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Bússola do CEO•15 de outubro de 2026•Edição #57

75 a 1. Agora a pergunta é quando a sua escala muda

Em 24 horas, três premissas do orçamento de 2027 mudaram de lugar.

Bússola do CEO · Leitura de 9 min
75 a 1. Agora a pergunta é quando a sua escala muda
"Nenhuma dessas notícias, sozinha, muda o ano. Juntas, mudam a planilha."

Em 24 horas, três premissas do orçamento de 2027 mudaram de lugar. O dinheiro ficou mais caro lá fora. A demanda encolheu aqui dentro. E a folha ganhou um caminho definido para ficar mais cara.

Visão AE

Em 24 horas, três premissas do orçamento de 2027 mudaram de lugar.

O dinheiro ficou mais caro lá fora. A demanda encolheu aqui dentro. E a folha ganhou um caminho definido para ficar mais cara.

Nenhuma dessas notícias, sozinha, muda o ano. Juntas, mudam a planilha.

Na terça, o mercado via uma chance em cinco de o Fed subir os juros em outubro. Na quarta, passou a ver mais de uma em duas. No mesmo dia, o IBGE mostrou o setor de serviços encolhendo quando se esperava alta. E, à noite, o Senado aprovou em dois turnos, por 75 a 1, o fim da escala 6x1.

A decisão desta edição é simples de dizer e trabalhosa de fazer: o orçamento de 2027 precisa fechar com dinheiro caro por mais tempo, demanda morna e jornada de 42 horas. Se ele só fecha no cenário otimista, ainda não está pronto.

Em 60 segundos

  • 6x1: aprovada em dois turnos no Senado; 42 horas dois meses após a promulgação, ainda sem data.
  • Fed: chance de alta em 28/10 foi a 54%; o espaço para o Copom cortar encolheu.
  • Dívida: empresas alavancadas caíram forte na bolsa sem notícia própria. O canal é o juro.
  • Serviços: −0,1% em agosto, com queda nos serviços que as empresas contratam.
  • Consumo: 61% querem começar o Natal na Black Friday. O estoque precisa chegar antes.
  • China: preço ao produtor em 5%. Insumo importado mais caro.
  • Diesel: déficit global até o fim do ano, mesmo com o consumo em queda.
  • Eleição: Quaest mostra 51% a 49% nos votos válidos, empate técnico. Datafolha sai hoje.

O que muda na mesa do CEO

Folha. A contagem começa na promulgação, que ainda não tem data. Se ela sair em outubro, a escala 5x2 e a jornada de 42 horas passam a valer em dezembro, em pleno Natal. As 40 horas chegam cerca de um ano depois.

Dívida. O título de 10 anos do governo americano foi a 5,29%. Aqui, os juros que o mercado cobra para emprestar até 2035 subiram 0,08 ponto percentual, para 12,66% ao ano. A janela de captação aberta depois do 1º turno continua aberta, mas ficou mais estreita.

Demanda. Caíram justamente os serviços que as empresas contratam: transporte, serviços profissionais e administrativos. Os serviços às famílias subiram. A família ainda gasta. A empresa já segura.

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75 a 1: a pergunta agora é quando

Num Senado dividido, a dez dias de uma eleição presidencial apertada, uma mudança trabalhista passou com um único voto contra. Duas vezes na mesma noite.

Quando o placar é esse, o assunto deixa de ser político. Vira operacional.

O texto é o mesmo aprovado pela Câmara em maio, por isso não volta para lá. Vai direto à promulgação pelo Congresso, sem sanção presidencial. A data ainda será definida.

As regras que entram na conta:

  • 42 horas semanais dois meses após a publicação, com dois dias de descanso, um deles preferencialmente no domingo, e salário preservado.
  • 40 horas semanais 14 meses após a publicação.
  • Acordos e convenções coletivas seguem válidos para regimes diferenciados e podem ajustar a jornada diária durante a transição.
  • Profissionais de nível superior com salário a partir de R$ 21.188,87 podem negociar jornada diferente, mantida a 5x2.
  • Micro e pequenas empresas terão regras de transição definidas em lei complementar, ainda por escrever.

Calendário e relógio sobre mesa de trabalho simbolizando mudança de escalas

Onde a conta chega primeiro:

Varejo. Loja aberta sete dias por semana precisa de mais gente ou de mais horas extras para cobrir a mesma grade. E dezembro é o pior mês possível para estrear uma escala nova.

Saúde. No hospital, a escala não fecha às 18h nem no domingo. Enfermagem, apoio, limpeza e segurança precisam ser refeitos. Muitos regimes especiais, como o 12x36, dependem do que cada convenção prevê. Vale conferir uma por uma, em vez de presumir proteção.

Terceirizados. Contratos de limpeza, vigilância e logística vão ser reabertos pelos fornecedores. Quem pedir a conta antes negocia melhor do que quem a recebe pronta.

Construção. Cronograma de obra feito com 44 horas vira premissa velha. A revisão é de prazo e de custo.

O Fed voltou à mesa, seis dias antes do Copom

A inflação ao consumidor dos EUA subiu 3,7% em 12 meses, acima dos 3,6% esperados. A gasolina, com alta de 9,1% no mês, respondeu por mais da metade do avanço.

O dado que mexeu com o mercado foi outro. A inflação sem alimentos e energia, que mostra a tendência sem o efeito do susto do dia, foi de 2,4% para 2,6%. Economistas já apontam alta em vestuário e automóveis. Ou seja: o petróleo começou a contaminar o resto.

O placar de apostas reagiu na hora. A chance de alta dos juros na reunião de 28 de outubro foi de 20,7% para 54%.

É probabilidade, não decisão. Mas a agenda pesa: o Copom se reúne em 3 e 4 de novembro, seis dias depois do Fed. O Focus projeta Selic de 13,25% no fim do ano, contra 13,75% hoje. Um Fed subindo torna mais difícil para o Banco Central cortar sem pressionar o dólar. O espaço não acabou. Ficou menor.

Fachada do prédio do Federal Reserve em Washington D.C.

Foto: AgnosticPreachersKid · CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons

A bolsa brasileira fez a conta em tempo real. O Ibovespa caiu só 0,18%, mas as quedas se concentraram em quem tem dívida alta e venda sensível a juros. A Casas Bahia perdeu 24,31% em um dia e o Magazine Luiza, 4,49%. A imprensa atribuiu o movimento à alta dos juros futuros, sem nenhuma notícia própria das empresas.

O recado é sobre dívida, não sobre empresas específicas. A bolsa fez ontem a conta que o balanço fará nos próximos trimestres.

Para bancos e credores, o efeito é de carteira: clientes alavancados e covenants no limite merecem conversa agora, não na renovação.

Em um dia, a chance de o Fed subir os juros passou de uma em cinco para mais de uma em duas.

A família ainda gasta. A empresa já segura.

O volume de serviços caiu 0,1% em agosto. A mediana do mercado esperava alta de 0,5%, e a projeção da AE era de +0,30%. Na comparação com agosto de 2025, a alta foi de 0,6%, contra 1,5% esperado.

Serviços são cerca de dois terços da economia. E a composição importa mais que o total:

  • Serviços às famílias: +2,1%
  • Transportes: −0,2%
  • Serviços profissionais e administrativos: −0,2%
  • Outros serviços: −1%

O consumidor resiste. A empresa reduziu compras de frete, consultoria e apoio. Para quem vende para outras empresas, esse é o termômetro que importa.

O sinal sugere risco de o IBC-Br de agosto, a prévia do PIB que sai na sexta, vir abaixo dos +0,10% projetados pela AE. Antes disso, às 9h de hoje, saem as vendas do varejo. A AE projeta alta de 0,20%, depois de queda de 0,8% em julho.

E há um movimento curioso no comportamento de compra. Uma pesquisa da Helloo com 600 consumidores mostra que 61% pretendem começar as compras de Natal na Black Friday. 67% compraria antes da data oficial se achassem boa oferta. E 34% esperam gastar mais do que em 2025.

Parece boa notícia. É boa, com uma ressalva. Antecipar o Natal não cria demanda nova: concentra em novembro o que viria em dezembro. O estoque precisa chegar antes, financiado com juro mais caro. E dezembro, o mês que pode ficar mais vazio, é justamente quando a escala 5x2 pode começar a valer.

O Natal começa em novembro. O juro do estoque, antes.

A fábrica do mundo acelerou. E subiu o preço.

Washington e Pequim fizeram trégua. A fábrica chinesa não perdeu tempo.

As exportações da China cresceram 36,3% em setembro, muito acima dos 25,7% esperados. As vendas para os EUA subiram 39,6%. O superávit comercial chegou a US$ 133,5 bilhões, o maior em 20 meses.

Navios e contêineres no Porto de Xangai na China

Foto: Roger Davies · CC BY-SA 2.0 · Wikimedia Commons

O detalhe que interessa ao comprador brasileiro está no preço. O preço ao produtor chinês subiu 5,0% em 12 meses, o ritmo mais forte desde junho de 2022, puxado por combustíveis, químicos e metais não ferrosos. Já a inflação ao consumidor chinês ficou em 0,9%.

A China segura o preço para o chinês. Não para quem importa dela.

Para a indústria que compra insumo chinês, isso muda uma conta que parecia resolvida. O dólar perto de R$ 5 ajudava. Uma alta de 5% na origem já come boa parte desse alívio.

Do outro lado, as importações chinesas cresceram 31%. A leitura provável é de demanda firme por matérias-primas, o que tende a ajudar exportadores de commodities. Mas o dado não detalha produtos. No mesmo dia, a Vale caiu 0,66% com o minério. Metais e minério seguem caminhos diferentes.

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Menos petróleo no mundo. E o diesel não sobra.

A Agência Internacional de Energia projeta que a demanda mundial de petróleo vai cair, em média, 2,6 milhões de barris por dia em 2026. Os motivos são a guerra com o Irã, os combustíveis caros e a economia mais fraca.

Refinaria de petróleo com tanques de armazenamento ao entardecer

Seria de esperar diesel mais barato. Não é o que a agência vê. O diesel responde por um quarto da queda de consumo, mas o mercado deve seguir em déficit até o fim do ano. Os estoques globais estão 509 milhões de barris abaixo do nível pré-guerra, e os estoques em terra estão no menor nível desde pelo menos 2016.

Com pouca reserva, qualquer ataque mexe no preço. Na quarta, ataques houthis a instalações sauditas mantiveram o Brent perto de US$ 106, na terceira alta seguida. A Petrobras subiu 2,22%.

Para o agro, o plantio da safra 2026/27 está sendo feito com o diesel mais disputado do mundo. Para a logística e o varejo, frete caro é premissa até dezembro. A AIE só vê possível sobra de oferta em 2027, e isso depende do fim dos conflitos.

O que colocar na reunião de diretoria

  1. Quanto custa a escala 5x2 com 42 horas na nossa operação, unidade por unidade, a partir de dezembro?
  2. Quais convenções coletivas cobrem nossas escalas especiais e o que exatamente elas permitem?
  3. Nosso orçamento de 2027 fecha com a Selic caindo menos do que o mercado projeta hoje?
  4. Quanto estoque de novembro conseguimos financiar sem apertar o caixa de dezembro?

Agenda da próxima semana

Hoje, quinta (15/10)

  • 9h, vendas do varejo de agosto. AE projeta +0,20%, depois de −0,8%. Mostra se o consumo segura o que os serviços não seguraram.
  • Datafolha do 2º turno. Na rodada anterior, 52% a 48% nos válidos. Câmbio e juros devem reagir.
  • EUA: vendas no varejo e preços ao produtor de setembro. Confirmam ou não a inflação se espalhando.
  • Resultado da ASML. A fabricante das máquinas que produzem os chips mais avançados é o termômetro do ciclo de investimento em IA.

Sexta (16/10)

  • 9h, IBC-Br de agosto. AE projeta +0,10%. Depois dos serviços, o risco é vir abaixo.

Datas que definem o resto do ano

  • 25/10: 2º turno presidencial.
  • 28/10: decisão do Fed.
  • 3 e 4/11: Copom, a primeira decisão depois da eleição e do Fed.

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Próximos passos

  • Simular a folha com 42 horas a partir de dezembro e 40 horas no fim de 2027.
  • Pedir aos terceirizados a conta da nova jornada antes que eles a apresentem.
  • Refazer a premissa de Selic de 2027 com cortes menores e executar o funding já aprovado.
  • Planejar estoque para o pico de novembro sem inflar as compras de dezembro.
  • Travar diesel até o fim do ano onde houver contrato disponível.

Esta publicação tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento, jurídica ou financeira. As decisões tomadas com base neste material são de responsabilidade exclusiva do leitor. Análise Econômica.

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