"O diesel subiu 6,67% em quinze dias com o subsídio em vigor. O subsídio amortece, mas não impede."
A terça-feira trouxe duas leituras da economia que não combinam entre si. De um lado, o Ibovespa subiu 1,57% e fechou a apenas 0,4% do recorde, enquanto o dólar caiu para R$ 5,02. De outro, o diesel subiu 6,67% na primeira quinzena de outubro.
Visão AE
A terça-feira trouxe duas leituras da economia que não combinam entre si. De um lado, o Ibovespa subiu 1,57% e fechou a apenas 0,4% do recorde, enquanto o dólar caiu para R$ 5,02.
De outro, um levantamento de preços em postos mostrou que o diesel subiu 6,67% na primeira quinzena de outubro, e a inflação ao produtor voltou a surpreender para cima, desta vez na Alemanha.
As duas leituras estão corretas, mas medem coisas diferentes. A bolsa e o câmbio refletem expectativas e fluxo de capital; o diesel e os insumos refletem barris, refinarias e navios. Para quem administra uma operação, é a segunda que chega ao resultado do mês.
A decisão mental desta edição é aproveitar o alívio de mercado onde ele de fato ajuda, como em importações e dívida em dólar, sem confundi-lo com alívio de custo.
Em 60 segundos
- Diesel: R$ 7,20 por litro, alta de 6,67% na quinzena; no Paraná, 12,66%.
- Petróleo: o Brent passou de US$ 111 e recuou com um rumor ainda não confirmado.
- Câmbio: dólar a R$ 5,02, uma janela para importações e dívidas em dólar.
- Custo global: a inflação ao produtor alemã chegou a 6,7%; equipamentos europeus tendem a encarecer.
- Crédito: os bancos subiram na bolsa, mas o CDI segue em 13,65%.
- Clima: chuva forte no Paraná e em Santa Catarina até domingo.
O que muda na mesa do CEO
Começamos com uma correção. Nas últimas edições, dissemos que o petróleo caro ainda não tinha chegado à bomba por causa do subsídio federal ao diesel. O dado do índice Edenred Ticket Log mostra que chegou: o diesel comum passou a R$ 7,20 por litro na média nacional, alta de 6,67% em quinze dias e de 15,2% no ano. O subsídio amortece a alta, mas não a impede.
Na prática, o custo de frete de outubro já está mais alto do que a maioria dos orçamentos previa, e a conta ainda pode ganhar um novo capítulo depois de 26 de outubro, quando vence o ciclo atual do subsídio de R$ 2,12 por litro. Vale atualizar agora o custo logístico do mês e verificar quais contratos de transporte têm reajuste atrelado ao diesel.
O câmbio, por sua vez, abre uma janela. Com o dólar a R$ 5,02, importações e dívidas em moeda americana ficam mais baratas no curto prazo. A semana, porém, concentra pesquisas eleitorais, debate e o segundo turno, e janelas desse tipo costumam fechar com a mesma rapidez com que abrem.
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O diesel já chegou à estrada
A alta foi mais intensa justamente onde a logística é mais sensível. No Sul, o diesel comum subiu 11,7% na quinzena, e o Paraná registrou a maior alta entre os estados, de 12,66%. No Centro-Oeste, o aumento foi de 6,97%, e o Norte segue com os preços mais altos do país, em R$ 7,75 por litro.
Parte da explicação está fora do Brasil. Cerca de 23% do diesel vendido no país em agosto foi importado, segundo a ANP, o que deixa o preço interno exposto ao mercado internacional.
E esse mercado continua apertado: o Brent passou de US$ 111 durante a terça e só recuou, para US$ 108,79 no fechamento, depois de relatos de um possível avanço diplomático entre Estados Unidos e Irã que não foram confirmados.
Analistas do Commerzbank avaliam que a oferta do Golfo caiu de forma significativa na última semana e que a capacidade russa de ampliar a exportação de diesel segue limitada por ataques a refinarias.

Os países consumidores reconhecem o problema. A Agência Internacional de Energia informou que os membros já liberaram 80% dos 400 milhões de barris de reservas de emergência comprometidos em março, incluindo mais de 20 milhões de barris de diesel, e que está pronta para uma nova liberação se for necessário.
Ainda assim, o diesel de referência na Europa subiu quase 4% desde a última decisão da agência. Um eventual alívio por essa via depende de decisão política e das condições do inverno no Hemisfério Norte, e por isso não deveria entrar no orçamento antes de ser anunciado.
Para o agronegócio, o momento é delicado. O diesel mais caro se soma à previsão de chuva forte no Paraná e em Santa Catarina a partir desta quarta, mais intensa no fim de semana, com risco de alagamentos e cheias rápidas em plena época de plantio.
Transportadoras, cooperativas e construtoras com operação na região devem prever folga nos prazos e atualizar o custo de combustível de máquinas e caminhões.
O diesel subiu 6,67% em quinze dias com o subsídio em vigor. O subsídio amortece, mas não impede.
A pressão de custo não é só local
Na segunda-feira, o IGP-10 mostrou os preços no atacado brasileiro subindo 2,36% em um mês. Na terça, foi a vez da Alemanha: a inflação ao produtor subiu 1,9% em setembro, acima dos 1,5% esperados pelo mercado, e chegou a 6,7% em 12 meses.
A maior economia industrial da Europa está produzindo mais caro, e isso tende a aparecer no preço de máquinas, componentes e insumos químicos importados de lá.

Esse ponto ajuda a qualificar o alívio do câmbio. O dólar mais baixo reduz o custo do que é comprado em dólar, mas não protege compras em euro. Para a indústria que planeja investimentos em equipamentos europeus para 2027, vale separar a exposição por moeda e antecipar cotações.
O índice ZEW, que mede as expectativas de analistas e investidores na Alemanha, caiu de 34,7 para 28,1, ainda que a avaliação da situação atual tenha melhorado.
Na França, os protestos contra o custo de vida levaram o governo a decretar toques de recolher noturnos em bairros de cinco grandes cidades, entre elas Paris e Lyon, e a anunciar novas medidas onde for necessário.
Na segunda-feira, o juro de dez anos do governo francês chegou a 4,849%, acima dos de Itália e Grécia. Para o exportador brasileiro, o sinal é de um mercado europeu com menos fôlego de demanda e de um ambiente global mais exigente com o custo do dinheiro.
Mercado, crédito e o que os balanços mostram
A alta da bolsa na terça foi liderada pelos bancos, com Itaú e Bradesco subindo 2,36% e 3,18%. É uma boa notícia para os acionistas, mas não muda o custo do crédito: o CDI segue em 13,65% ao ano, e o mercado espera apenas dois cortes de 0,25 ponto na Selic até dezembro. Para capital de giro e dívidas de curto prazo, a referência continua sendo esse número, e não o humor da bolsa na semana eleitoral.

No varejo, uma notícia encerrou um ciclo longo. A Justiça do Rio de Janeiro considerou cumprido o plano e encerrou a recuperação judicial da Americanas, iniciada em janeiro de 2023 com dívidas de cerca de R$ 43 bilhões.
A decisão ainda cabe recurso. Para fornecedores do setor, é um bom momento para revisar limites e condições de crédito por cliente com base em dados atualizados, e para os conselhos o caso continua lembrando que controle interno funciona como seguro, não como custo.
Nos Estados Unidos, os balanços trouxeram dois sinais úteis. A 3M subiu 5,86% depois de ampliar um acordo com a Amazon para fornecer produtos a data centers, um exemplo de como a infraestrutura de inteligência artificial está criando clientes para a indústria tradicional, e não apenas para empresas de tecnologia.
Já a Netflix lucrou acima do esperado, mas reduziu de US$ 3 bilhões para US$ 2,7 bilhões a projeção de receita com publicidade em 2026. A leitura provável é que os anunciantes estão mais cautelosos com verba, o que pode abrir espaço para renegociar contratos de mídia. Os balanços de Tesla e Meta, previstos para esta quarta, devem trazer novos sinais.
Membros leem o arquivo inteiro de edições e salvam as análises que importam para voltar quando quiserem.
O que colocar na reunião de diretoria
- Frete: o custo logístico de outubro já reflete o diesel da primeira quinzena?
- Contratos de transporte: quais têm gatilho de reajuste pelo diesel, e qual o efeito se o subsídio não for renovado após 26 de outubro?
- Câmbio: faz sentido aproveitar o dólar mais baixo para cobrir importações do primeiro trimestre?
- Equipamentos: quanto do plano de investimentos depende de equipamentos cotados em euro?
- Operação no Sul: temos plano de contingência logística para Paraná e Santa Catarina neste fim de semana?

Agenda da próxima semana
- Quarta (21): inflação do Reino Unido, decisão de juros na Indonésia, estoques de petróleo nos EUA e balanços de Tesla e Meta, termômetros de energia, tecnologia e publicidade.
- Quinta (22): reunião do Conselho Monetário Nacional e leilão de gás natural da União, uma oportunidade para a indústria que consome gás.
- Sexta (23): IPCA-15 de outubro, a prévia da inflação. A projeção da AE, de 0,41%, foi feita antes das surpresas do IGP-10, do diesel e da inflação alemã, e o dado ganhou importância como último sinal de preços antes do Copom.
- Domingo (25): segundo turno da eleição presidencial.
- Segunda (26): fim do ciclo atual do subsídio ao diesel.
- Depois: decisões do Fed em 28 de outubro e do Copom em 4 de novembro.
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Próximos passos
- Atualizar o custo de frete de outubro com o preço do diesel da primeira quinzena.
- Simular o custo logístico sem o subsídio ao diesel a partir de 27 de outubro.
- Avaliar a cobertura cambial de importações do primeiro trimestre com o dólar a R$ 5,02.
- Separar a exposição de compras por moeda antes de revisar o CAPEX de 2027.
- Ativar o plano de contingência logística para o Paraná e Santa Catarina até domingo.
Esta publicação tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento, jurídica ou financeira. As decisões tomadas com base neste material são de responsabilidade exclusiva do leitor. Análise Econômica.
