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Bússola do CEO•29 de outubro de 2026•Edição #67

A trégua durou um dia

A bolsa voltou a cair, os bancos lideraram e o crédito dá sinais de seletividade. Hoje sai o primeiro dado fiscal após a eleição.

Bússola do CEO · Leitura de 6 min
A trégua durou um dia
"Se um homem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento lhe será favorável."

A acomodação de terça-feira durou apenas um pregão. Na quarta, o Ibovespa caiu 2,68%, para 171.006 pontos, terceira queda seguida e menor fechamento desde 20 de agosto.

Visão AE

A acomodação de terça-feira durou apenas um pregão. Na quarta, o Ibovespa caiu 2,68%, para 171.006 pontos, terceira queda seguida e menor fechamento desde 20 de agosto.

Os bancos lideraram as perdas depois do balanço do Santander, e os juros futuros voltaram a subir na maior parte da curva. O dólar ficou praticamente estável, perto de R$ 5,34. Na semana, a bolsa acumula queda de 16,6%, e o câmbio segue cerca de 7% acima do nível anterior à eleição.

A leitura da AE é que o choque eleitoral deixou de ser um evento e passou a ser um processo. A definição sobre a condução fiscal do próximo mandato tende a levar semanas, e o mercado reage a cada sinal no caminho.

Para o CEO, a decisão desta edição é trocar a expectativa de reversão rápida por um planejamento sob incerteza prolongada até o fim do ano. O porto a definir é o da própria empresa: liquidez, crédito contratado e premissas realistas.

Em 60 segundos

  • Bolsa: queda de 2,68%, para 171 mil pontos, com bancos e varejo à frente.
  • Fiscal: sinais distintos no governo; comando da Fazenda sem data definida.
  • Crédito: Santander lucra 28% menos e eleva a inadimplência para 3,4%.
  • Exterior: Reino Unido acalma o mercado; Fed mantém juros com dois votos por alta.
  • Petróleo: volta a subir com risco geopolítico renovado.
  • Hoje: Governo Central, IGP-M, Caged, PIB dos EUA e BCE.

Executivo analisando gráficos financeiros e orçamento.

O que muda na mesa do CEO

O principal ajuste desta semana é no horizonte de planejamento. Até a segunda-feira, era razoável imaginar que sinais rápidos de política econômica pudessem devolver parte do movimento do mercado. Com a definição do comando da Fazenda e do plano fiscal sem data marcada, o cenário-base passa a ser de volatilidade até dezembro ou além. Isso recomenda trabalhar o orçamento de 2027 com faixas de câmbio e juros e definir gatilhos claros de revisão, em vez de esperar um único número.

A liquidez ganha prioridade. Com a bolsa em queda e os juros longos em alta, o custo de captar recursos, seja por ações ou por dívida, segue elevado. Linhas de crédito já contratadas, prazos de pagamento a fornecedores e o volume de caixa disponível são os instrumentos que dão margem de manobra num período em que decisões de financiamento podem ficar mais caras ou demoradas.

Um terceiro ponto aparece com mais nitidez: o risco que está fora do balanço da própria empresa. Se o crédito bancário ficar mais seletivo, clientes que compram a prazo e fornecedores menores que dependem de financiamento podem enfrentar dificuldades antes da sua empresa. Mapear esses elos da cadeia é um exercício preventivo que cabe nesta semana.

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Os sinais fiscais da semana

Na terça-feira, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo tem medidas fiscais prontas, incluindo uma proposta para reforçar a busca do centro da meta. No mesmo dia, o ministro de Relações Institucionais, José Guimarães, disse que um pacote de ajuste não é prioridade até o fim do ano. Segundo ele, as prioridades legislativas até 20 de dezembro são a PEC da Segurança Pública, a medida provisória das apostas e a PEC da tarifa zero no transporte público. Segundo a Folha de S.Paulo, o presidente não deve anunciar o novo comando da Fazenda no curtíssimo prazo.

Para o mercado, a combinação de declarações em direções distintas e cronograma indefinido mantém elevado o prêmio de risco, que se traduz em juros longos e câmbio pressionados. Para as empresas, a implicação prática é que a volatilidade deve continuar respondendo a cada nova sinalização, o que favorece decisões escalonadas em proteção cambial, captação e investimento.

Número ruim com mensagem clara acalma mais que número bom com mensagem confusa.

Edifício do Ministério da Fazenda em Brasília.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil · CC BY 2.0 · Wikimedia Commons

O recado do primeiro grande banco

O Santander Brasil abriu a temporada dos grandes bancos após a eleição com resultados abaixo do esperado:

  • Lucro: R$ 2,9 bilhões no terceiro trimestre, queda de 28% em um ano e abaixo da projeção de R$ 3,16 bilhões.
  • Rentabilidade: 11,9% sobre o patrimônio.
  • Inadimplência: atrasos acima de 90 dias subiram para 3,4%, alta de 0,6 ponto percentual em doze meses.

O banco atribuiu parte do desempenho à redução da participação de clientes de menor renda na carteira.

A informação vai além do setor financeiro. Se outros grandes bancos seguirem a mesma linha nas próximas semanas, o crédito para famílias e pequenas empresas tende a ficar mais escasso, além de mais caro.

Para o varejo, isso significa um crediário mais restrito justamente na reta de fim de ano. Para a indústria e os serviços, aumenta a importância de acompanhar a saúde financeira de fornecedores e de rever a política de crédito comercial concedido a clientes.

Fachada de agência bancária do Santander.

Foto: Делфина · CC0 · Wikimedia Commons

Londres, Washington e o petróleo

O Reino Unido apresentou na quarta-feira um Orçamento sem surpresas, com folga fiscal certificada de £ 15 bilhões, abaixo dos £ 23,6 bilhões de março. Mesmo com números mais apertados, os títulos de dez anos tiveram leve alta de preço, com o rendimento caindo para 5,30%, e o Tesouro britânico reduziu a emissão planejada de papéis de longo prazo. O episódio mostra, de forma prática, que previsibilidade e coerência de mensagem também reduzem o custo de capital.

Nos Estados Unidos, o Federal Reserve manteve os juros entre 3,75% e 4,00% por dez votos a dois. As duas dirigentes divergentes defenderam alta imediata de 0,25 ponto, e o comunicado reconheceu que a inflação segue elevada. O mercado continua apostando em aumento em dezembro, o que mantém o dólar firme no mundo e limita a recuperação do real.

O petróleo voltou a subir cerca de 1%, interrompendo a trégua de dois dias, com combates no Iêmen, um ataque a refinaria na Arábia Saudita e o temor de novas ações militares americanas contra o Irã após as eleições de meio de mandato da próxima semana. O Banco Mundial projeta alta de 32% no preço do petróleo em 2026. Para quem depende de frete e diesel, as travas de preço continuam fazendo sentido.

Navio petroleiro em alto-mar ao pôr do sol.

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O que colocar na reunião de diretoria

  1. O orçamento de 2027 está preparado para incerteza prolongada até o fim do ano?
  2. Temos linhas de crédito contratadas suficientes para os próximos seis meses?
  3. Quais clientes e fornecedores críticos dependem de crédito bancário para operar?
  4. A política de crédito comercial e de parcelamento precisa ser revista?
  5. Quais decisões de investimento podem ser escalonadas em vez de tomadas de uma vez?

Agenda da próxima semana

  • Quinta (29):
    • Resultado do Governo Central de setembro, com superávit projetado pela AE de R$ 6 bilhões.
    • IGP-M de outubro, com projeção de 1,75%.
    • Caged de setembro, com projeção de 96,6 mil vagas.
    • PIB do terceiro trimestre e inflação PCE dos Estados Unidos.
    • Decisão do Banco Central Europeu.
    • Balanço da Vale.
  • Sexta (30): taxa de desemprego, com projeção de 5,3%; decisão do Banco do Japão; PIB da Zona do Euro; PMI da China.
  • 4 de novembro: primeira decisão do Copom após a eleição.

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Próximos passos

  • Adotar o cenário de incerteza prolongada até dezembro como base do planejamento.
  • Confirmar o volume e o prazo das linhas de crédito já contratadas.
  • Mapear clientes e fornecedores críticos dependentes de financiamento bancário.
  • Revisar a política de parcelamento e de crédito comercial para o fim do ano.
  • Escalonar decisões de investimento, hedge e captação conforme os sinais fiscais.

Esta publicação tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento, jurídica ou financeira. As decisões tomadas com base neste material são de responsabilidade exclusiva do leitor. Análise Econômica.

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