"Mais inflação e menos juros ao mesmo tempo: uma das apostas vai falhar."
Depois de uma semana de recordes, terça-feira trouxe três faturas. A inflação esperada para 2026 passou de 5,2%. O FMI cortou o crescimento do Brasil para 1,9% em 2027. E a indústria encolheu no ritmo mais rápido desde o início de 2020.
Visão AE
Depois de uma semana de recordes, terça-feira trouxe três faturas.
A inflação esperada para 2026 passou de 5,2%. O FMI cortou o crescimento do Brasil para 1,9% em 2027. E a indústria encolheu no ritmo mais rápido desde o início de 2020.
Hoje, o Senado pode votar o fim da escala 6x1.
A janela financeira continua aberta, mas menor. O que mudou foi o lado operacional. A pergunta da diretoria hoje não é para onde vai o dólar. É quanto vai custar a operação em 2027.
Em 60 segundos
- Jornada: a 6x1 pode ser aprovada hoje; a escala 5x2 viria 60 dias após a promulgação.
- Inflação e juros: o mercado espera IPCA de 5,22% e Selic de 13,25%; contratos reajustam mais.
- Crescimento: FMI vê o Brasil em 1,9% em 2027, abaixo da América Latina.
- Atividade: indústria em 44,8, quinto mês de queda.
- Pequenos negócios: perdão de R$ 12,6 bi para MEIs, ainda dependente do Congresso.
- Energia: bandeira verde em outubro; diesel ainda caro.
O que muda na mesa do CEO
A semana passada foi de tesouraria. Esta é de planilha de custos.
Na terça, o Ibovespa caiu 1,04%, a 206.887 pontos, e o dólar voltou a R$ 5,02. Analistas falaram em realização de lucros depois da alta de quase 9% da semana anterior. A janela para travar dívida e hedge ainda existe, mas oscila a cada pesquisa. Quatro saíram no mesmo dia, com Flávio Bolsonaro à frente nos votos válidos; em três delas, dentro da margem de erro.
O que pesa mais agora está do lado operacional:
- Folha: uma nova regra de jornada pode ser aprovada hoje.
- Preço: o mercado elevou a inflação esperada pela quarta semana seguida.
- Demanda: indústria e serviços estão em contração.
- Orçamento 2027: a principal referência internacional reduziu o crescimento do país.
Quem tomou a decisão financeira na semana passada pode executá-la. Quem ainda não revisou custo e demanda para 2027 está atrasado.
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A escala entra em votação hoje
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, marcou a votação em 1º turno da PEC do fim da escala 6x1 para hoje. Na terça, disse que já há assinaturas suficientes para o calendário especial, a regra que permite votar os dois turnos no mesmo dia. A oposição quer deixar o 2º turno para depois de 25 de outubro.
A PEC precisa de 49 votos em cada turno. O resultado ainda depende do plenário.
Se passar e for promulgada, o texto prevê escala 5x2 em 60 dias, com jornada de 42 horas, que cai para 40 horas em 14 meses. Com promulgação em outubro, a nova escala chegaria em dezembro, no auge do Natal.
O impacto não é igual para todos. Pesa mais em quem funciona sete dias por semana:
- Varejo e supermercados: mais turnos ou mais horas extras justamente no quadro de fim de ano.
- Hospitais e clínicas: escalas de enfermagem, recepção e limpeza precisam caber em 42 e depois 40 horas.
- Logística e facilities: contratos terceirizados de limpeza e vigilância provavelmente serão reabertos.
O mercado de trabalho não ajuda. Com desemprego de 5,3%, contratar é caro e demorado.
Quem tem a simulação pronta negocia com fornecedor e sindicato antes. Quem espera o resultado para começar a conta decide atrasado.

Foto: Senado Federal · CC BY 2.0 · Wikimedia Commons
Mais inflação, menos juros: o mercado está apostando no câmbio
A pesquisa semanal do Banco Central com o mercado, o Focus, trouxe uma combinação incômoda. A inflação esperada para 2026 subiu de 5,01% para 5,22%. A Selic esperada para o fim do ano caiu de 13,50% para 13,25%. O dólar esperado para dezembro recuou de R$ 5,20 para R$ 5,15.
Inflação maior com juros menores não costuma andar junto. A leitura provável é que o mercado esteja apostando no câmbio e no cenário político para justificar os cortes. Com a Selic em 13,75%, a mediana de 13,25% supõe um corte de 0,25 ponto em cada uma das duas reuniões que restam no ano. Uma das apostas vai falhar.
Para a empresa, o efeito prático é que contratos indexados vão reajustar mais, enquanto o crédito fica apenas um pouco menos caro.
O FMI acrescentou outra fatura. No relatório de projeções globais divulgado ontem em Bangkok, o Fundo cortou o Brasil de 2,4% para 2,2% em 2026 e de 2,2% para 1,9% em 2027. A América Latina deve crescer 2,3% e 2,5%: o Brasil fica abaixo da região nos dois anos. Os motivos citados são juros restritivos, menos estímulo fiscal e incerteza global.
Se o orçamento de 2027 ainda usa crescimento acima de 2%, ele já está desatualizado.
Há um alívio na conta. A Aneel acionou a bandeira verde em outubro, depois de cinco meses de amarela, que acrescentava R$ 1,885 a cada 100 kWh. A energia explicou cerca de 39% da inflação de setembro. Em outubro, a bandeira deixa de pesar na conta. O alívio pode ser curto: o El Niño tem 98% de chance de ser muito forte até dezembro, com chuva abaixo da média no Norte e no Nordeste.
Mais inflação e menos juros ao mesmo tempo: uma das apostas vai falhar.
A indústria não está esperando a eleição
O índice de gerentes de compras da S&P Global, termômetro de quem compra para produzir, ficou em 47,4 em setembro. Abaixo de 50, indica contração.
A indústria caiu para 44,8, no ritmo de queda mais rápido desde o início de 2020. É o quinto mês seguido de queda. Os serviços foram a 49,2, na contração mais forte em um ano. Novos pedidos e emprego caíram.
Correção: na edição de ontem, dissemos que o índice estava no menor nível em 29 meses. Os números acima são os da S&P Global. A leitura de desaceleração se mantém e fica mais forte.
A explicação mais fácil é a eleição. Clientes seguraram pedidos antes do 1º turno, e isso aparece na pesquisa. Mas cinco meses de queda começaram antes de a campanha esquentar. A fraqueza não é só eleitoral.
Há um dado menos ruim no levantamento: a pressão de custos ficou menor, o que pode ajudar a inflação. O problema é que custo subindo menos não ajuda quem está vendendo menos.
A siderurgia sente isso duas vezes. A demanda por aço depende da indústria brasileira, que encolhe, e o minério depende da China. Na terça, a Vale caiu acompanhando a queda do minério no mercado chinês, enquanto a Petrobras subiu com o petróleo acima de US$ 100.
Os dados oficiais de agosto saem nesta semana. A Análise Econômica projeta serviços em +0,30%, varejo em +0,20% e IBC-Br, a prévia do PIB, em +0,10%. As quedas param, mas a economia não volta a andar.
3,6 milhões de MEIs com a dívida zerada

O governo anunciou ontem um pacote para microempreendedores individuais, a 12 dias do 2º turno. São cinco medidas:
- perdão de R$ 12,6 bilhões em dívidas federais de cerca de 3,6 milhões de MEIs, por projeto de lei que ainda precisa passar no Congresso;
- compra de cerca de R$ 6 bilhões em dívidas privadas de MEIs com bancos, pelo Desenrola 3.0, com desconto mínimo de 90%;
- "Pix MEI" de até R$ 5 mil por beneficiário para equipamentos;
- teto de faturamento de R$ 81 mil para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028;
- dispensa de nota fiscal em vendas a pessoa física.
O custo do novo teto foi estimado em R$ 1,57 bilhão em 2027. O custo do perdão e do Pix MEI não foi divulgado.
Para quem decide, o pacote tem três leituras:
- Quem vende para pequenos negócios pode ter clientes com acesso a crédito destravado em 2027, se o Congresso aprovar.
- Quem empresta recebe uma proposta de compra da carteira com desconto mínimo de 90%. Limpa o balanço, mas também significa reconhecer a perda.
- Quem acompanha o fiscal vê mais um gasto sem custo total informado, num momento em que os juros futuros voltaram a subir.
O MEI ganha fôlego. O custo ainda não tem número.
Outro dinheiro está mudando de mãos nesta semana. A partir de hoje, a Caixa assume a devolução dos saldos de apostas que os bancos não conseguiram restituir. Desde o dia 9, os bancos devolviam cerca de R$ 1,3 bilhão a 26,5 milhões de apostadores. A pergunta para o varejo continua: para onde vai, todo mês, o dinheiro que ia para a aposta.
Membros leem o arquivo inteiro de edições e salvam as análises que importam para voltar quando quiserem.
Washington, Moscou e o diesel do caminhão

O Brent fechou a US$ 105,69 na terça, queda de 0,9%. Trump disse que a Rússia aceitou liberar mais diesel ao mundo, com alívio temporário de sanções. Ao mesmo tempo, ataques na Arábia Saudita e no Iêmen mantêm o risco de oferta. O diesel segue em preços recordes em várias regiões.
O Brasil importa cerca de 30% do diesel que consome, principalmente da Rússia e dos EUA. Mais diesel russo no mercado tende a aliviar o preço internacional. Mas também aumenta a disputa por esses barris com compradores asiáticos, como aconteceu no início do ano.
Mais diesel no mundo não garante diesel mais barato aqui. Para agro, logística e varejo, o frete continua caro, e o plantio da safra 2026/27 acontece com diesel alto.
Nos EUA, a inflação de setembro sai hoje às 9h30. Em agosto, subiu 0,4% no mês e 3,4% em 12 meses. A aposta de nova alta dos juros americanos em 28 de outubro caiu para cerca de 17%, depois de um relatório de emprego fraco: 29 mil vagas em setembro e desemprego de 4,2%. O dado de hoje define o humor do dólar global e, por tabela, do real.
Com Washington, a mesa de negociação existe, mas sem desconto. Brasil e EUA criaram em 30 de setembro um grupo de trabalho sobre as tarifas. Seguem em vigor a sobretaxa de 25% da Seção 301 e a de 10% ou 12,5% ligada a trabalho forçado. Pelas contas da CNI, 3.985 produtos chegam a 37,5% somando as duas.
Para o FMI, tem bolha na IA

E o FMI deixou um recado para quem investe em tecnologia. Entre os riscos globais, listou uma possível correção nas ações ligadas a inteligência artificial e notou que EUA e China concentram mais de três quartos da demanda por chips e equipamentos de IA.
A diretora-gerente, Kristalina Georgieva, estimou que cerca de 40% dos empregos no mundo serão afetados pela tecnologia. A demanda, por ora, segue firme: a receita da TSMC, maior fabricante de chips do mundo, cresceu 54,6% em setembro na comparação anual. Amanhã, a ASML divulga seus resultados.
O FMI não diz que a IA é bolha. Diz que, se for, o custo de capital sobe para todo mundo.
O que colocar na reunião de diretoria
- Qual é o custo da escala 5x2 e da jornada de 42 horas na nossa operação, unidade por unidade?
- Quais contratos nossos são indexados à inflação e quanto reajustam com IPCA acima de 5%?
- O orçamento de 2027 aguenta crescimento do país abaixo de 2%?
- Quanto da nossa receita ou da nossa carteira de crédito depende de MEIs?
Agenda da próxima semana
- Quarta (14): serviços de agosto (a AE projeta +0,30%). Inflação dos EUA às 9h30. No Senado, votação prevista da PEC da 6x1. Números de preços e comércio da China de setembro, previstos para a madrugada: termômetro para quem importa insumos ou exporta minério e soja.
- Quinta (15): varejo de agosto (a AE projeta +0,20%) e resultado da ASML.
- Sexta (16): IBC-Br de agosto (a AE projeta +0,10%).
- 25 de outubro: 2º turno presidencial.
- 28 e 29 de outubro: decisões de juros do Fed e do Banco Central Europeu.
- 3 e 4 de novembro: Copom, a primeira decisão de juros depois da eleição.
A próxima edição chega amanhã cedo. Crie sua conta gratuita e continue um passo à frente.
Próximos passos
- Ter hoje a simulação da escala 5x2 por unidade, antes do resultado no Senado.
- Revisar contratos indexados com IPCA de 5,22% como premissa.
- Refazer o orçamento de 2027 com crescimento do país abaixo de 2%.
- Medir a exposição a MEIs como clientes e como devedores.
- Evitar fechar câmbio relevante antes da inflação americana, às 9h30.
Esta publicação tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento, jurídica ou financeira. As decisões tomadas com base neste material são de responsabilidade exclusiva do leitor. Análise Econômica.
