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Bússola do CEO21 de agosto de 2026Edição #20Atualizada em 21 de agosto de 2026

O alívio durou exatamente um pregão

As usinas de aço venderam mais e o Brasil consumiu menos. Etanol e ração agora disputam o mesmo milho.

Bússola do CEO · Leitura de 11 min
O alívio durou exatamente um pregão
"Vinte e quatro horas. Esse foi o prazo de validade do socorro externo."

Na quarta-feira, o Tesouro americano anunciou que dobraria a recompra da própria dívida longa. As taxas cederam no mundo inteiro. O Ibovespa interrompeu onze pregões de queda.

Visão AE

Na quarta-feira, o Tesouro americano anunciou que dobraria a recompra da própria dívida longa. As taxas cederam no mundo inteiro. O Ibovespa interrompeu onze pregões de queda.

Na quinta-feira, os rendimentos dos títulos americanos voltaram a subir e Wall Street caiu com força: Dow Jones a menos 1,32%, S&P 500 a menos 0,87%, Nasdaq a menos 1%.

Vinte e quatro horas. Esse foi o prazo de validade do socorro externo.

O Ibovespa fechou em leve alta de 0,06%, aos 167.927 pontos. Mas antes de ler isso como descolamento positivo do Brasil, olhe o que segurou o índice: as ações da Petrobras, empurradas pela alta do petróleo diante da continuidade das tensões no Oriente Médio. O dólar subiu 0,31%, a R$ 5,1937, e os juros futuros também fecharam em alta.

Ou seja: a bolsa brasileira ficou de pé pelo mesmo motivo que encarece o frete, a embalagem e a energia da maioria das empresas deste país.

A decisão mental desta edição tem duas partes. A primeira é de timing: se a janela de custo de capital abre e fecha em um dia, quem tem operação represada precisa agir dentro dela, não esperar melhora adicional. A segunda é mais estrutural, e vem de dois setores que publicaram dados esta semana. Sobre eles, os próximos blocos.

Em 60 segundos

  • Mercado: Ibovespa a 167.927 pontos, alta de 0,06%, sustentado por Petrobras enquanto Nova York caía.
  • Câmbio e juros: dólar a R$ 5,1937, alta de 0,31%; juros futuros em alta com Treasuries recuperando terreno.
  • Aço, o mês: produção de 2,8 milhões de toneladas, importações caindo 19,9%, vendas internas subindo 4,1%.
  • Aço, o ano: consumo aparente caindo 5%, para 15,2 milhões de toneladas.
  • Comparação estrutural: Brasil parado em 33 milhões de toneladas desde 2004; Índia foi de 33 para 165 milhões.
  • Milho: déficit projetado de 7,2 milhões de toneladas em 2026/27, ante 2,7 milhões.
  • Petróleo: sustentado, com advertência americana ampliando o perímetro do risco geopolítico.
  • Regulação: 14 sites de apostas suspensos, com mudança de padrão de advertência para suspensão imediata.
  • Copa Feminina 2027: sedes definidas, Maracanã na abertura, com isenções fiscais já aprovadas.
  • Semana que vem: Jackson Hole de 27 a 29, com a primeira fala de Kevin Warsh como presidente do Fed.

O que muda na mesa do CEO

Quatro linhas mudaram de status em 24 horas.

Captação. A janela não reabriu. Ela piscou. Quem tem emissão de dívida, follow-on ou abertura de capital estruturada e ficou esperando condição melhor perdeu um pregão inteiro de condição melhor. Num ambiente em que o alívio dura um dia, esperar é apostar contra a evidência recente.

Custo de insumo metálico. A importação direta de aço caiu 31% em julho e 24% no acumulado do ano. Menos oferta importada significa menos alavanca de negociação para quem compra aço. E isso vale para construção, automotivo, bens de capital, linha branca, embalagem metálica e implementos agrícolas.

Custo de ração. A projeção de déficit de milho vai mexer diretamente no principal item de custo de quem produz frango, suíno, ovo e leite.

Frete e seguro. A advertência americana a países que apoiem o Irã amplia o perímetro do risco geopolítico. Mais jurisdições envolvidas significa revisão de cláusula de força maior e prêmio de seguro de carga mais caro.

Nenhuma dessas quatro aparece no seu fechamento de agosto. Todas aparecem no orçamento que você está montando.

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As usinas venderam mais. O Brasil consumiu menos.

Este é o dado da semana, e quase ninguém fez a leitura correta dele.

Segundo o Instituto Aço Brasil, em julho a produção brasileira de aço bruto foi de 2,8 milhões de toneladas, queda de 1,3% frente ao mês anterior. As importações somaram 383 mil toneladas, redução de 19,9% no mês. E as vendas internas cresceram 4,1%, atingindo 1,9 milhão de toneladas.

Parece recuperação.

Agora o acumulado do ano. As importações caíram 20,3%. A produção recuou 1,2%. As vendas internas ficaram estáveis. E o consumo aparente de produtos de aço, ou seja, quanto de aço o país efetivamente usou, caiu 5%, para 15,2 milhões de toneladas.

O INDA, entidade dos distribuidores, confirma pelo outro lado do balcão. As vendas das usinas subiram 7% em julho na comparação anual, com alta de 2,5% no acumulado. Mas o consumo aparente medido pela entidade caiu 3,7%, e a importação direta recuou 31% no mês.

"A diminuição da importação fez a usina crescer, mas o consumo não cresceu."

Traduzindo para o conselho: as usinas ganharam uma fatia maior de um bolo menor. É um resultado real, mas de origem frágil, porque depende de uma condição de comércio exterior que pode mudar com câmbio ou com decisão comercial chinesa.

E aqui a coisa se divide dentro da própria indústria brasileira. Para quem produz aço, menos importado é oxigênio. Para quem compra aço, é uma alavanca de negociação a menos, justamente num momento em que o petróleo pressiona nafta, resina e frete. Custo subindo sem volume acompanhando é a pior combinação possível para margem industrial.

Loureiro projeta crescimento de consumo entre 1% e 2% no ano. E trouxe a comparação mais eloquente que se leu esta semana: em 2004, o Brasil produzia cerca de 33 milhões de toneladas de aço, enquanto a China fabricava 273 milhões. A Índia, país em desenvolvimento como o nosso, partiu de patamar semelhante ao brasileiro e chegou a 165 milhões de toneladas.

O Brasil segue nos 33 milhões.

Isso não é um dado de mercado. É um diagnóstico de densidade industrial. E explica, com um número só, por que substituir importado por nacional é tão difícil na prática em quase toda a cadeia metalmecânica.

Em 2004, Brasil e Índia produziam praticamente o mesmo volume de aço. A Índia hoje produz cinco vezes mais. Nós produzimos o mesmo.

Bobinas de aço e maquinário pesado em fábrica siderúrgica.

Etanol e ração vão disputar o mesmo milho

A consultoria Datagro estimou ontem que o déficit no mercado de milho do Brasil deve saltar para 7,2 milhões de toneladas no ciclo 2026/27, ante 2,7 milhões na temporada anterior.

Vale a ressalva de método: a própria consultoria classifica como visão preliminar, já que o grosso da colheita brasileira do cereal só é obtido em 2027. É projeção, não dado consolidado.

Mas a mecânica por trás dela é clara. A produção projetada é de 147,5 milhões de toneladas, alta de 1,5%. A demanda total cresce 4,5%, para 154,7 milhões. O problema não é o volume produzido. É a distância entre produção e demanda, que está se abrindo.

E o motor da demanda extra tem nome: usina de etanol. Em projeção anterior da mesma consultoria, a indústria de etanol de milho pode processar mais de 32 milhões de toneladas em 2026/27, com alta de 14%, enquanto a nutrição animal consumiria 64 milhões, com alta de 4%. Juntas, as duas atividades absorveriam cerca de 65% de toda a produção projetada.

Cada tonelada que vai para a usina é uma que não vai para a ração.

Para quem produz frango, suíno, ovo ou leite, milho é o principal item de custo. E esse aperto chega num momento particularmente ruim: como registramos na edição de ontem, o IBGE mostrou que o abate de bovinos, suínos e frangos cresceu no segundo trimestre, num trimestre em que a prévia do PIB caiu 0,6% em junho. Mais oferta de proteína disputando um mercado que não cresce, com custo de matéria-prima subindo. Margem comprimida dos dois lados.

Há uma ironia econômica aqui que merece registro. O etanol de milho recebeu subvenção de R$ 1,2 bilhão no pacote fiscal aprovado semana passada, tem demanda em expansão e conta com o petróleo caro jogando a seu favor. Mas, ao crescer, encarece o próprio milho que compra. Nem todo vento favorável sopra em uma direção só.

Para o varejo alimentar e o food service, o efeito é de sinal invertido: mais oferta de proteína no curto prazo tende a aliviar o custo de mercadoria, mesmo com a pressão de custo chegando na origem.

Campo de milho e silos de armazenamento de grãos no agronegócio.

O petróleo mudou de perímetro

O presidente dos Estados Unidos advertiu sobre consequências para países que apoiem o Irã, em meio à continuidade das tensões no Oriente Médio. O barril fechou em alta, e foi essa alta que sustentou a Petrobras e, com ela, o Ibovespa.

É a quinta edição consecutiva em que o petróleo aparece sustentado por um impasse sem prazo de resolução. O que mudou não é o preço. É o perímetro.

Enquanto a disputa era bilateral, o risco logístico se concentrava em uma rota e dois atores. Advertência a terceiros países significa mais jurisdições potencialmente envolvidas. Para quem importa ou exporta, isso não é leitura de jornal: é revisão de cláusula de força maior e de prêmio de seguro de carga.

O mecanismo de transmissão para o Brasil já é conhecido de quem acompanha esta newsletter. Diesel e frete rodoviário. Frete marítimo e seguro. Resina, embalagem plástica, insumo petroquímico. Energia térmica. E, com defasagem de semanas, os índices de preço de atacado que reajustam contrato de locação e de prestação de serviço.

Para o agronegócio, entra duas vezes: no frete de escoamento e no custo de fertilizante.

Vale a lembrança de sempre. O ponto de atenção não é prever o preço do barril, coisa que ninguém faz de forma confiável. É reconhecer que um preço que se sustenta por semanas deixa de ser evento e vira premissa de orçamento.

Navio petroleiro transportando carga em rota marítima internacional.

Foto: vasu at en.wikipedia 59.162.175.35 08:37, 13 April 2012 (UTC)vasudevarao.k · CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons

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Quando o regulador muda de régua

Uma nota de compliance que vale para muito além do setor onde aconteceu.

A Secretaria de Prêmios e Apostas, do Ministério da Fazenda, determinou em 14 de agosto a suspensão de 14 sites de apostas operados por seis empresas: Pixbet, Zeroumbet, Enseada, Select, Nexus e RR Participações. As medidas cautelares tiveram cumprimento imediato. As plataformas seguem no ar apenas para permitir saque de valores já depositados.

Entre os motivos, o descumprimento da norma que exige ferramenta analítica para acompanhar e avaliar apostadores, em especial os de comportamento de risco, e o não envio de informações para fiscalização.

Agora o dado que faz esse caso importar para quem não tem nada a ver com apostas.

Do início do mercado regulado, em janeiro de 2025, até junho de 2026, a SPA concluiu 39 processos administrativos. Trinta e dois terminaram em advertência. Sete em multa. Este terminou em suspensão cautelar imediata.

Isso é mudança de régua. E regulador que endurece raramente endurece para um setor só.

Há ainda um segundo ponto, mais fino. A obrigação que motivou parte das punições, ter instrumento analítico para identificar cliente em situação de risco, é conceitualmente a mesma discussão que já existe em crédito responsável. Quem opera crédito ao consumidor deveria olhar esse precedente com atenção.

E há um terceiro, comercial: casas de apostas são grandes anunciantes e patrocinadoras esportivas. Suspensão mexe em receita de mídia, patrocínio e marketing digital.

O que colocar na reunião de diretoria

  • Temos operação de captação estruturada e ainda não executada? Se sim, a discussão sobre executar dentro da próxima janela precisa acontecer nesta reunião, não na seguinte.
  • Qual é a nossa dependência de aço importado e de fornecedor único de insumo metálico? Com a importação direta caindo 31%, o poder de barganha mudou de lado.
  • Se produzimos proteína, qual é a nossa cobertura de milho para 2027 e temos política formal de hedge de grão? Compra oportunista deixou de ser suficiente.
  • Nossos contratos internacionais têm cláusula de força maior compatível com um perímetro de risco maior? A ameaça deixou de ser bilateral.
  • Se estamos em setor regulado, nossos instrumentos de identificação de cliente em situação de risco resistem a uma fiscalização mais dura? O padrão do regulador mudou.

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Agenda da próxima semana

Hoje, sexta-feira. Saem os PMIs industriais prévios de Alemanha, Zona do Euro e Estados Unidos, além do PMI de serviços americano. É o primeiro retrato de agosto das grandes economias desenvolvidas, já contaminado pela alta dos juros longos e pelo petróleo elevado. Segundo briefing de mercado, os dados americanos podem deslocar expectativas sobre nova alta de juros neste ano, potencialmente inclinando de novo a curva e revivendo a força do dólar. Interessa a exportadores, siderurgia e logística internacional.

De 27 a 29 de agosto, Jackson Hole. O novo presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, faz seu primeiro discurso no simpósio. O contexto torna esse evento a data mais relevante do calendário externo: como registramos nas edições anteriores, a ata da última reunião revelou uma votação de 9 a 3, com três dirigentes defendendo alta de juros. Jackson Hole é o primeiro momento em que a nova presidência poderá dar direção pública a essa divisão. Decisão cambial irreversível antes disso é aposta, não planejamento.

Segunda-feira, Boletim Focus. O ponto de atenção segue sendo 2027. Nas últimas semanas o movimento tem sido de piora consistente nas projeções para o ano que vem, enquanto 2026 permanece praticamente congelado.

Até 31 de agosto, o Orçamento de 2027 no Congresso. Com dívida pública próxima de 80% do PIB e juro global em patamar elevado, o custo de financiar qualquer necessidade fiscal ficou maior do que quando as premissas foram desenhadas.

Em 1º de setembro, o PIB do segundo trimestre pelo IBGE. É o teste definitivo da leitura de queda de 0,6% na prévia mensal de junho.

E uma nota de calendário comercial para quem planeja 2027: as sedes da Copa do Mundo Feminina foram definidas, com o Maracanã confirmado na abertura, e o pacote fiscal aprovado na semana passada já trouxe isenções tributárias para a cadeia do evento. Para hotelaria, transporte, alimentação, varejo, mídia e infraestrutura urbana, deixou de ser expectativa e virou planejamento com data e endereço.

Visão aérea do Estádio do Maracanã no Rio de Janeiro.

Foto: Desconhecido · Public domain · Wikimedia Commons

  • Execute operações de captação já estruturadas dentro da próxima janela, sem aguardar melhora adicional
  • Renegocie contratos de fornecimento de aço enquanto ainda há memória de preço do importado na mesa
  • Antecipe contratos de milho e formalize política de hedge de grão com aprovação de conselho
  • Revise cláusulas de força maior e prêmio de seguro em contratos internacionais de frete
  • Inicie o planejamento comercial de 2027 para as cidades-sede da Copa Feminina, verificando elegibilidade às isenções

Esta publicação tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento, jurídica ou financeira. As decisões tomadas com base neste material são de responsabilidade exclusiva do leitor. Análise Econômica.

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