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Bússola do CEO27 de agosto de 2026Edição #24

A inflação caiu por causa do tomate

IPCA-15 em -0,40%, bem além do esperado. A composição conta outra história.

Bússola do CEO · Leitura de 12 min
A inflação caiu por causa do tomate
"A inflação que sai na manchete é a do supermercado. A que fica na cabeça do cliente é a do boleto."

A decisão mental desta edição é essa: a parte da inflação que cai é a que você não controla. A parte que sobe é a que está no seu contrato.

Visão AE

Começamos reconhecendo um erro.

Projetamos deflação de 0,21% no IPCA-15 de agosto. Veio 0,40%. O mercado, que esperava queda de 0,30%, também errou o tamanho.

E o tamanho é justamente a notícia.

Porque quando você abre o número, descobre de onde ele veio: o tomate caiu 27,38%, a batata-inglesa 25,14%, a passagem aérea 13,30% e a conta de luz veio com um crédito que não se repete em setembro.

No mesmo índice, o plano de saúde subiu 0,42%.

A decisão mental desta edição é essa: a parte da inflação que cai é a que você não controla. A parte que sobe é a que está no seu contrato.

Quem usar o número de agosto para negociar reajuste, precificar serviço recorrente ou fechar orçamento de 2027 vai indexar a receita a hortaliça e passagem aérea, enquanto o custo contratual continua correndo por fora.

Em 60 segundos

  • A prévia da inflação despencou. IPCA-15 a -0,40%, contra -0,30% esperado. Em doze meses, 4,24%, ainda acima da meta de 3%.
  • A composição desmente a manchete. Habitação -1,41%, transportes -1,00%, alimentos -0,57%. Tomate -27,38%, passagem aérea -13,30%.
  • O que é contrato subiu. Plano de saúde +0,42%, com reajuste ANS de até 5,11%. Despesas pessoais +0,66%.
  • Erramos duas projeções. IPCA-15 (projetamos -0,21%) e núcleo do PCE americano (projetamos ~3,2%, veio 3,3%).
  • A inflação americana parou. PCE em 3,7% em doze meses, acima do esperado, com renda pessoal subindo 0,4%.
  • Alta de juros nos EUA voltou à mesa. Leitura de mercado após o dado, com PMI apontando PIB perto de 3%.
  • O mercado apostou no corte aqui. Magalu +9,1%, construtoras +7,5%, Banco do Brasil +5,2% num só pregão.
  • A bolsa foi revisada para baixo. Projeção mediana de 179 mil pontos para 2026, de 195 mil em maio.
  • Braskem saiu do índice. Queda de 13,1% após pedido de reestruturação extrajudicial.

O que muda na mesa do CEO

Preço. O número cheio engana em duas direções ao mesmo tempo. Se você repassar a queda de hortifrúti para a tabela, vai enfrentar a reversão da próxima safra com margem menor. Se ignorar a alta dos itens contratuais, vai subestimar o custo de 2027.

Folha. O grupo Saúde e cuidados pessoais subiu 0,40% num mês em que o índice cheio caiu 0,40%. Para qualquer empresa que oferece plano de saúde, o custo do benefício está subindo enquanto a manchete diz o contrário.

Câmbio. O Brasil teve a melhor prévia de inflação em anos e o dólar subiu mesmo assim, operando a R$ 5,160 na manhã de ontem. O câmbio desta semana não está lendo o Brasil. Está lendo o dado americano e o que será dito em Jackson Hole na sexta.

Suprimentos. A maior produtora de resina do país renegociou dívida e saiu do Ibovespa. Quem compra embalagem tem uma conversa para ter esta semana.

Caixa. O mercado apostou alto em corte de Selic: Magazine Luiza subiu 9,1% e as construtoras Cury e Tenda cerca de 7,5% cada num único pregão. Aposta desse tamanho tem contraparte.

Documento de contrato de plano de saúde sobre mesa de trabalho executiva

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O que caiu, o que subiu e por quê

Vamos abrir o número com calma, porque é aqui que a edição se paga.

O IPCA-15 recuou 0,40% em agosto, ante alta de 0,06% em julho. No ano, acumula 3,09%. Em doze meses, 4,24%, abaixo dos 4,52% dos doze meses anteriores. As expectativas na pesquisa Reuters eram de queda de 0,30% no mês.

O resultado foi puxado por três grupos: Habitação (-1,41%), Transportes (-1,00%) e Alimentação e bebidas (-0,57%).

Dentro deles, os destaques: alimentação no domicílio a -0,97%, com tomate a -27,38%, batata-inglesa a -25,14%, cenoura a -17,05% e café moído a -2,31%. Em transportes, passagem aérea a -13,30% e combustíveis a -1,43%, com etanol recuando 3,63%, gasolina 1,23% e diesel 0,71%.

Agora o outro lado da tabela.

Saúde e cuidados pessoais variou +0,40%. Dentro do grupo, artigos de higiene pessoal subiram 0,47% e plano de saúde 0,42%, refletindo o reajuste autorizado pela ANS de até 5,11% para contratos posteriores à Lei nº 9.656/98, com vigência desde maio de 2026 e ciclo encerrado em abril de 2027. Para planos anteriores à lei, os percentuais foram de 5,52% e 6,20%. Despesas pessoais subiram 0,66%, o maior avanço entre todos os grupos.

Repare no padrão.

O que caiu se compra por impulso ou por necessidade imediata. O que subiu se paga por contrato ou assinatura.

Para o varejo alimentar e o food service, a leitura provável é que a queda de hortifrúti seja janela temporária de margem, não base de precificação. Verdura e legume oscilam com safra e clima, e revertem. Quem travar cardápio ou tabela em cima de um tomate 27% mais barato assume o risco da próxima virada.

Para a saúde e para o RH de qualquer setor, o recado é oposto e mais duro. Se a negociação da apólice coletiva usar o IPCA cheio como referência, a conversa já começa errada. O índice setorial é outro, e ele subiu.

E para o agro, um desconforto que a manchete não mostra: queda de dois dígitos em hortifrúti significa preço abaixo do custo para parte dos produtores. O que aparece como alívio no índice pode reaparecer como aperto de crédito rural no trimestre seguinte.

Um detalhe que vale como método. Parte relevante da inflação brasileira é administrada e entra no índice com defasagem, por decisão regulatória. O reajuste que apareceu ontem no plano de saúde foi autorizado meses atrás. Ou seja: parte da sua inflação de 2027 já foi decidida em reuniões regulatórias de 2026. Basta ir ler.

Lá fora, a inflação parou de cair

Enquanto o Brasil registrava a melhor prévia em anos, os Estados Unidos publicavam o oposto.

O índice PCE, medida preferida do Federal Reserve, subiu 0,2% em julho, após queda de 0,1% em junho, quando economistas previam alta de 0,1%. A taxa anual ficou em 3,7%, inalterada em relação a junho, contra expectativa de recuo para 3,6%. O núcleo, que exclui alimentos e energia, subiu 0,2% no mês e ficou em 3,3% em doze meses.

Aqui também erramos: projetávamos o núcleo em torno de 3,2%.

E tem mais. A renda pessoal do americano subiu 0,4% em julho, os gastos 0,2%, e os novos pedidos de bens duráveis saltaram 1,1%. Não é essa a combinação que derruba juros.

Na segunda leitura do trimestre, o PCE foi revisado de 5,1% para 5,3% em taxa anualizada, e o núcleo de 3,4% para 3,6%. Duas revisões na mesma direção não são ruído.

O resultado disso é que a conversa mudou de lado. William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, avaliou que o dado aponta para uma economia resiliente e que, combinado com inflação mais forte, pode recolocar na mesa a possibilidade de alta de juros em setembro. Ele lembrou que o PMI preliminar da semana passada apontou ritmo compatível com um PIB perto de 3%.

Há duas semanas, nossa própria leitura era de que a desaceleração afastava a hipótese de aperto americano nas duas próximas reuniões. O dado de ontem enfraquece essa avaliação, e registramos isso.

O ponto de atenção para o CEO brasileiro é de assimetria. A faixa de juros americana está em 3,5% a 3,75% desde dezembro. Se Kevin Warsh soar duro na sexta, três coisas se desmontam ao mesmo tempo: a aposta local em corte de Selic, o real e a marcação de carteira dos bancos.

Para quem tem dívida em dólar, insumo importado ou contrato de cloud dolarizado, a janela para travar câmbio é esta semana, não a próxima.

Kevin Warsh durante discurso em evento econômico

O mercado apostou alto no corte

E apostou mesmo.

No fechamento de terça, o Ibovespa subiu 1,55%, aos 174.577 pontos, quinta alta consecutiva. O pregão foi um voto claro em ações domésticas sensíveis a juros: Banco do Brasil +5,2%, Magazine Luiza +9,1%, Cury e Tenda cerca de +7,5% cada. O dólar cedeu a 5,1490 reais na PTAX.

Construtora subindo 7,5% e varejista 9% no mesmo dia é convicção alta de que a Selic cai em setembro.

Só que, no mesmo período, algo menos comentado aconteceu.

Segundo pesquisa da Reuters com 14 estrategistas consultados entre 12 e 26 de agosto, a mediana das projeções agora aponta o Ibovespa em 179.000 pontos no fim de 2026 — contra 195.000 estimados na pesquisa de maio. Um corte de 16 mil pontos em três meses.

E a razão apresentada não é a que se esperaria em ano eleitoral. Heitor De Nicola, especialista em ações e derivativos da AVIN, afirmou que o principal risco para 2027 é fiscal, e não eleitoral, com preocupações crescentes sobre a trajetória da dívida pública. Segundo ele, quem assumir o governo herdará uma trajetória que exige reformas estruturais de gastos, e não medidas pontuais de receita.

No mesmo dia, o Tesouro Nacional divulgou os dados de julho da dívida pública e alterações no seu Plano Anual de Financiamento. Mudança de plano de emissão no meio do ano não é rotina.

Para a construção e o real estate, isso separa duas coisas que estão andando em direções diferentes. A ação da construtora subiu apostando na Selic. A obra é financiada pela curva longa, que responde ao fiscal. São juros diferentes.

Para quem tem CAPEX de longo prazo em análise, a leitura sugere que adiar a decisão esperando a definição eleitoral pode não resolver nada. Se o prêmio de risco é fiscal, ele atravessa outubro.

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A resina, o navio e o chip

Três histórias aparentemente desconexas que terminam na mesma planilha.

A resina. A Braskem despencou 13,1% na terça, um dia depois de protocolar pedido de reestruturação de dívida extrajudicial — negociada diretamente com os credores, sem passar primeiro pelo Judiciário — e foi removida do Ibovespa no fechamento daquele pregão. Corrigimos aqui o que publicamos ontem: o processo é extrajudicial, e a queda relevante foi essa, não a de segunda-feira.

É a maior produtora de resinas termoplásticas do país. Para quem compra embalagem, filme plástico e insumo petroquímico, isso deixa de ser notícia de mercado. Vira questão de suprimento.

E o ponto que a maioria não antecipa: reestruturação de dívida costuma vir acompanhada de endurecimento comercial. Prazo menor, exigência de garantia, revisão de tabela. O impacto no comprador aparece em condição comercial antes de aparecer em falta de produto. Não há informação de risco de desabastecimento, e não é disso que estamos falando.

Somado ao pedido bilionário de recuperação judicial da Casas Bahia, são duas reestruturações de porte em duas semanas — exatamente o quadro que o Banco Central descreveu na segunda-feira ao anunciar que prepara medidas para conter o endividamento.

O navio. O petróleo recuou quase 4% na terça com a distensão no Oriente Médio, e a Petrobras caiu 1,8%. Isso apareceu, com poucas semanas de defasagem, na queda de 1,43% dos combustíveis no IPCA-15.

Um acordo sobre navegação no Golfo Pérsico chegou à prévia da inflação brasileira. Essa é a distância real entre geopolítica e o seu frete.

O chip. A Nvidia divulgou o balanço do trimestre encerrado em julho após o fechamento de Nova York ontem. Os números não estavam disponíveis quando fechamos esta edição, então trate o que segue como contexto, não como resultado.

O consenso apontava receita de cerca de US$ 92,18 bilhões no trimestre e US$ 104,20 bilhões para o seguinte, com Goldman Sachs estimando US$ 111 bilhões e JPMorgan projetando guidance entre US$ 107 e US$ 108 bilhões.

Mas o número que Wall Street realmente vigia é outro: uma possível exposição de US$ 200 bilhões em créditos fora do balanço. Em agosto, a companhia anunciou uma plataforma de US$ 500 bilhões montada com Goldman Sachs, BlackRock e Apollo para financiar a construção de data centers de IA, e concordou em destinar até US$ 105 bilhões para respaldar um complexo em Ohio que será alugado pela OpenAI.

A ação sobe 14% em 2026, contra 34% no mesmo ponto do ano passado, e negocia perto do múltiplo mais baixo desde o fim de 2018. Depois de subir 19% entre o fim de julho e meados de agosto, emendou sete pregões seguidos de queda, a pior sequência desde 2019.

A leitura provável é que a maior vendedora de chips do mundo virou também uma das financiadoras de quem compra chips. Quando o fabricante financia o comprador, risco de crédito e risco de demanda deixam de ser independentes.

Para quem opera TIC ou depende de infraestrutura de nuvem, o efeito prático não chega como preço. Chega como prazo de entrega. Vale tratar disponibilidade de infraestrutura como risco de projeto, não como detalhe de compra.

Instalações de planta industrial petroquímica de resinas

O que colocar na reunião de diretoria

  • Nossa tabela de preços está apoiada em itens que caíram mais de 15% em agosto? Se sim, ela vai enfrentar a reversão da próxima safra com margem menor.
  • A negociação da nossa apólice coletiva de saúde está usando o IPCA cheio como referência? O índice cheio caiu 0,40% e o grupo saúde subiu 0,40%. São conversas diferentes.
  • Temos trava cambial pendente que caiba antes do discurso do Fed na sexta? A janela é esta semana.
  • Qual é a nossa dependência de fornecedor único em resina, filme e embalagem? E existe alternativa homologada?
  • Nosso CAPEX de longo prazo está esperando a definição eleitoral? Se o prêmio de risco é fiscal, ele atravessa outubro.
  • Nossa área de tecnologia trata prazo de entrega de infraestrutura como risco de projeto? Se o ciclo de IA está sendo financiado com crédito estruturado, o gargalo vira entrega, não preço.

Executivos reunidos em sala de diretoria corporativa

Agenda da próxima semana

Hoje, 27/08 — Pnad Contínua. Projetamos taxa de desocupação em 5,3%, renovando a mínima histórica para o período. É um contraste desconfortável com uma economia cuja prévia do PIB encolheu em junho: mercado de trabalho apertado sem estar aquecido continua encarecendo folha sem aquecer venda.

Hoje, 27/08 — Contas externas e investimento estrangeiro. Projetamos déficit em transações correntes de cerca de US$ 7,3 bilhões, o maior em seis meses, com investimento direto de US$ 8,82 bilhões e volume acumulado no primeiro semestre cerca de 32% maior que no ano passado. O Brasil atrai fábrica estrangeira enquanto importa mais do que exporta.

Hoje, 27/08 — Abertura de Jackson Hole e reação ao balanço da Nvidia. O simpósio começa com o PCE em 3,7% e a hipótese de aperto reaberta. E o mercado abre precificando o resultado divulgado ontem à noite.

Sexta, 28/08 — IGP-M, Caged, bandeira tarifária e discurso de Kevin Warsh. Projetamos IGP-M em -0,55%, terceira deflação seguida, o que define reajuste de aluguel e contratos indexados. O Caged deve vir em 137,9 mil. E a Aneel anuncia a bandeira de setembro, a primeira sem o crédito de Itaipu na base de comparação.

Segunda, 31/08 — Reunião com o escritório de comércio americano. Primeira mesa formal sobre as sobretaxas que somam até 37,5%, com fundamentação que inclui desmatamento, propriedade intelectual, Pix e etanol. Cinco dias úteis viraram dois.

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Próximos passos

  • Refaça a projeção de custo do quarto trimestre excluindo os itens que caíram mais de 15% em agosto
  • Antecipe a renegociação da apólice coletiva de saúde usando o índice setorial, não o IPCA cheio
  • Trave câmbio e contratos dolarizados antes do discurso do Fed na sexta-feira
  • Mapeie dependência de fornecedor único em resina e embalagem e revise prazo e garantias exigidas
  • Feche o cenário de exportação sem acordo tarifário antes da reunião de segunda-feira

Esta publicação tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento, jurídica ou financeira. As decisões tomadas com base neste material são de responsabilidade exclusiva do leitor. Análise Econômica.

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