"O mercado já comprou 2027. A economia ainda está pagando 2026."
O 3º trimestre terminou com dois retratos do Brasil. No primeiro, a bolsa subiu mais de 8% e o dólar passou setembro parado. No segundo, as famílias bateram recorde de inadimplência e a indústria nunca quis investir tão pouco desde 2020. Os dois são verdadeiros.
Visão AE
O 3º trimestre terminou com dois retratos do Brasil.
No primeiro, a bolsa subiu mais de 8% e o dólar passou setembro parado. No segundo, as famílias bateram recorde de inadimplência e a indústria nunca quis investir tão pouco desde 2020.
Os dois são verdadeiros. Mas só um deles compra o seu produto.
A decisão mental desta edição: planeje 2027 com a economia real, não com o humor do mercado. O mercado antecipa. O seu cliente vive o presente.
Em 60 segundos
- Mercado: bolsa +8,3% no trimestre, dólar estável em setembro.
- Economia real: calote recorde e indústria sem investir. É a base do orçamento.
- EUA: inflação estável após revisão. O alívio depende do emprego de sexta.
- China: indústria volta aos 50 pontos. Boa notícia pequena para commodities.
- Diesel: aperto global. Separe diesel e petróleo nas premissas.
- IA: preço em queda e concorrência em alta. Hora de renegociar e refazer contas.
- Tributário: Simples híbrido até 30/10. Converse com fornecedores pequenos.
O que muda na mesa do CEO
Orçamento. O índice de ações não é premissa de receita. A inadimplência recorde e o investimento industrial em baixa, sim.
Captação. A janela de mercado está mais aberta do que o noticiário eleitoral sugere. Vale separar o planejamento financeiro do operacional.
Custos. O petróleo fechou setembro 7% mais caro, e o diesel ganhou um problema próprio. Outubro começa com energia elétrica mais barata e combustível recalculado.
Tecnologia. A IA avançada ficou muito mais barata, e há mais fornecedores disputando o seu orçamento. Business cases descartados no semestre merecem uma segunda conta.
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Dois Brasis no fechamento do trimestre
Primeiro, o Brasil do mercado. O Ibovespa subiu 1,37% na quarta, fechou setembro com alta de 5% e o trimestre com 8,3%. Em 2026, acumula 15,7%. O dólar caiu 0,81% no dia e terminou o mês praticamente estável. Os bancos lideraram a alta.
Apesar do barulho eleitoral, o investidor fechou o trimestre comprando Brasil.
Agora, o Brasil da economia real, com dados da própria semana:
- A inadimplência das famílias no crédito livre chegou a 8%, e no cartão a 10%, ambos recordes.
- A intenção de investir da indústria está no menor nível desde 2020.
- O saldo de empregos formais no ano está 25% abaixo de 2025.
O descolamento é comum quando o mercado antecipa juros menores. Mas quem vende para o consumidor ou para a indústria vive o segundo retrato, não o primeiro.
O mercado já comprou 2027. A economia ainda está pagando 2026.
Nos bancos, o contraste é mais visível. As ações sobem pelo que acontece nos juros globais, enquanto as provisões refletem o que acontece no cartão de crédito.
A pergunta para o conselho: nosso orçamento de 2027 foi feito olhando para o índice ou para o cliente?

O alívio de fora, lido com cuidado
A quarta-feira teve dois dados externos favoráveis. Ambos pedem leitura atenta.
Estados Unidos. O índice de preços PCE, a medida de inflação que o banco central americano mais acompanha, subiu 0,3% em agosto e ficou em 3,4% em 12 meses. O núcleo ficou em 3,0%. O mercado leu como alívio e ampliou a aposta de que o Fed pode parar de subir juros.
O detalhe: a inflação não caiu. Ela ficou estável porque julho foi revisado de 3,7% para 3,4%, com mudanças na forma de medir preços de software, serviços jurídicos e gestão de investimentos.
A inflação americana não caiu. Foi recalculada.
O alívio no câmbio é real, mas frágil. O relatório de emprego americano desta sexta pode confirmá-lo ou desfazê-lo.
China. O índice de atividade industrial (PMI) oficial subiu de 49,8 para 50,1 em setembro. Acima de 50, a indústria cresce. Serviços e construção também voltaram a crescer.
Para mineração, agro e celulose, é notícia boa, mas pequena. Doze dos 21 setores industriais chineses estão em expansão, e o destaque é alta tecnologia. Ainda é estabilização, não um novo ciclo de construção pesada.
O maior cliente do Brasil voltou a crescer. Por pouco, mas voltou.
A bolsa reage ao que pode acontecer. A demanda reage ao que está acontecendo. Seu orçamento precisa saber a diferença.

O petróleo e o diesel deixaram de andar juntos
O Brent para dezembro subiu 1,94% na quarta, a US$ 98,03, com novos relatos de ataques no Estreito de Ormuz. No mês, a alta foi de cerca de 7%, mesmo com as exportações da região aumentando.
O dado novo está no diesel:
- Os EUA podem limitar suas exportações de diesel.
- A Rússia estendeu sua proibição até o fim de outubro.
- A Europa já sente falta do produto, e os estoques americanos de diesel caíram muito além do previsto.
O Brasil importa parte do diesel que consome. Um aperto global pode pressionar o preço aqui mesmo que o petróleo pare de subir. O diesel S-10 já tinha subido 2,7% em setembro, para R$ 7,24 por litro.
Para agro e logística, isso muda a forma de orçar:
- O custo do plantio e do frete precisa de uma linha própria para o diesel, separada do petróleo.
- Travar parte das compras em dias de queda vale mais do que esperar estabilidade.
Hoje entram em vigor a bandeira verde na conta de luz, a primeira desde abril, e a nova base de cálculo do ICMS dos combustíveis. A Aneel ainda projeta alta média de 9,4% nas tarifas do ano.
Luz mais barata e diesel recalculado. Um não compensa o outro.

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A IA ficou mais barata, e isso muda a conta
Na mesma semana em que a Meta entrou no mercado corporativo de IA, a OpenAI respondeu em seu evento anual para desenvolvedores.
O que foi anunciado, segundo a própria empresa:
- Modelo mais barato: o GPT-6.1 Sol melhora programação e uso de computador, a um quinto do preço por uso do modelo mais avançado da casa.
- Agentes permanentes: os Dots funcionam continuamente dentro do ChatGPT, do Slack e do Microsoft Teams.
- Marketplace corporativo: mais de 30 parceiros, entre eles Adobe, Salesforce e ServiceNow.
- Privacidade: uma oferta que promete não reter dados das empresas clientes.
Três leituras para quem compra tecnologia:
- O preço caiu. Automação que não se pagava em março pode se pagar agora.
- A concorrência subiu. Com Meta e OpenAI disputando o mesmo orçamento, o poder de negociação está com o comprador. Contratos longos e exclusivos assinados agora podem sair caros em poucos meses.
- A governança ficou mais urgente. A própria OpenAI afirma que os agentes podem errar e que tarefas sensíveis devem ficar com o usuário. Um agente que vive no Slack da empresa precisa de regras de acesso.
A licença ficou mais barata. O controle, não.

Para o CFO: a reforma tributária ganhou mais um mês
O Comitê Gestor do Simples Nacional prorrogou os prazos. As empresas do Simples têm até 30 de outubro para decidir se recolhem IBS e CBS fora da guia única em 2027, o chamado Simples híbrido. A adesão ao Simples vai até 15 de outubro, e o cancelamento pode ser feito entre 3 de novembro e 20 de dezembro.
Por que isso importa para empresas médias e grandes: o regime escolhido pelo fornecedor pequeno afeta o crédito tributário que o comprador poderá aproveitar em 2027.
A reforma ainda não mudou a alíquota. Já mudou a conversa com o fornecedor.
O que colocar na reunião de diretoria
- Nosso orçamento de 2027 usa premissas do mercado ou da economia real?
- Estamos aproveitando a janela de mercado para alongar dívida ou captar?
- Nossas premissas de custo separam diesel e petróleo?
- Quais projetos de IA descartados por custo merecem uma nova conta?
- Sabemos quais fornecedores relevantes estão no Simples e qual regime vão escolher?
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Agenda da próxima semana
- Hoje (1º): bandeira verde e nova base do ICMS dos combustíveis entram em vigor. Saem os índices de atividade industrial (PMI) do Brasil, EUA e Europa. A China voltou aos 50 pontos. E o Brasil, que estava em 46,3?
- Sexta (2): produção industrial de agosto, com projeção AE de +0,1%, que confirma ou não o agosto fraco apontado pela CNI. Também sai o relatório de emprego americano (payroll), que decide se o alívio de quarta se sustenta.
- Domingo (4): primeiro turno das eleições. Com empate técnico nas pesquisas, planeje decisões para duas datas: 4 e 25 de outubro.
- Até 30/10: prazo do Simples híbrido. Converse com os fornecedores antes da escolha deles.
Esta publicação tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento, jurídica ou financeira. As decisões tomadas com base neste material são de responsabilidade exclusiva do leitor. Análise Econômica.
