"O maior perigo em tempos de turbulência não é a turbulência, mas agir com a lógica de ontem."
A semana começa com a eleição decidida e com uma pergunta que o pregão desta segunda-feira não vai responder sozinho. A reeleição do presidente Lula, com cerca de 51,8% dos votos válidos, contrariou a aposta que vinha sustentando o real e a bolsa ao longo de outubro.
Visão AE
"O maior perigo em tempos de turbulência não é a turbulência, mas agir com a lógica de ontem." — Peter Drucker
A semana começa com a eleição decidida e com uma pergunta que o pregão desta segunda-feira não vai responder sozinho. A reeleição do presidente Lula, com cerca de 51,8% dos votos válidos, contrariou a aposta que vinha sustentando o real e a bolsa ao longo de outubro, e os mercados no exterior reagiram ainda no domingo à noite.
Os contratos futuros de real negociados em Chicago chegaram a indicar um dólar perto de R$ 5,50, contra R$ 4,99 no fechamento de sexta. O principal fundo de ações brasileiras negociado em Nova York recuava cerca de 18% fora do horário regular. São negociações com pouca liquidez, que funcionam mais como termômetro do que como cotação.
A leitura da AE é que a reação inicial importa menos do que aquilo que vem depois dela. O que vai definir o patamar de câmbio e de juros de 2027 são os sinais sobre a equipe econômica e sobre o plano para as contas públicas.
Enquanto isso, o CEO lida com uma combinação que já estava na mesa antes da urna: petróleo perto de US$ 117, inflação no atacado acelerando e um Banco Central com pouco espaço para seguir cortando juros. A decisão mental desta edição é fácil de enunciar e difícil de praticar: revisar premissas sem decidir no susto.
Em 60 segundos
- Câmbio: a reação no exterior indica real mais fraco; a B3 dará a medida oficial.
- Juros: Copom em 4/11 com menos espaço para cortar; Fed deve manter na quarta.
- Custos: petróleo perto de US$ 117 e diesel defasado mantêm o frete em risco.
- Contratos: IGP-M projetado em 1,75% pesa sobre aluguéis e serviços indexados.
- Pessoas: jornada de 42 horas a partir de meados de dezembro.
- Consumo: mais pedidos e tíquete menor; volume não garante margem.
O que muda na mesa do CEO
O efeito mais imediato está no câmbio. Se uma parte relevante do movimento visto no exterior se confirmar na B3, ficam mais caros de uma vez os insumos importados, os componentes eletrônicos, o frete internacional e as dívidas em dólar sem proteção.
Quem fechou o orçamento de 2027 com o dólar abaixo de R$ 5 precisa, no mínimo, rodar um cenário alternativo antes de levar o número ao conselho. Os exportadores tendem a ver o outro lado da moeda, com receita maior em reais. Esse ganho, porém, só chega ao resultado se o custo dos insumos não subir na mesma proporção.
O segundo efeito está no preço do dinheiro. Antes do segundo turno, gestores ouvidos pela imprensa esperavam, nesse cenário, alta relevante nos juros de longo prazo.
Isso pesa no custo de financiar expansão, no valor presente dos projetos e no apetite por novas emissões. Na operação do dia a dia, a consequência é capital de giro sem alívio adicional e crédito ao consumidor caro por mais tempo.
A recomendação prática é separar o que precisa ser feito agora do que pode esperar alguns dias. Três tarefas cabem nesta semana: mapear a exposição cambial líquida, conferir os vencimentos em dólar e precificar a reposição de estoque pelo câmbio novo. Já mudar a tabela de preços, cancelar investimentos ou contratar proteções longas com base no primeiro pregão tende a sair caro.
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O preço do dinheiro em revisão: Selic, Fed e âncora fiscal
A Selic está em 13,75% desde setembro, depois de cinco cortes de 0,25 ponto desde março, e o Copom volta a se reunir em 4 de novembro. Até a semana passada, o mercado projetava a taxa em 13,25% no fim do ano.
Com o real mais fraco e o atacado pressionado, a leitura provável é que esse espaço diminua, mas a decisão ainda depende dos dados e da comunicação do Banco Central nas próximas semanas.

Nos Estados Unidos, o Federal Reserve decide na quarta-feira. A expectativa amplamente majoritária é de manutenção dos juros entre 3,75% e 4,00%, com dirigentes ainda considerando uma alta adicional para conter uma inflação perto de 3,7%. Dinheiro caro por lá mantém o dólar firme no mundo e reduz a margem para o Brasil cortar juros sem pressionar o câmbio.
O ponto que vai ancorar tudo isso é fiscal. A dívida pública está perto de 83% do PIB, e o Congresso que toma posse em fevereiro terá composição diferente da atual.
Para o setor financeiro e a construção civil, que dependem diretamente dos juros longos, os próximos 30 dias valem mais do que o pregão de hoje. Para o varejo de bens duráveis, a pergunta é por quanto tempo o crediário seguirá caro.
A conta dos custos: petróleo, diesel e IGP-M
O Brent fechou a sexta-feira em torno de US$ 117, maior patamar desde abril. A alta veio depois de novos ataques reivindicados pelos houthis contra instalações de petróleo na Arábia Saudita, incluindo o oleoduto que serve de rota alternativa ao Estreito de Ormuz.
No Brasil, o diesel vendido pela Petrobras segue com defasagem relevante em relação ao mercado internacional e está há meses sem reajuste. Uma análise do Goldman Sachs considera possível uma alta expressiva depois da eleição, caso o subsídio a importadores seja encerrado. Ainda assim, o cenário-base do banco é de preços estáveis até o fim do ano.

Para quem depende de frete, a represa está cheia, e ainda não se sabe se será aberta de uma vez ou aos poucos. Agro, distribuição, varejo alimentar e indústria serão os primeiros a sentir. Travar contratos de frete e simular o efeito de um diesel mais caro sobre a margem de contribuição é um exercício para esta semana.
A inflação conta duas histórias ao mesmo tempo:
- No consumidor: o IPCA-15 de outubro subiu 0,32%, menos da metade da taxa do mês anterior, mas o acumulado em 12 meses avançou para 4,62%.
- No atacado: o IPA-10 subiu 2,36%, puxado por gasolina, soja e boi gordo. A AE projeta o IGP-M de outubro em 1,75%, a maior alta para o mês em seis anos.
O IGP-M ainda reajusta boa parte dos aluguéis comerciais e dos contratos de serviço. Vale revisar as renovações dos próximos meses e, onde houver espaço, negociar a troca de índice ou um teto.
O câmbio do orçamento 2027 foi definido na sexta. Talvez precise ser refeito na segunda.
Pessoas e operação: a jornada de dezembro
Enquanto a eleição ocupava o noticiário, o Congresso promulgou a emenda que encerra a escala 6x1. A partir de meados de dezembro, valem a jornada de 42 horas e dois dias de repouso semanal, sem redução salarial.
Em dezembro de 2027, o limite cai para 40 horas. Varejo, supermercados, restaurantes, saúde, segurança e indústria em turnos contínuos têm pouco mais de 50 dias para redesenhar escalas, justamente no período mais intenso do ano para o comércio.

A mudança chega num mercado de trabalho apertado. A AE projeta desemprego estável em 5,3% e geração de 96,6 mil vagas formais em setembro, bem abaixo das 165,8 mil de agosto. Contratar segue difícil e a hora trabalhada vai ficar mais cara, o que faz da produtividade um item de orçamento.
Na mesma semana, foi sancionada a lei que perdoa dívidas do MEI com a União e eleva o teto de faturamento da categoria de R$ 81 mil para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028. Para empresas que contratam pequenos prestadores, a medida reduz o incentivo para que fornecedores segurem o próprio faturamento e pode facilitar a formalização da cadeia.
Consumo: volume em alta, tíquete em baixa
Dois números ajudam a entender o consumidor:
- Aviação: os voos domésticos transportaram 76,8 milhões de passageiros entre janeiro e setembro, recorde histórico. Em setembro, porém, a oferta de assentos cresceu 6,2% contra 1,3% da demanda, e os aviões ficaram relativamente menos cheios.
- Black Friday: a data deve movimentar R$ 13,3 bilhões no comércio eletrônico, alta de 20,7%, num ano em que o tíquete médio online caiu 13,4%.
O retrato é de um consumidor que continua comprando, com renda sustentada pelo emprego, mas que escolhe mais e distribui melhor o gasto. Para o varejo, o risco está na reposição.
O estoque da Black Friday pode ter sido comprado com dólar mais barato, e a reposição de dezembro e janeiro provavelmente não será. Precificar pelo custo de reposição, e não pelo custo médio, protege a margem do quarto trimestre.
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Mundo: clima, China e a disputa por energia
O Painel El Niño do governo federal atribui 95% de chance a um episódio muito forte até dezembro, possivelmente o mais intenso desde 1950. O padrão esperado é excesso de chuva no Sul e seca no Centro-Norte. Para agro, alimentos e energia, isso significa risco de safra, de preço e de geração, que aparece no balanço do semestre, não no do mês.
A China trouxe uma boa notícia para exportadores de minério e soja, com crescimento de 4,5% no terceiro trimestre, acima do esperado. A Europa perde ritmo, e o Banco Central Europeu deve manter os juros na quinta-feira.

Foto: Angelo Leithold · CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons
Na tecnologia, o Bank of America estima que o investimento global em data centers chegue a US$ 1 trilhão neste ano e a US$ 2,1 trilhões em 2028. O Paraguai anunciou um data center de inteligência artificial abastecido pela energia de Itaipu, em parceria com investidores americanos.
É um sinal de que energia limpa e barata virou o insumo mais disputado da corrida da IA, e de que o Brasil tem concorrência na vizinhança.
O que colocar na reunião de diretoria
- Qual é a nossa exposição cambial líquida hoje, e o que acontece com a margem se o dólar se estabilizar num patamar mais alto?
- O orçamento de 2027 tem cenário alternativo para câmbio e juros?
- Quais contratos de aluguel e serviço reajustados por IGP-M vencem nos próximos seis meses?
- As escalas de cada unidade já estão desenhadas para a regra de 42 horas e duas folgas?
- A reposição de estoque está sendo precificada pelo câmbio novo?
Agenda da próxima semana
- Segunda (26): primeiro pregão após a eleição e Boletim Focus. É dia de medir a surpresa, não de reagir a ela.
- Terça (27): investimento estrangeiro direto e contas externas de setembro. A AE projeta US$ 10,1 bilhões em investimento direto, suficientes para cobrir um déficit de US$ 5,34 bilhões.
- Quarta (28): decisão do Fed e Orçamento de outono do Reino Unido, um teste para os juros longos das economias centrais.
- Quinta (29): o dia mais carregado.
- IGP-M e Caged.
- Resultado do Governo Central, para o qual a AE projeta superávit de R$ 6 bilhões.
- PIB dos Estados Unidos e decisão do BCE.
- Sexta (30): taxa de desemprego, PIB da Zona do Euro e PMI da China.
- 4 de novembro: primeira decisão do Copom após a eleição.
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Próximos passos
- Mapear até quarta a exposição cambial líquida e os vencimentos em dólar sem hedge.
- Rodar um cenário alternativo de câmbio e juros no orçamento de 2027 antes de levá-lo ao conselho.
- Travar contratos de frete e simular o impacto de um reajuste do diesel na margem.
- Revisar renovações indexadas ao IGP-M e propor troca de índice ou teto.
- Fechar até novembro o desenho das escalas 5x2 por unidade, com o custo da contratação adicional.
Esta publicação tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento, jurídica ou financeira. As decisões tomadas com base neste material são de responsabilidade exclusiva do leitor. Análise Econômica.
