiente externo reforça essa cautela. Na França, protestos contra o custo de vida levaram o juro de dez anos do governo a 4,849%, acima dos de Itália e Grécia e no maior nível desde 2002. É um sinal de que o capital global segue cobrando mais caro de governos com dúvidas fiscais, o que encarece o dinheiro para todos e reduz o fôlego de mercados de exportação na Europa.
A China, por sua vez, cresceu 4,5% no terceiro trimestre, em linha com as expectativas. O crescimento, porém, veio sobretudo das exportações, que avançaram mais de um terço, enquanto o investimento em ativos fixos caiu 7,2% no ano e o setor imobiliário segue em recessão. Para mineração e soja, a demanda chinesa continua sustentada; a Vale subiu acompanhando o minério depois do dado. Para a indústria de transformação, o lado menos favorável é a maior oferta de manufaturados chineses no mundo, com o Brasil como destino natural de parte desse excedente.
Por fim, as ações ligadas à inteligência artificial voltaram a subir em Wall Street depois de uma semana de vendas motivada pelo temor de juros mais altos. A CoreWeave, operadora de data centers com dívida de US$ 50 bilhões, havia caído mais de 25% na semana anterior. O episódio mostra que a infraestrutura de IA é amplamente financiada com dívida e que, com o juro global elevado, o custo da capacidade computacional tende a permanecer alto. Para quem planeja projetos de IA, contratos de nuvem com preço e prazo definidos ganham valor.

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O que colocar na reunião de diretoria
- Fornecedores: quais deles já sinalizaram reajuste, e qual parte desse aumento conseguimos de fato repassar ao cliente?
- Contratos: quais aluguéis e contratos indexados ao IGP vencem nos próximos seis meses, e qual o impacto no caixa?
- Estoque: as compras de Natal estão calibradas pelo desempenho real de cada categoria nas datas recentes?
- Frete: qual o efeito no custo logístico se a subvenção ao diesel não for renovada após 26 de outubro?
- Escalas: as escalas de dezembro já consideram a jornada de 42 horas e a negociação coletiva necessária?

Agenda da próxima semana
- Terça (20): inflação ao produtor e confiança empresarial na Alemanha, termômetros do custo de produção na Europa.
- Quarta (21): inflação do Reino Unido e decisão de juros na Indonésia, além de balanços de Tesla e Meta, relevantes para o setor de tecnologia.
- Quinta (22): reunião do Conselho Monetário Nacional e leilão de gás natural da União, uma oportunidade para a indústria intensiva em gás.
- Sexta (23): IPCA-15 de outubro. A projeção da AE, de 16/10, é de 0,41%, ante 0,70% em setembro. Depois da surpresa do IGP-10, vale observar com atenção o componente de serviços.
- Domingo (25): segundo turno da eleição presidencial.
- Segunda (26): fim do ciclo atual da subvenção ao diesel.
- Depois: decisão do Fed em 28 de outubro e do Copom em 4 de novembro.
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Próximos passos
- Abrir negociação com os principais fornecedores antes de aceitar reajustes do atacado.
- Recalcular aluguéis e contratos indexados ao IGP que vencem até abril.
- Revisar compras de Natal com base no desempenho real das categorias.
- Simular o custo del frete sem a subvenção ao diesel a partir de 27/10.
- Fechar em novembro as escalas e a negociação coletiva para dezembro.
Esta publicação tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento, jurídica ou financeira. As decisões tomadas com base neste material são de responsabilidade exclusiva do leitor. Análise Econômica.
