Em poucos minutos desta manhã, o mercado recebe dois documentos capazes de redesenhar o segundo semestre.
Visão AE
A ata do Copom, que precisa explicar por que o comitê cortou a Selic para 14% sem prometer o próximo passo. E o IPCA fechado de julho, que nossa projeção coloca em zero, ante alta de 0,16% em junho.
Há um detalhe técnico que explica a tensão do dia: uma diferença de apenas 0,1 ponto percentual no IPCA pode significar bilhões em reprecificação de ativos. Se o número vier abaixo do esperado, a curva de juros fecha e o crédito de prazo longo tende a baratear. Se surpreender para cima, o prêmio de risco volta e encarece tudo o que tem prazo.
O Focus de ontem manteve a Selic em 13,75% para o fim do ano, ou seja, o mercado ainda aposta em mais um corte em setembro. Mas ninguém mexeu em nada: todos estão esperando os documentos de hoje.
A decisão mental desta terça: hoje não é dia de adivinhar. É dia de ter os cenários prontos e agir depois que os números saírem.
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Em 60 segundos
- Hoje: ata do Copom e IPCA de julho saem na mesma manhã.
- Projeção AE: inflação zerada em julho, deflação perto de 0,20% em agosto com o bônus de Itaipu.
- Assimetria: 0,1 ponto percentual de diferença no IPCA move bilhões em ativos.
- Ormuz: Irã descartou negociar; a reabertura precificada pelo mercado não veio.
- China: inflação abaixo do esperado, puxada por energia. Importado mais barato, concorrência mais dura.
- Amanhã: inflação americana. Núcleo acima de 0,3% reacende o medo de alta do Fed.
A reabertura que não veio
Enquanto o mercado se prepara para os dados domésticos, um sinal externo mudou de direção no fim de semana e quase ninguém conectou.
O Irã descartou, por enquanto, negociações diretas com os Estados Unidos. E reiterou que a reabertura do Estreito de Ormuz depende do cumprimento de novas condições por Washington. Do outro lado, Trump sinalizou disposição para simplesmente aguardar que a pressão econômica leve Teerã a moderar a postura.
Repare no que isso significa. Boa parte da queda do petróleo das últimas semanas foi construída sobre a expectativa de uma negociação. Essa negociação foi descartada.
Para quem opera em logística, indústria ou agronegócio, o recado é direto: quem desmontou proteção de combustível apostando na reabertura agiu cedo demais. O risco não desapareceu. Ele apenas ficou parado, esperando junto com todo mundo.

Foto: U.S. Navy photo by Mass Communication Specialist 3rd Class Jonathan Sunderman · Public domain · Wikimedia Commons
A semana traz três relatórios que ajudam a calibrar esse risco: a perspectiva energética da agência americana sai hoje, e amanhã saem o relatório mensal da agência internacional de energia e o levantamento global de oferta e demanda agrícola. Para quem compra combustível ou vende safra, são leitura obrigatória.
O risco não foi embora. Ficou parado, esperando.
Inflação zero tira o disfarce
Se nossa projeção se confirmar, o Brasil terá o melhor bimestre de preços desde setembro de 2022.
Julho em zero, favorecido por alimentos e combustíveis. Segundo o Cepea, o etanol recuou cerca de 9,6% no mês, e nas bombas a queda foi de aproximadamente 2,3%, com diesel caindo 2,15% e gasolina 1,66%. Para agosto, projetamos deflação perto de 0,20%, influenciada sobretudo pelo bônus de Itaipu, que deve reduzir as tarifas de energia elétrica.
Boa notícia para o consumidor. E uma dificuldade específica para quem vende.
Quando a inflação corre a 5% ou 6%, um reajuste de preço se dilui no ruído geral. O cliente aumenta o preço, o fornecedor aumenta o preço, todo mundo aumenta, ninguém repara em ninguém. Com a inflação em zero, esse disfarce acaba. Todo reajuste vira decisão visível.

Para o varejo, que segundo nossa projeção também recuou em junho, isso fecha a porta do repasse. A margem passa a se defender no custo logístico, que ficou mais barato com os combustíveis, e no mix de produtos, não na etiqueta.
Para serviços, o efeito é ainda mais direto e pouco comentado. Com o IGP em deflação e o IPCA em zero, o reajuste automático de contratos indexados virou zero ou negativo. Quem construiu o orçamento contando com correção anual por índice precisa de outro plano de crescimento de receita.
Com a inflação corrente perto de zero, o empresário perde o ruído que disfarçava o reajuste. Aumentar preço agora é uma decisão que o cliente enxerga.
Membros leem o arquivo inteiro de edições e salvam as análises que importam para voltar quando quiserem.
A China está desinflacionando por você
Um dado que saiu longe daqui mexe diretamente no seu custo.
A inflação chinesa veio abaixo das expectativas em julho: os preços ao consumidor desaceleraram para 0,5% na comparação anual, e os preços ao produtor avançaram 3,5%, também abaixo do consenso. O motivo principal foi o alívio nos preços de energia.
A China é a maior fornecedora de manufaturados do mundo. Quando ela desinflaciona, o efeito chega às nossas prateleiras e às nossas linhas de produção.
Para quem importa insumo ou produto acabado, é janela concreta. Somada ao dólar cedendo a R$5,08 depois do payroll fraco nos Estados Unidos, forma uma combinação favorável para programar compras.

Mas há o outro lado, e ele dói na indústria de transformação. Produto chinês mais barato significa concorrência mais agressiva num setor que já está com o índice de atividade em 47,5 pontos, ou seja, em contração. A Fiesp já havia apontado a concorrência de importados entre os cinco fatores que derrubam a produção brasileira.
A China desinflacionando é bom para quem compra dela e duro para quem compete com ela. A indústria brasileira está, infelizmente, dos dois lados dessa conta.
O Brasil segue fora da festa
Vale registrar o descolamento, porque ele já dura semanas.
As bolsas asiáticas fecharam majoritariamente em alta, apoiadas pelo relatório de emprego mais fraco dos Estados Unidos e pela recuperação das ações ligadas a semicondutores e inteligência artificial. Wall Street também subiu na sexta.
O Ibovespa fechou a semana passada com queda de 3,08%, aos 172,5 mil pontos.
Quando o mundo inteiro sobe e só a gente cai, o diagnóstico não está no mundo. Está aqui: atividade em contração nos três termômetros, saída de capital estrangeiro da bolsa e uma disputa não resolvida sobre até onde a Selic pode cair.

Foto: Rockmysock at English Wikipedia · Public domain · Wikimedia Commons
É exatamente essa disputa que os dois documentos de hoje começam a arbitrar. O Focus ainda projeta mais um corte em setembro. Parte das grandes casas já trabalha com pausa em 14%. A ata é quem desempata.
Para construção e real estate, o setor mais sensível ao juro longo, a orientação prática é ter a operação de captação pronta para acionar caso a curva feche hoje. Montar a operação depois que a janela abre costuma significar perdê-la.
O que colocar na reunião de diretoria
- Temos cenários prontos para os dois desfechos de hoje: curva fechando e curva abrindo?
- Se a curva fechar, nossa operação de captação está pronta para acionar imediatamente?
- Nosso orçamento de receita depende de reajuste automático por índice? Com IGP negativo e IPCA em zero, esse reajuste é zero ou negativo.
- Desmontamos alguma proteção de combustível apostando na reabertura de Ormuz que acabou de ser descartada?
- Estamos aproveitando a desinflação chinesa e o dólar mais fraco para programar compras importadas?
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Agenda da próxima semana
- Terça (11/08, hoje): ata do Copom e IPCA de julho pela manhã. Nos EUA, saem o índice de confiança das pequenas empresas, vendas de casas usadas e a perspectiva energética da agência americana.
- Quarta (12/08): inflação ao consumidor dos EUA, o dado mais importante da semana lá fora. Saem também o relatório da agência internacional de energia, o levantamento global de safras e, no Brasil, a pesquisa mensal de serviços de junho.
- Quinta (13/08): vendas no varejo de junho no Brasil e inflação ao produtor nos EUA.
- Sexta (14/08): vendas no varejo americanas e a pesquisa de confiança e expectativa de inflação da Universidade de Michigan.
- Prepare hoje os dois cenários de curva, fechando e abrindo, antes que os números saiam.
- Deixe a operação de captação de longo prazo pronta para acionar caso a curva feche.
- Revise cláusulas de reajuste indexado: com IGP negativo e IPCA em zero, a correção automática deixou de sustentar receita.
- Mantenha o hedge de combustível: a reabertura de Ormuz que o mercado precificava foi descartada pelo Irã.
- Programe compras importadas aproveitando a desinflação chinesa e o dólar em R$5,08.
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